Cineasta português conta por que resolveu filmar 'Os Sertões'

Miguel Gomes, convidado da Flip, decidiu acrescentar em seu longa impressões sobre a realidade atual de Canudos

Miguel Gomes

[RESUMO] Fascinado por "Os Sertões" desde a primeira leitura, em 2015, cineasta lisboeta Miguel Gomes conta por que resolveu filmar o clássico e acrescentar impressões sobre a realidade atual da região baiana de Canudos.

Noventa e nove por cento das adaptações da literatura para o cinema têm como base novelas e romances. Se Euclides da Cunha tivesse escrito “A Guerra do Fim do Mundo”, novela de Vargas Llosa partindo dos mesmos acontecimentos de “Os Sertões”, acredito que já há muito haveria uma adaptação do seu livro no cinema brasileiro. 

Ela não existe, apesar das múltiplas aproximações de Glauber Rocha e do cinema novo brasileiro à mitologia da Guerra de Canudos e à figura de Antônio Conselheiro.

“Os Sertões” começa por ser um compêndio de ciências naturais sobre uma região do Nordeste, continua como um ensaio antropológico sobre os seus habitantes e termina como crônica de guerra. Percebo a lógica de quem o considera inadaptável para cinema, mas eu não concordo e estou pronto para o provar com a adaptação que faremos do livro de Euclides. Título: “Selvajaria”. 

Pretendemos filmar no próximo ano na região de Canudos, tendo como protagonistas muitos dos próprios habitantes locais. Sendo uma obra de ficção, haverá alguma liberdade criativa na transposição do livro para o filme. Mas parece-me impensável transpor “Os Sertões” para cinema sem filmar em Canudos ou sem filmar a população de Canudos. Seria trair “A Terra” e “O Homem”.

Tenho a sensação de que o Brasil mantém uma relação estranha com o livro de Euclides da Cunha. Quase não o lê, mas reconhece-lhe um lugar central na paisagem cultural do país. Interessa-se pelo que é narrado, mas queixa-se da complexidade do texto. E, num tempo em que vive entrincheirado em posições fixas e inamovíveis, parece-me conviver mal com as ambiguidades e contradições de Euclides da Cunha e de “Os Sertões”. 

Recorde-se que o escritor, convicto republicano, partiu como repórter para Canudos com uma ideia pré-definida de quem eram os “bons” e os “maus” nesta história... Mas reviu as suas posições e o seu livro é também o documento desse movimento de mudança. O que me parece admirável.

A imensa tragédia da guerra em Canudos interessa-me tanto como me interessa a imensa arquitetura literária que Euclides da Cunha erigiu para a abordar. Foi no final de 2015 que tomei contato com o livro, numa ida ao Brasil. Lidas 60 páginas, entrei em êxtase perante a evidência do gênio literário do escritor. 

A meu ver, “Os Sertões” é um dos mais brilhantes e surpreendentes textos de sempre em língua portuguesa. Logo a partir desse primeiro momento, juntamente com o produtor português Luís Urbano, começamos a tomar as primeiras diligências para indagar da possibilidade de realização de uma versão cinematográfica de “Os Sertões”.

Trabalhei na escrita do roteiro com três colaboradores habituais: Mariana Ricardo, Telmo Churro e Maureen Fazendeiro. Em 2016 e 2017 fomos escrevendo em Lisboa diferentes versões do roteiro e deslocamo-nos por duas vezes a Canudos, onde permanecemos várias semanas.

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O diretor português Miguel Gomes, em cena de sua trilogia de filmes "As Mil e Uma Noites" (2015) - Divulgação

Hoje, olhando para trás, parece-me claro que passamos o primeiro ano a tentar capturar o livro e o segundo ano a distanciarmo-nos dele.

No escritório onde trabalhávamos, as paredes foram ficando cobertas com centenas de papelinhos contendo descrições de cenas e trechos de “Os Sertões”. Sabíamos que teríamos de eliminar e condensar vários segmentos de um livro tão extenso, mas respeitando sempre a sua estrutura e encontrando equivalentes cinematográficos para os mecanismos literários de Euclides. 

Foi um enorme desafio porque em “Os Sertões” a combinação de contrários é incrível —um máximo de racionalidade com irracionalidade máxima! É assim a visão que Euclides tem da campanha militar em Canudos, mas também é assim a sua prosa; assenta numa estrutura lógica muito desenhada e quase científica contendo no seu interior caprichosas digressões, momentos de delírio, arrebatamentos líricos, estados de alma do autor...

Há quem confunda isso com maneirismos e decorativismos, mas, olhando bem para o texto, é notável a justeza e precisão na escolha de cada palavra de “Os Sertões”...

A versão do roteiro à qual chegamos com este trabalho moroso e obsessivo feito exclusivamente a partir do livro teria potencial para dar um filme incrível. Mas esse filme não será feito por duas razões de força maior. 

Primeiro, o seu custo seria completamente incomportável para um projeto com estas características, provavelmente seria o filme mais caro da história do cinema brasileiro (ou português).

Segundo, ainda não era este o filme que eu queria fazer, porque uma versão cinematográfica de “Os Sertões”, exclusivamente euclidiana, seguindo com ortodoxia as palavras do autor, iria ignorar o fato de ter decorrido mais de um século desde o momento da escrita do livro até hoje, iria ignorar que o autor do filme não pode ser o autor do livro, iria ignorar que brevemente vai andar um português (vários, na realidade) pelo sertão... E isso tem de contar.

Reproduzamos, intactas, todas as impressões, verdadeiras ou ilusórias, que tivemos quando, de repente, acompanhando a celeridade de uma marcha militar, demos de frente, numa volta do sertão, com aqueles desconhecidos singulares, que ali estão, abandonados, há três séculos.

É assim que Euclides da Cunha lança a famosa descrição do sertanejo no livro. Pois bem, acho que este filme só fará sentido se o seu autor puder juntar as suas próprias impressões (verdadeiras ou ilusórias) às do autor do livro. Poderão coincidir ou divergir, mas o filme só fará sentido neste confronto de olhares. 

Por isso, no segundo ano de trabalho no roteiro do filme, começamos a alterar de maneira mais radical o roteiro, juntando-lhe elementos que não faziam parte do livro, mas que nos vieram através do que observamos e vivemos nas sete semanas passadas no sertão. Tornou-se uma regra de ouro para nós: alterar “Os Sertões” de 1902 a partir da Canudos de 2019!

Teria muito mais para dizer ou desenvolver sobre o trabalho de escrita do roteiro. Ou sobre Canudos. Ou até sobre os primeiros embates com o meio do cinema brasileiro. Talvez fique para mais tarde. Ou talvez seja o filme, no final, a falar por mim. 

O que é certo é que o meu empenho e entusiasmo em fazer este filme não arrefeceu com o tempo, já longo, decorrido desde o impulso inicial até hoje. E tenho já muitas saudades de estar no sertão! Até já.


Miguel Gomes, diretor do filme “Tabu” (2012) e da trilogia “As Mil e Uma Noites” (2015), divide mesa com Ismail Xavier na programação principal da Flip.

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