Destruída duas vezes, Canudos sobrevive em meio a escombros e miséria

Jornalista narra viagem a cidade imortalizada em 'Os Sertões' pelo homenageado da Flip, Euclides da Cunha

população amedrontada sob soldados

'400 Jagunços Prisioneiros', fotografia de Flavio de Barros que retrata o final da Guerra de Canudos Flavio de Barros - 2.out.1897/Instituto Moreira Salles

Marcos Vinícius Almeida

[RESUMO] Destruída pelo Exército e alagada por açude, Canudos sobrevive em meio a escombros e miséria. Jornalista narra viagem pela mítica cidade baiana, símbolo de um dos conflitos mais violentos da história do país, imortalizado pelo homenageado da Flip deste ano, Euclides da Cunha, no clássico “Os Sertões”.

Uma Rural Willys, motor a gasolina, seis cilindros, atravessou a BR-116, no nordeste da Bahia, transportando uma equipe de filmagem em 1962. Dentro do veículo, que partiu de Salvador, a sensação térmica devia estar próxima dos 40 graus. 

Carlos Gaspar —repórter, diretor e produtor da série documental “A Grande Jornada”— conferia o mapa rodoviário. Signos cartográficos se fundiam às manchas de suor impressas por seus próprios dedos. No banco traseiro, o cinegrafista alemão Heinz Forthmann cochilava. “É na próxima”, disse Gaspar, “à direita”.

O motorista conferiu o retrovisor. Reduziu a marcha. Dobrou à direita, na BR-235. O carro avançou por um caminho de terra ainda mais estreito. Surgiu uma placa: “Canudos, 12 km”.

Gaspar e sua equipe fizeram um valioso registro cinematográfico antes que o açude do Cocorobó, idealizado por Getúlio Vargas, alagasse o povoado. Assistiram a uma missa, ao lado de parentes dos que sobreviveram à Guerra de Canudos, diante do cruzeiro erguido por Antônio Conselheiro em 1893, cujas fissuras de bala podem ser vistas até hoje.

Quase seis décadas depois, estamos numa segunda-feira, 7 de janeiro de 2019. Quando o ônibus da Falcão Real, laterais amassadas, para-choque raspado, estaciona na rodoviária de Salvador, por volta das 15h, tenho um mau pressentimento. Faltam ainda mais de 400 km até o destino final. Qualquer pessoa que dá sinal à beira da estrada tem acesso ao ônibus, sem um mínimo controle de identificação. Como a BR-116 não é duplicada, o risco de acidentes nas ultrapassagens é constante. O motorista não parece preocupado. 

Paramos numa lanchonete de beira de estrada, já por volta das 20h. “Tomem cuidado ao descer”, diz o motorista, “não tenho controle sobre o ônibus”. Talvez falasse do fluxo de passageiros. Enquanto fumava meu cigarro, ele arrastava uma pedra, um resto de construção, e a colocava na frente de uma das rodas. 

Eu não ficaria preocupado se estivesse sozinho. Mas como Joaquim, meu filho de cinco anos, e Raquel, minha companheira —que passou toda a viagem com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida nas mãos—, também estavam no ônibus, chegar vivo a Canudos seria um alívio.

“Alguém vem buscar vocês?”, pergunta o motorista, já na cidade, por volta das 23h. Não há rodoviária.

“Acho que sim”, respondo. Dona Joselina mandaria um táxi. Olho ao redor, mas não vejo ninguém. Enquanto seguro Joaquim e as malas, Raquel tenta ligar para a pousada. Um velho Gol se aproxima. “Vocês que são hóspedes da dona Joselina?”, diz um homem de óculos. “Eu vim pegá-los.”

Quem assiste a “Um Sino Dobra em Canudos” (1962), documentário dirigido por Carlos Gaspar, percebe algo fora do lugar. Seu valor é inquestionável, mas ele exige certo esforço do espectador para superar a espessa névoa retórica: a narração do filme. 

Gaspar solta frases hiperbólicas: “É o progresso escrevendo o derradeiro capítulo, os últimos dias de Canudos”, “quartel-general dos temíveis jagunços”. Conversando com uma funcionária do Museu da República, nos estúdios, Gaspar apresenta as “relíquias da guerra”. O tom é enviesado.

O primeiro objeto que ele ergue é a corneta que ordenou a ofensiva contra a população. Depois empunha um facão, arma dos ditos jagunços: “eram gente de uma incrível atrocidade [...], capaz de degolar de um só golpe.” O equivocado retrato de Antônio Conselheiro como um louco também está presente. 

O professor Roberto Ventura apontou equívocos dessas teses em textos publicados na Folha em setembro de 1997, nos cem anos da morte de Conselheiro. A leitura dos sermões escritos pelo próprio líder de Canudos não corrobora a imagem de um religioso fanático construída por Euclides da Cunha em seu clássico livro “Os Sertões” (1902).

E em matéria de violência, nada superou o Exército brasileiro, rancoroso das três derrotas sofridas para os homens de Conselheiro.

A quarta expedição foi a desforra dos militares. “Mais de 5.000 casas foram arrasadas uma a uma”, diz o texto de uma cartilha distribuída pela prefeitura de Canudos, em 1990, “para não deixar rastro”. Milhares de cadáveres insepultos foram consumidos pelo fogo.

A Canudos de hoje é a terceira da história. A primeira, criada no século 18, foi destruída pelo Exército em 1897, no fim da guerra. A segunda surgiu por volta de 1910, construída sobre as ruínas da anterior. Os primeiros habitantes eram sobreviventes do conflito.  

Em 1950, com o início das obras da barragem que inundaria o local, os moradores começaram a sair, formando um novo vilarejo a uma distância de cerca de 20 quilômetros. A segunda Canudos desapareceu sob as águas do açude de Cocorobó, em 1969. O vilarejo tornou-se, em 1985, a terceira Canudos.

A Pousada Pôr do Sol fica na parte mais alta da cidade, com uma visão privilegiada para o açude Cocorobó. De frente para ela e de costas para o açude, há uma escultura de Conselheiro, de madeira, erguendo uma Bíblia e um crucifixo. Com acomodações simples e aconchegantes, o lugar recebe muitos pesquisadores e funcionários do campus da Uneb (Universidade do Estado da Bahia) instalado na cidade.

Joselina Oliveira Rabelo, 73, que coordena o local, é descendente de sobreviventes. Nasceu na segunda Canudos, aquela retratada no filme de Carlos Gaspar. Dona Joselina, como é conhecida, fala de sua história com orgulho. Avó e bisavó paternas estiveram na guerra. Foram capturadas e levadas para Salvador. A história do conflito lhe foi passada por seu pai, João Guerra, e seu avô, Joaquim Valério de Oliveira.

Olhando para a estátua de madeira no jardim, dona Joselina diz que a primeira Canudos foi um exemplo de resistência e organização.

Contesta a ideia de Conselheiro como louco e de seus seguidores como fanáticos. “Ele foi muito perseguido nessas andanças dele. Construía igreja, consertava cemitério. Tem gente que fala que foi Conselheiro que começou com isso de comunismo”, ela diz, um tanto incrédula, sentada numa cadeira de balanço na varanda da pousada.

Receber pessoas interessadas na memória do lugar a deixa feliz. Lembra-se de uma hóspede, professora de história em São Paulo, que lhe pediu uma bandeira. “Ela me disse que quando abre aquela bandeira de Canudos na sala, não tem um aluno que não preste atenção. Fica tudo de olho arregalado.” Seus olhos, por trás dos óculos, também brilham. “Ariano Suassuna quem disse: ‘Quem não conhece a história de Canudos não conhece o Brasil’. E é verdade”.

No fim da tarde, o sol cáustico perde força e a temperatura arrefece. É comum ver cadeiras nas calçadas, onde grupos de pessoas conversam. Dona Joselina arma redes nas duas grandes árvores do jardim. “Os hóspedes adoram ficar aqui, nesse sossego.”

 

Com um ar reflexivo, diz que o potencial histórico e turístico precisa ser mais bem explorado. Lembra-se então de um episódio. Quando o escritor peruano Mario Vargas Llosa foi a Canudos, em 1979, como parte do trabalho de pesquisa para o livro “A Guerra do Fim do Mundo”, ficou hospedado na casa do pai dela. 

Depois que Vargas Llosa venceu o Nobel de Literatura, em 2010, dona Joselina pensou em convidá-lo para voltar e participar de algum evento na cidade. Desistiu da ideia ao saber que o escritor é crítico do governo petista. “Talvez ele não aceitasse um convite para vir até o país, porque o Lula ainda era presidente”, diz. “E ele não gostava do Lula, né?”. 

O Memorial Antônio Conselheiro, criado em 2002, tem por missão, segundo um cartaz afixado na parede, “preservar e difundir a memória da Guerra de Canudos”.

Lá há um jardim com plantas típicas do cenário da guerra, descritas em “Os Sertões”: favela, palmatória-do-diabo, cabeça-de-frade, mandacaru e o canudo-de-pito. Com seu caule oco, o canudo era usado como piteira de cachimbos. Foi essa planta que deu nome a uma antiga fazenda e depois à comunidade conselheirista.

No centro do jardim há uma escultura do beato. Sua superfície e traços são poligonais, algo que lembra os corpos das primeiras personagens 3D dos videogames. Numa placa na base do monumento, um tanto gasta, pode-se ler: “Aos heróis de Canudos”. E mais abaixo: “Os vencidos também merecem um lugar na história. Não devem ficar no anonimato”, assinada por José Calasans, folclorista e historiador, pioneiro no resgate da memória oral dos sobreviventes da guerra.

Há algumas peças arqueológicas no memorial: cartuchos, pentes de balas, cacos de utensílios e restos da igreja. Espantoso é o tamanho dos estilhaços de granadas lançadas contra o povo pelo canhão inglês Whitworth 32. Com mais de uma tonelada, essa monstruosa peça de artilharia foi apelidada pelos conselheiristas de “a matadeira”. Um único tiro era capaz de arrasar e incendiar as frágeis moradias de taipa e todos aqueles que estavam dentro. 

Graciliano Ramos, em um breve texto anedótico, disse que Antônio Conselheiro vagava pelo sertão pregando ideias subversivas e o fim do mundo em 1900: “Antes do fim do mundo, porém, veio a República”. 

“Penetrando pelos tetos e pelas paredes”, anotou Euclides em seu diário em 1º de outubro de 1987, “as granadas explodiam nos quartos minúsculos despedaçando homens, mulheres e crianças sobre as quais descia, às vezes, o pesado teto de argila, pesadamente, como a laje de um túmulo”.

A Canudos de hoje é um lugar cheio de contrastes. O sinal do wifi é onipresente nos poucos restaurantes, mas não há agência bancária ou caixas eletrônicos. Gangues estouraram inúmeras vezes os antigos bancos da cidade. 

Motos de pequeno porte substituíram o cavalo e o jegue. Transformaram-se no transporta das famílias. Não poucas vezes vi pai, mãe e filho dependurados todos numa única moto. Diante de uma UBS, vi uma mulher sentar na garupa do marido, com um bebê de poucos meses no colo, e seguir rua afora, sem receio.

Antenas de operadoras de TV por assinatura são comuns nos telhados. No final de semana, paredões de som, tocando funk e hits do sertanejo universitário, animam bailes. Vejo um cartaz: “Canudos Fest, Pablo, a voz romântica”.

Mesmo com o campus da Uneb —que oferece atividades de extensão, como minicursos e palestras—, a maioria dos jovens, quando termina o ensino médio, precisa se deslocar até cidades vizinhas para cursar uma faculdade.

Os desafios da cidade são muitos. De acordo com dados de 2010 do IBGE, o Índice de Desenvolvimento Humano de Canudos teve relativa melhora —saltou de 0,379, em 2000, para 0,562, em 2010—, mas ainda indica um quadro de gravíssimos problemas relacionados à renda e à educação. Entre os 5.565 municípios brasileiros daquela época, Canudos situava-se na 5.002ª posição do ranking de desenvolvimento humano, o mais recente divulgado. 

Dados de 2018 apontam que, dos 16.752 habitantes da cidade, um total de 12.168 estão inscritos no programa Bolsa Família, o que evidencia um contexto de grande vulnerabilidade social.

Luiz Paulo Neiva, diretor do campus avançado da Uneb em Canudos, conta que a grande guerra de hoje é contra a pobreza. Ele escreveu o livro “Canudos – Uma Nova Batalha” (Eduneb, 2017), síntese do trabalho da universidade no município. Entre as propostas apresentas, além do melhor aproveitamento das águas do açude, está a construção de uma cidade cenográfica, réplica reduzida da Canudos original conselheirista. Estima-se que o projeto necessitaria de um investimento de R$ 6 milhões. 

Diante do solo da caatinga, pergunto, um tanto perplexo: “Esse terreno é assim mesmo ou foi mexido?”. “É assim mesmo”, diz Jamilson, guia turístico que nos conduz pela estrada rumo ao Parque Estadual de Canudos. 

Encontramos o telefone de Jamilson num cartaz na pizzaria Doce Mel. Além dos serviços de guia, é fotógrafo e anunciava a venda de um livro, um ensaio documental de profissionais e amadores. O título: “Canudos – Essa História Não Pode Morrer!”. 

Ativo no Instagram, ele se apresenta como bisneto de sobreviventes. Já guiou figuras famosas, como a atriz Mariana Ximenes. “Semana que vem”, diz, depois de receber uma mensagem no WhatsApp, “vem para cá uma amiga italiana”. Como a atividade turística não garante o sustento, trabalha ainda de motorista. Dirige um micro-ônibus de universitários que estudam numa cidade vizinha.

Na entrada do Parque Estadual de Canudos, há um portal cuja forma lembra o arco da igreja da Canudos submersa. O percurso é feito de carro, por vias de terra sinalizadas com placas. Criado pelo governo do estado da Bahia em 1986, o museu a céu aberto tem área de 1.321 hectares. É o que restou do cenário da guerra.

“Quando o parque não existia”, conta Jamilson, “as pessoas andavam por aí e enchiam sacolas de restos de cartucho de bala”. 

A terra é de um vermelho-fogo. O ar, seco e parado. Começamos o roteiro de visitação pelo Vale da Morte, como é chamada uma espécie de cemitério da campanha dos militares. “Tá cheio de esqueleto aqui embaixo”, diz Jamilson.

Como o terreno é duro demais, as valas coletivas, onde os corpos foram despejados, são rasas. Não há qualquer vestígio de cruzes ou marcação na superfície. Um esqueleto inteiro e dois crânios foram extraídos do local nas escavações feitas em 1997. Mais adiante, há uma placa indicando o sítio arqueológico, no qual é possível ver nitidamente três ossos de costelas expostos ao sol.

Ouvindo nossa conversa, Joaquim começa a escavar a terra. Levanta um pedacinho de pedra. “Olha papai”, ele diz. “Achei um esqueleto.”

Em 1987, o arqueólogo paulistano Paulo Zanettini, então com 28 anos, viajou até Canudos para realizar os primeiros trabalhos no parque. Além das escavações iniciais, fez uma série de mergulhos no açude Cocorobó. “Munidos de uma tosca embarcação batizada de Colapso (em homenagem ao Calypso do Jacques Cousteau), seguimos as orientações de filhos da cidade inundada”, conta o arqueólogo, por email. “Nascia, assim, a ‘arqueologia subaquática na caatinga’.”

No centenário do início da Guerra de Canudos, em 1996, o açude Cocorobó baixou ao mínimo.

Ressurgiram as ruínas da cidade. Em 23 de junho daquele ano, uma foto de Zanettini, caminhando sobre os destroços do portal do velho cemitério, foi publicada na primeira página da Folha. “Jamais poderíamos imaginar”, escreve Zanettini no relatório final do trabalho de salvamento arqueológico, “que nos veríamos caminhando já sobre o solo de Canudos, pisando o lodo seco e rachado na tentativa de identificar o ponto exato onde havíamos mergulhado”.

O estudo do arqueólogo também contesta teses populares do trabalho de Euclides da Cunha. O escritor afirma que Antônio Conselheiro ocupou um local ermo, mas vestígios apontam que a presença humana no território era mais intensa e muito mais antiga do que se imaginava. 

“Identificamos um sem número de áreas de ocorrência de sítios pré-históricos plenos de lascas e utensílios de pedra lascada que começam a ser estudados pela equipe e indicam que a região foi propícia à ocupação humana milênios antes da chegada do Conselheiro”, defendeu o arqueólogo em artigo.

Quando chegamos ao Alto da Favela, de onde Euclides avistou Canudos pela primeira vez, avistamos o açude. Suas águas são turvas e calmas. Como acontece em outras áreas do parque, há um totem de vidro de Conselheiro, retratado de cabelos longos e barba, de perfil, segurando um cajado. Parece um fantasma.

Sabe-se pelos registros históricos, inclusive de Euclides da Cunha, que o líder religioso já havia morrido, de causas nunca conhecidas, quando Canudos caiu. Seu corpo estava enterrado, mas foi exumado pelos soldados e fotografado. Não satisfeitos, degolaram o cadáver, sob a justificativa de submeter a cabeça a pesquisas científicas. Presos aos equívocos da época, esperavam encontrar nas ranhuras do cérebro sinais que atestassem sua loucura. Nada foi provado. 

Mais adiante no parque, a intervenção mais poderosa são as ampliações dos rostos das mulheres capturadas pelo Exército, extraídas do registro do fotógrafo Flávio de Barros. Presas em 3 de outubro de 1897, dois dias antes de Canudos ser incendiada, muitas foram estupradas e degoladas.

Os melhores registros de “Um Sino Dobra em Canudos” vêm no final. “Batidas por três vezes sucessivas”, diz o narrador, “as tropas do governo parecem ter adotado, em relação a Canudos, a mesma solução final que Hitler no gueto de Varsóvia. Não ficou ninguém para contar a história”. 

Nesse momento o filme mostra José Ciríaco, Tizé, com cerca de 90 anos, apresentando como único sobrevivente da guerra.

Num pequeno museu, Tizé guarda objetos da época, como punhais, espingardas, e estilhaços de granada do canhão. “Isso é um pedaço da bala do canhão”, diz ele. “Essa bala é dos canhões que derrubaram a igreja aqui e mataram muita gente. Foi devido a esses canhões que acabou Canudos. Foi devido a esses canhões que acabaram com todo o pessoal, com as obras, as igrejas, casa, tudo.” Erguendo seu cajado, Tizé diz: “E quem nunca viu, como vocês, se admira de ver o que essa bala faz”. 

Em outra cena de destaque, dona Hermenegilda caminha para a missa. Não se lembra do próprio sobrenome. Pai, filhos e marido estão mortos. Pede a Deus que a deixe morrer na cidade, mas não ouvimos sua voz. É Carlos Gaspar, lendo transcrições da entrevista, que fala no lugar dela.

A cena, reforçada pelo ruído de ventos artificiais, mostra uma mulher caminhando para a morte. No portal do cemitério, o branco caiado contrasta com suas vestes negras. Enquanto caminha entre os túmulos, onde estão enterrados os familiares e os heróis da Guerra, o narrador lê uma derradeira fala: “Até meus mortos vão se afogar. Não rezarei mais na sua sepultura. Não vou descansar ao lado dos meus.”

Das margens do açude, avisto a ponta das ruínas da igreja, despontando sobre as águas. O sol do meio-dia castiga a pele. Lembro-me das últimas páginas de “Os Sertões”, onde a fria pena científica de Euclides sucumbe, recua e então emperra diante do horror inenarrável.

Jamilson conta que, quando da montagem do Teatro Oficina na cidade, Mariana Ximenes resolveu nadar no açude e quase se afogou. “Isso aqui é um abismo”, ele diz e aponta para a beira da água. 

Olho para trás. Joaquim e Raquel se afastam, caminhando na direção do carro. Pergunto ao guia se há histórias de assombrações por ali. “Uma vez um turista pediu para dormir no parque. Tem uma área de camping ali. Quando cheguei aqui no dia seguinte, o cara estava apavorado. Disse que escutou uns barulhos durante a madrugada. Criança chorando, ferro batendo, tiro, gritos. Coisa terrível”, conta ele. Estranho seria se não houvesse essas histórias, penso.

Antes de voltar para o carro e deixar o parque, resolvo levar uma lasca de pedra. Quando me agacho, outra coisa chama a atenção. Uma lasquinha de árvore, pedacinho de galho seco, esculpido ao acaso pelo tempo. Enfio no bolso. Contemplo uma última vez a ruína da igreja. E vou embora. 

“Olha o que eu encontrei.” “Nossa!”, Raquel diz. “É um crucifixo perfeito.” 

Euclides da Cunha será homenageado  na Flip
A festa literária terá como tema o escritor e jornalista. O evento em Paraty ocorrerá de 10 a 14 de julho. Ingressos ainda podem ser adquiridos pelo site flip.byinti.com, ao custo de R$ 55. Também haverá vendas durante o evento. Mais informações em flip.org.br

Principais mesas* sobre o autor de ‘Os Sertões’

Quarta (10/7), às 19h
Na abertura da Flip, a crítica literária Walnice Nogueira Galvão comentará a trajetória intelectual de Euclides da Cunha e o impacto da viagem a Canudos em sua vida e obra

Sexta (12/7), às 15h30
O historiador José Murilo de Carvalho vai analisar o conflito entre seguidores de Antônio Conselheiro e o Exército, em Canudos

Sábado (13/7), às 12h
O cineasta português Miguel Gomes, que prepara uma adaptação de “Os Sertões” para o cinema, conversa com o crítico Ismail Xavier

*Todas com ingressos esgotados, mas debates serão transmitidos também em um telão, gratuitamente

 


Marcos Vinícius Almeida, escritor e jornalista, é autor de “Paisagem Interior” (Penalux, 2017).

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