Descrição de chapéu Flip

Glauber Rocha foi quem apresentou 'Os Sertões' aos leitores cubanos

Em raro texto na edição cubana de 1971, cineasta diz que Euclides da Cunha foi o melhor observador dos camponeses

Claudio Leal Rodrigo Sombra
São Paulo e Havana

Uma edição cubana de “Os Sertões”, lançada há 48 anos, incorporou um prefácio valioso para medir a influência de Euclides da Cunha entre os nomes do cinema novo brasileiro. 

O diretor Glauber Rocha assumiu a tarefa de apresentar o clássico aos cubanos. O texto, conhecido por poucos estudiosos, foi consultado num exemplar da Biblioteca Nacional de Cuba José Martí, em Havana, a capital da ilha. Os originais se encontram na Cinemateca Brasileira, mas em versão incompleta e posteriormente alterada. 

O cineasta Glauber Rocha durante as filmagens de 'Barravento', seu primeiro loga-metragem, realizado em 1961 - Reprodução

A junção das duas artes, com a representação do sertão no cinema, será discutida neste sábado (13) na Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, que homenageia Euclides da Cunha. Ao meio-dia, o crítico Ismail Xavier e o cineasta português Miguel Gomes vão conversar sobre o tema. 

Em novembro de 1971, Glauber desembarcou em Havana a convite de Alfredo Guevara, então diretor do Instituto 

Cubano de Arte e Indústria Cinematográficas. O exílio em Cuba durou pouco mais de um ano e seria revisitado décadas mais tarde pelo filho do diretor, Eryk Rocha, no filme “Rocha que Voa”, de 2002.

Naquele período, Glauber realizaria o documentário “História do Brasil”, de 1974. 

Já em seu primeiro mês na ilha, ele soube do projeto de publicação de “Os Sertões” pela editora Casa de las Américas, impresso finalmente em outubro de 1973, numa tiragem de 10 mil exemplares.  

Admirador do livro, Glauber aceitou o convite dos editores para escrever o prefácio. A releitura revelaria ao cineasta aspectos antes inaparentes. 

“Reli Os Sertões e tudo o que me parecia complexo se fez claro. A pretensão socio-antropológica de Euclides é um artifício para disfarçar seu conflito entre ‘defensor progressista’ de uma república contaminada e ‘crítico racista’ de uma experiência revolucionária”, escreve, no prefácio. 

“Quarup”, de Antonio Callado, “Memórias do Cárcere” e “São Bernardo”, de Graciliano Ramos, “Gabriela Cravo e Canela”, de Jorge Amado, e “Cangaceiros”, de José Lins do Rego, foram outros títulos brasileiros sugeridos por Glauber à editora, segundo as memórias do jornalista cubano Jaime Sarusky. 

No país, o cineasta se aproximou de exilados brasileiros vindos da guerrilha urbana. No início dos anos 1970, Cuba desempenharia um papel importante na radicalização das ideias políticas do diretor. À época, por intermédio de Alfredo Guevara, Glauber se acercou das atividades da Ação Libertadora Nacional e de freis dominicanos ligados à luta armada. 

Reflexos dessa inflexão militante se fazem sentir no prefácio de “Os Sertões”, no qual cita Carlos Lamarca, para quem, segundo diz o cineasta, “o misticismo era importante no trabalho 
político com camponeses”.

Sua primeira leitura de “Os Sertões” ocorreu ainda na adolescência, em Salvador. Seu colega de colégio, o escritor João Carlos Teixeira Gomes relembra a visita do amigo à biblioteca de seu pai, vedada ao resto da família. Glauber criticou a proibição, abriu a porta e localizou o clássico. 

“O livro interessava muito a ele para fundamentar os filmes sobre o cangaço, o êxodo, a seca, o banditismo, Antônio Conselheiro. Ele gostava da linguagem empolada de Euclides, daquele cipoal”, afirma Teixeira Gomes, que é biógrafo do cineasta. Gilberto Freyre e José Lins do Rego ganhavam o mesmo relevo, diz. “José Lins teve influência sobre a concepção literária da obra de Glauber.” 

O prefácio se esforça em situar o leitor cubano na modernidade literária brasileira, iluminando suas relações estéticas com os modelos europeus, bem como a posição dos intelectuais face às contradições sociais do país. Glauber contrapõe Euclides a Lima Barreto, Aluísio de Azevedo e Machado de Assis, descrevendo o autor de “Dom Casmurro” como “um vanguardista conservador, anomalia típica do subdesenvolvimento”.

Na visão do cineasta, “Machado revolucionou o romance sem pensar na revolução. Transformou-se em boa consciência estética do sistema”. 

Lima Barreto e Azevedo são vistos também como “revolucionários conservadores”. Ambos, nas palavras dele, expressam a vulgaridade popular e, seguindo modelos folhetinescos, atacam a burguesia, “mas não tiveram capacidade para organizar as inquietudes das massas em uma linguagem capaz de destruir o vanguardismo eficaz da burguesia machadiana”. 

Glauber prossegue dizendo que o campesinato brasileiro formava uma “coletividade mística” e Euclides foi “o melhor observador que dela se aproximou, revelando estruturas ainda superficiais de seu comportamento”.  

Os “escritores comunistas” dos anos 1930 —aí elenca José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Guimarães Rosa— “comunicaram novos mistérios dessa civilização massacrada, oferecendo motivos de inspiração para filmes como ‘Vidas Secas’, ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, ‘Os Fuzis’ e outros”.

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