Descrição de chapéu Leonardo da Vinci, 500

Depois da Broadway e de paródias gays, brasileiro faz musical sobre Da Vinci

Adrian Steinway prepara espetáculo 'Leonardo, o Musical', na Itália

O desenho mais antigo do artista de que se tem notícia, a possível paisagem de sua Vinci natal retratada em 1473 Reuters

Lucas Neves
Fiesole (Itália)

No palco de uma semiarena romana que data do século 3º a.C., na periferia de Florença, parece haver mais gente e menos silêncio em cena do que o razoável faltando só uma hora para a estreia.

Atores, músicos, bailarinos, equipe de criação e técnicos fazem os últimos ajustes antes da primeira apresentação de “Leonardo, o Musical”, colagem de episódios da vida do filho ilustre da terra, Leonardo Da Vinci, cuja morte completa cinco séculos neste ano.

O compositor das canções e diretor da montagem é o brasileiro Adrian Steinway, 40, que nos recebe em 
trajes estivais (faz calor neste começo de noite de julho na Itália) —camiseta, bermuda jeans e havaianas.
“Gente, isso nada mais é do que um workshop, OK?”, ele avisa, logo de saída.

Workshop é uma etapa intermediária na construção de um espetáculo, normalmente ainda sem luz, cenários e figurinos completos. Na encenação em questão, o texto também ainda não era o definitivo.

Em conversa nos bastidores, Steinway diz que fez “teatro de guerrilha” neste que é seu sexto trabalho.

Abandonado pela orquestra que acompanharia o elenco (foi trocado, ele diz, pelo evento de um político que financia a formação), teve de improvisar com um grupo de jovens na faixa dos 15 anos. Os ensaios anunciavam uma massa sonora caótica; o desempenho na estreia, ainda que imperfeito, ficou longe disso.

Em sua ala dramática, a produção mistura atores de uma respeitada companhia de Amalfi com dois herdeiros do clã Ferragamo (sim, o da grife) —ele como Lorenzo de Médici, ela como Lisa Gherardini, a Mona Lisa— que talvez tivessem desempenho mais robusto como, digamos, modelos para as telas do pintor de que trata o espetáculo.

“Os atores aqui [na Itália] são heróis, não têm apoio nenhum”, diz o diretor. “No Brasil, temos as leis [de 
incentivo com base em renúncia fiscal]. Na América, a indústria. Aqui, as coisas só funcionam com política.”

Ele fala com algum conhecimento de causa. Filho de taiwanês-americano com ítalo-judia, ele estudou teatro na Universidade de Nova York e iniciou por lá sua carreira, sob os auspícios de figuras como Julie Taymor, a cineasta e encenadora responsável por montagens célebres da Broadway nos últimos 20 anos, como “O Rei Leão” e “A Flauta Mágica”.

Atualmente, Steinway capitaneia nos Estados Unidos o espetáculo “Tiger Boy”, adaptação de um conto do uruguaio Horacio Quiroga, ainda em fase de workshop, e “Haroun”, transposição para a cena do infantojuvenil homônimo de Salman Rushdie.

No Brasil, montou em Salvador, em meados desta década, os besteiróis musicais “Éramos Gays” (com o coreógrafo da série americana “Glee”, ele frisa) e “Bocket Show”, o primeiro um sobrevoo da história da representação da homossexualidade, o segundo um chiste inspirado na era de ouro do rádio.

Também assinou as músicas do infantil “O Palhaço e a Bailarina”, em 2016, antes de trazer ao país sua primeira criação com elenco italiano, “Apocalypse Now – O Fim do Mundo para Leigos”, uma tentativa de reavivar a commedia dell’arte, cujas máscaras e arquétipos (arlequim, colombina, doutor, amantes, velho) hoje são considerados anacrônicos em sua terra natal.

Steinway encarna ele mesmo uma espécie de arlequim, o personagem que serve ao mesmo tempo a dois patrões, fazendo malabarismos para acomodar demandas e caprichos de lado a lado.

Isso porque, durante o ano letivo, ele está à frente do Laboratório de Redação, cursinho de escrita com unidades em quatro cidades paulistas, 600 alunos e uma coleção de notas máximas no Enem e em vestibulares como a Fuvest.

“Uso os meses de férias para pôr os espetáculos de pé, mas também faço muito bate-volta de São Paulo para Estados Unidos ou Europa no fim de semana”, afirma, sobre a logística complicada da vida dupla —na sala de aula, ele é Adriano Chan. “A tecnologia ajuda muito a fazer o trabalho à distância. E tenho dois ou três assistentes in loco, além de um diretor musical.”

Foi como uma extensão das atividades em sala de aula —quase como um experimento paradidático— que ele levou à cena “Pasárgada”, em 2006, a partir da poesia de Bandeira, sua estreia como diretor principal.
“Os meninos me prepararam para lidar com os artistas, mostraram que angústias e anseios vão além da questão técnica, formal”, observa.

Nas próximas férias do cursinho, no começo do ano que vem, Steinway planeja “levantar” a versão brasileira, com o cantor Pedro Camargo Mariano liderando um elenco para o qual ele também cobiça uma cantora “do calibre de uma Sandy”.

No Brasil como na Itália de Da Vinci, o diretor vê lacunas na produção de dramaturgia. “Não faltam escritores, mas sim mais autores que pensem a palavra como ação teatral”, aponta. “Quem se interessa hoje por texto dramatúrgico está indo para a TV fazer série. Os palcos estão ficando órfãos.”

Nos Estados Unidos, ele pondera, sempre temperando a fala com expressões em inglês, “o wake-up call 
[despertar] já aconteceu”.

“Desprezou-se por algum tempo a palavra em cena, mas agora muito roteirista está vindo para a dramaturgia. Basta olhar a temporada atual da Broadway.”

O arlequim Adrian, ou Adriano, talvez possa chamar alguns de seus alunos nota dez para reforçar as 
fileiras dramatúrgicas.

O jornalista viajou a convite da produção

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