Descrição de chapéu Livros

Leminski ganha traduções na esteira de sucesso na internet

Redes sociais renovam interesse por obra, que será publicada em outras línguas

Guilherme Henrique
São Paulo

“É um movimento que demorou para acontecer na obra do Paulo, mas desta vez não tenho nada a ver
com isso”, afirma Alice Ruiz. 

A escritora, que cuidou da obra do poeta e compositor Paulo Leminski nos últimos 30 anos, deixou para a filha, Áurea Leminski, a incumbência de satisfazer tradutores e editores mundo afora ansiosos por versos do autor curitibano.

Até o início do ano que vem estão previstas publicações em Espanha, Portugal e Itália.

“A redescoberta da obra dele é contínua e crescente, em especial de dez anos para cá”, diz Áurea. “A reedição de livros esgotados, as exposições e a constante citação de poemas nas redes sociais reavivaram essa produção. Isso tem despertado a procura por seu trabalho em outras línguas.”

O poeta paranaense Paulo Leminski (1944-1989) - Dico Kremer/Divulgação

Na Espanha, o romance “Catatau”, de 1975, sairá pela Libros de la Resistencia, sediada em Madri, com tradução de Reynaldo Jiménez. O livro deve ser publicado até o fim deste mês. “É uma peça singular da criação literária brasileira entre os anos 1970 e 1980”, diz Edmundo Garrido, editor da Libros de la Resistencia.

Tido como um “romance-ideia”, “Catatau” foi descrito por Leminski como “antissocial e fechado”, por causa de sua complexidade. “Procura captar, ao vivo, o processo da língua portuguesa operando. E mostrar como, no interior da lógica toda-poderosa, se esconde uma inautenticidade. A lógica não é limpa, como pretende a Europa desde Aristóteles. A lógica deles, aqui, é uma farsa, uma impostura.”

Na história, René Descartes vem ao Brasil como tripulante da nau de Maurício de Nassau, no século 17, durante a invasão holandesa no Nordeste. 

O texto reúne ditados populares, invenções lexicais, parágrafos inteiros em latim, sem ordem lógica ou estrutura de começo, meio e fim. 

“Há um alto nível de improvisação sobre uma base profunda de conhecimento da linguagem. ‘Catatau’ é um híbrido de poesia, teatro, ensaio e romance, com as noções que os unem e separam”, diz o tradutor Jiménez, que há 20 anos se dedica ao livro.

O editor Garrido assinala que a publicação rompe com o estilo da literatura espanhola. “O panorama aqui está concentrado em narrativa mais convencional, por um lado, e poesia lírica, por outro. Na América Latina é diferente.”

Para 2020, a Libros de la Resistencia prepara a tradução de “Agora É que São Elas”, segundo romance de Leminski, publicado no Brasil em 1984.

O escritor definiu a obra como “brincadeira com a mentira de escrever um romance no século 20” e “um romance sobre a minha impossibilidade de escrever um romance”. 

“É uma uma novela-fuga, que não pode ser comparada a ‘Catatau’, mas que traz reflexões críticas que fazem menção, inclusive, ao primeiro romance”, afirma Jiménez.

Na Itália, uma coletânea de poemas será publicada com o título de “Distratti Vinceremo”, em alusão ao livro “Distraídos Venceremos”, de 1987. 

“Qualquer antologia é uma traição. É um objeto pobre e limitado, em que somos obrigados a condensar a obra de uma vida”, diz o tradutor Massimiliano Damaggio. 

 

Ele conta que conheceu a poesia do paranaense em 2013, quando começou uma busca por novos autores. “Encontrei uma lista de escritores conhecidos como “marginais”. Passei a traduzir Chico Alvim,

Ana Cristina Cesar, Nicolas Behr, Chacal e, claro, Paulo Leminski, posto aí de maneira equivocada”.

O método do italiano para condensar a poesia do brasileiro em livro obedece um roteiro.

“Caprichos e Relaxos” foi uma introdução, após um período de amadurecimento, para a publicação de “Distraídos Venceremos” e “La Vie en Close”, conta Damaggio. 

“Nos dois últimos títulos, ele faz com que a vontade autoral não seja guia da escrita, mas que as palavras sejam livres para brotar uma após a outra. É um conceito de ‘não-pensamento’. Tento refazer esse percurso no livro a ser publicado”, explica o tradutor.

Ele vê em Leminski influências do russo Maiakóvski, do francês Mallarmé e do japônes Bashô, criador do haikai, de versos concisos e objetivos.

O italiano diz ter dificuldades para traduzir os versos leminskianos. O objetivo é não fazer uma transposição do português para o italiano, mas manter sonoridade e jogo de palavras que compõem o original. “Nos seus textos, imagens, ritmo e significado formam, em algumas ocasiões, uma só entidade incindível.”

Em Portugal, o livro “Toda Poesia” será lançado na coleção Plural, da editora Imprensa Nacional, que também já publicou nomes como Eucanaã Ferraz, Antônio Carlos Secchin e Alice Sant’Anna. 

O compilado, publicado no Brasil em 2013 pela Companhia das Letras, reúne a poesia completa do autor paranaense desde “Quarenta Clics em Curitiba”, seu primeiro título, lançado em 1976.

Questionada sobre a publicação de inéditos do poeta, Áurea Leminski repetiu a esquiva de sua mãe, Alice Ruiz. 

“Os originais existem, mas não é uma produção pronta para ser publicada, na concepção dele”, afirma. “Ele deixou tudo organizado, e nós respeitamos essa vontade”.

Prontos ou não, qualquer novo verso de Paulo Leminski resultaria em considerável alvoroço. E ele sabia disso. 

“Tudo o que eu faço/alguém em mim que eu desprezo/sempre acha o máximo. Mal rabisco/não dá pra mudar nada. Já é um clássico.”

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