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Slam se torna movimento efervescente na literatura e seduz editoras e a Flip

Ligadas à periferia, competições de poesia falada já mobilizam mais de 150 grupos no país

Izi durante o Zap! Slam, em São Paulo

Izi durante o Zap! Slam, em São Paulo Jardiel Carvalho/Folhapress

São Paulo

"Quando a gente sua, não sua tal qual branco?/ Quando você faz graça, a gente não ri?/ Quando vocês dão porrada, a gente não sangra também?/ Quando vocês dão tiro na gente, porra, nós não morre igual?/ Pois, se nós é igual em tudo, até nisso vamos ser, caralho.”

Logo que Kimani declama esses versos, a escritora de 26 anos recebe uma enxurrada de gritos e de palmas que tomam o Galpão do Folias, teatro na região central da cidade.

Do Grajaú, bairro no extremo sul de São Paulo onde ela mora, até o palco onde acaba de declamar a sua poesia, Kimani leva uma hora e 40 minutos de ônibus. São 6.000 segundos para apresentar o poema em no máximo 180 segundos, que será avaliado em menos de dez segundos pelos jurados. 

Com tranças no cabelo, macacão preto e camiseta e tênis brancos, Kimani olha as cinco plaquinhas levantadas na plateia —10, 9,8, 9,4, 9,8 e 10.

Ela foi uma das finalistas da edição de junho do Zap!, evento que completou dez anos e é um dos pioneiros de um dos movimentos literários que mais cresce no país, o slam.

Surgido num bar de Chicago em 1986, o “poetry slam” é ao mesmo tempo uma competição de poesia falada, um microfone aberto para pessoas declamarem seus textos e um encontro não só artístico, mas social.

As regras podem variar um pouco de evento para evento, mas seguem um padrão. Cada poeta tem só três minutos para apresentar seu texto, sobre qualquer tema. Mas não é permitido nenhum acompanhamento, seja ele musical, de figurino ou de cenário. 

É apenas o microfone e o escritor, que é julgado por cinco pessoas pinçadas aleatoriamente na plateia, que dão notas de zero a dez para as apresentações. Como na apuração das escolas de samba no Carnaval, a maior e a menor avaliação são descartadas. As três restantes formam a nota final. Quem conseguir a maior pontuação é o campeão.

“O movimento que mais interessa na literatura hoje é esse dos slams e saraus. É uma literatura viva, feita com o corpo. Quando eles falam de violência doméstica, da posição da mulher ou de homofobia, esses temas atravessam o corpo desses poetas. E a maneira com que expressam essa revolta é com a palavra”, diz o escritor Marcelino Freire.

O corpo é parte tão fundamental das apresentações que a nota dos jurados não considera só o texto e as questões literárias, mas está conectada à performatividade.

Segundo a escritora, atriz e um dos principais nomes do movimento de slams no Brasil Roberta Estrela D’Alva, já são mais 150 grupos no país —todos muito ligados ao lado cênico, mas também à periferia e a temas sociais, como a violência, o preconceito, a sexualidade e a baixa representatividade política, por exemplo.

Em certo sentido, no slam, é quase impossível dissociar o manifesto social da manifestação literária. São dois aspectos que se retroalimentam. É como se a vida gerasse a revolta, que impelisse o poeta a escrever, e isso o despertasse mais para a revolta.

O crescimento fez esse lado marginal chamar a atenção do mainstream. Com livrarias em crise e editoras mal das pernas, o mercado literário já se deixa seduzir por esses jovens que carregam seus fanzines embaixo do braço, vendem seus versos no boca a boca, declamam as rimas de cor e incendeiam a plateia nas apresentações. 

Não à toa, a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, deste ano terá pela primeira vez uma competição internacional de slam no palco principal, organizada por Estrela D’Alva. 

Editoras da linha de frente também vêm olhando com mais cuidado para o movimento. Uma das mais recentes foi a Planeta, que publicou “Querem nos Calar: Poemas para Serem Lidos em Voz Alta”, que traz 15 mulheres que participam de slams no Brasil, tem prefácio de Conceição Evaristo e seleção de Mel Duarte, outro dos nomes de destaque dessas apresentações.

E o movimento é internacional. No Campeonato Mundial de slam, que ocorreu na França neste ano, o Brasil foi representado pela mineira Pieta Poeta. Veja a apresentação dela na competição:

Mas, mesmo com essa maior inserção, o estilo costuma ser alvo de críticas quando o assunto é a qualidade literária dos textos, que teriam uma preocupação maior com a militância do que com a escrita, eliminando diferentes interpretações, ambiguidades e contradições e se aproximando mais do manifesto político do que do texto literário.

“Slam não é para crítico de arte gostar ou não. Ninguém ali está nem aí para isso. As pessoas estão lá para pedir que parem de matá-las, reivindicar a entrada em uma faculdade. E fazem isso da maneira que podem, com o vocabulário que têm. Se precisarem gritar, elas vão gritar”, diz Estrela D’Alva. “Em um slam, o rigor semântico e gramático, a métrica, a estética não são mais importantes do que a voz de quem diz o poema.”

Marcelino Freire vai um pouco além. “Costumam exigir que todos os poemas do slam sejam ótimos. Mas será que tudo o que está exposto nas livrarias é excelente? Tudo o que é publicado por essa geração patê de fígado, como chamo os poetas que ligam mais para lançamentos, patezinho e vinho branco, é bom?”

Na opinião de Kimani, nome artístico de Cinthya Santos, criar um texto é mais do que fazer literatura. É um processo de protagonismo e autoconhecimento. “A gente lida muito com o ódio e a raiva no processo. É um sentimento de fazer as coisas mudarem”, diz. “Por isso, falo sempre desse lugar como mulher preta.”

O ódio e a raiva fizeram Kimani criar versos como “vosmecê há de me perdoar/ e até para o seu Deus eu vou rezar/ que nunca falte pão e fartura na mesa da minha sinhá” ou “pele clareia, mas ela não é racista/ ‘sou amiga da minha faxineira e também da prima dela, que é minha diarista’”.

Os versos, o ódio e a raiva levaram Kimani ao segundo lugar no último Zap! Slam.

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