Descrição de chapéu Cinema

'Paraty é uma bolha', diz diretor que vai filmar 'Os Sertões' em Canudos

Miguel Gomes falou sobre adaptação em mesa com teórico Ismail Xavier na Flip

Iara Biderman
PARATY (RJ)

O sertão que vira mar e os sertões que viram cinema foi o tema da mesa que reuniu o professor e teórico de cinema Ismail Xavier e o cineasta português Miguel Gomes neste sábado (13), na tenda principal da Flip.

Xavier, autor de “Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome”, livro relançado nesta edição da Festa Literária de Paraty, falou sobre o diálogo entre o cineasta baiano e a obra de Euclides em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, filmado em 1963 por Glauber.

Teórico Ismail Xavier e cineasta português Miguel Gomes na mesa 15 (Monte Santo), como parte da Flip 2019, em Paraty, no estado do Rio de Janeiro
Teórico Ismail Xavier e cineasta português Miguel Gomes na mesa "Monte Santo", como parte da Flip 2019, em Paraty, no estado do Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli/Folhapress

“A filmagem foi marcada pela atmosfera de expectativas de mudanças, de reformas de base”, disse Xavier.

Miguel Gomes contou sobre o novo filme que vai fazer, também baseado no livro, que o cineasta leu por acaso em um voo de Portugal para o Brasil. “É uma das prosas mais poderosas da língua portuguesa”, afirmou. 

Gomes, que vai se mudar por um tempo para Canudos, quer ser fiel ao texto a seu modo. “A mitologia do sertão é tão real quanto as pedras.”

Ele não quis dar spoilers do novo filme, mas contou que terá cerca de duas horas. O título escolhido é “Selvageria”. 

“Blaise Cendras queria traduzir ‘Os Sertões’ para o francês, com o título ‘sauvagerie’. Ele não fez a tradução e eu roubei o título.”

Voltando ao sertão-mar de Glauber em “Deus e o Diabo”, Xavier disse que o filme era uma alegoria da esperança.

“Neste Brasil dos sonhos desfeitos, como falou José Murilo de Carvalho aqui na Flip, precisamos de um novo Glauber que nos traga a profecia de mudança novamente”, disse Xavier. 

O cineasta português quis encerrar a mesa com uma pequena nota de esperança. “De Portugal, vendo as notícias em jornais e TV sobre o Brasil, ficamos um pouco deprimidos. Mas estar na Flip, vendo brasileiros pensar o Brasil, é algo positivo. Tenho consciência que Paraty é uma bolha, mas é importante ter espaços onde o Brasil se pensa.” 

Com o tempo reservado à mesa já esgotado, a mediadora Marina Person afirmou que era mesmo o melhor para encerrar o evento, apesar de as perguntas da plateia ainda não terem sido lidas. “Disseram que o melhor é encerrar a mesa no seu auge. Depois desta apoteose, acho que podemos terminar”, disse ela.

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