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Artes Cênicas

Peça faz ponte entre a Alemanha nazista e o Brasil atual

Em livre adaptação de Bertolt Brecht, passado e presente são sampleados em cena

Paulo Bio Toledo

Terror e Miséria no Terceiro Milênio - Improvisando Utopias

  • Quando Sex. e sáb., às 21h. Dom., às 18h. Até 28/7
  • Onde Sesc Bom Retiro - al. Nothmann, 185, tel. (11) 3332-3600
  • Preço R$ 6 a R$ 20

Entre 1935 e 1938, durante seu exílio na Dinamarca, Bertolt Brecht escreveu a peça “Terror e Miséria no Terceiro Reich”. São cenas curtas e independentes que mostram as implicações do nazismo no cotidiano da Alemanha da década de 1930, das milícias da Sturmabteilung, a SA, aterrorizando trabalhadores até a corrupção e a fraude regulando as instituições.

A livre adaptação organizada pelo Núcleo Bartolomeu de Depoimentos para o texto de Brecht sublinha semelhanças entre aquela realidade e o Brasil, sem, contudo, perder a dimensão histórica do material. Para isso, desenvolve um mecanismo de sobreposição que percorre toda a estética do espetáculo.

A primeira cena, por exemplo, se passa num subúrbio operário alemão e, ao mesmo tempo, na favela da Rocinha. Outra acontece num apartamento pequeno-burguês em Breslau e num edifício de classe média em São Paulo. O contexto das cenas muda de modo orgânico e veloz, criando uma coincidência vertiginosa entre tempos.

Todo o espetáculo é atravessado por esse procedimento. Projeções em vídeo em anteparos incomuns o percorrem, justapondo fragmentos históricos e atuais. Os figurinos lembram a Alemanha da guerra e, ao mesmo tempo, são roupas largas, urbanas, ligadas a uma estética de afirmação periférica no Brasil atual.

O elenco se põe nas situações dos personagens criados na década de 1930, mas logo interrompe a ação, deixa o presente invadir o palco, comenta o que acontece ou expõe as dificuldades de lidar com o tema. A estrutura mantém viva a matéria histórica.

O teatro hip-hop, base do trabalho do Bartolomeu desde sua fundação, em 2000, ganha implicações avançadas. Passado e presente são sampleados em cena. Em paralelo, o rap aparece como o gesto da resistência e se contrapõe ao diagnóstico sombrio.

Em certo momento, a fração negra do elenco empunha seus microfones no meio da plateia e confronta os brancos armados no palco. “Ainda estamos vivos”, diz o ator negro Jairo Pereiro logo no início.

Há um gesto de revide estético que leva a montagem para perto de importantes produções atuais do teatro negro na cena do país. Um revigoramento importante do teatro político que faz também o teatro épico teorizado por Brecht ganhar vida crítica renovada.

Em conjunto, os procedimentos criativos usados nas cenas de “Terror e Miséria” reativam a capacidade do teatro em provocar a inteligência de seus espectadores. Não é uma máquina de guerra cultural, mas uma posição expressiva na arena política e, ao mesmo tempo, um “exercício experimental de liberdade”. 

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