Descrição de chapéu Flip

Racismo de Euclides da Cunha ganha holofotes durante a Flip

Autor que denunciou genocídio em 'Os Sertões' seguia intelectuais da época que viam mestiços como degenerados

Naief Haddad
PARATY (RJ)

“Os Sertões”, de Euclides da Cunha, tem o trecho “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Logo depois, há outra frase, quase nunca lembrada. “Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.”

Autor de obra canônica da literatura brasileira, o gênio Euclides era um homem racista, como se percebe em diversos trechos do livro.

E não é de hoje que o adjetivo acompanha o escritor, jornalista e engenheiro fluminense.

Kiddo

Em “A Terra, o Homem, a Luta”, texto que foi publicado pela primeira vez em 2002 e que acaba de ganhar uma nova edição pela Três Estrelas, selo editorial do Grupo Folha, o professor e ensaísta Roberto Ventura escreveu que Euclides seguia “as teorias racistas e evolucionistas de sua época”.

Note-se que o livro de Ventura não é um petardo contra a obra —pelo contrário, é um guia que convida, com entusiasmo, à leitura de “Os Sertões”, publicado em 1902.

Ao homenagear Euclides, a 17ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, chama a atenção para o autor responsável por um “estilo sonoro” e capaz, como poucos, de interpretar “as duas faces contraditórias e complementares do país”, como ressaltou Roberto Ventura. 

Mas é inevitável, por outro lado, que o evento jogue luz sobre o homem influenciado pelas teorias deterministas, que hoje seriam consideradas ultrapassadas. 

Na primeira noite desta Flip, o jornalista Dodô Azevedo postou em seu perfil numa rede social: “Ah, esse texto racistaço de Euclides da Cunha, homenageado da Flip 2019. Alguém vai falar sobre?”. No trecho a que se refere, há frases de “Os Sertões” como “a raça superior torna-se o objetivo remoto para onde tendem os mestiços deprimidos”.

A psicóloga e ativista pela igualdade racial Cida Bento enfatiza a relevância do livro de Euclides, mas critica a existência de alguns trechos que “ensinam os lugares de inferioridade” na sociedade. 

Ela participa de debate na Casa Folha nesta sexta (12), às 18h30, falando das repercussões da escravidão na dinâmica da economia brasileira. 

Como grande parte dos intelectuais brasileiros da virada do século 19 para o 20, Euclides leu estudos do biólogo alemão Ernst Haeckel. Como lembra a antropóloga Lilia Schwarcz, autora de “O Espetáculo das Raças”, Haeckel escreveu que a civilização não poderia prosperar em um território como o brasileiro.

A leitura desse naturalista alemão é fundamental para guiar Euclides pelo determinismo geográfico. Sem a influência de Haeckel, aliás, “A Terra”, a primeira parte de “Os Sertões”, não seria a mesma.

O escritor brasileiro também se aproximou das teorias do sociólogo austríaco Ludwig Gumplowicz e do naturalista francês Hippolyte Adolphe Taine. Vem dos conceitos formulados por esses dois e por outros da mesma época a convicção de Euclides sobre os malefícios da mestiçagem. 

A partir de autores como Gumplowicz e Taine, o determinismo racial faz a cabeça do autor, o que fica bastante claro em “O Homem”, a segunda das três partes do livro.

“Nossa leitura precisa ser crítica. Escolher um autor homenageado não significa endeusá-lo”, diz Fernanda Diamant, curadora da Flip. “Os problemas são evidentes em ‘Os Sertões’. Com intenção científica, Euclides comprou o pacote todo, o evolucionismo, o determinismo. Trouxemos ao festival autores que tratam desses temas com atualidade. Vamos discutir, por exemplo, o que é a ciência hoje.”

Diamant acrescenta que “as qualidades em ‘Os Sertões’ superam os problemas”. “A denúncia da violência que Euclides faz continua tendo muita força. Antes era um Canudos, hoje há milhares espalhados pelo país. Essa característica de atemporalidade faz dele um grande nome da nossa literatura de não ficção”, diz ela.

Segundo Schwarcz, “Os Sertões” é um livro do seu tempo e também contra o seu tempo. 

É do seu tempo porque apresenta as ferramentas teóricas que o autor tinha na época, que eram esses determinismos”, diz. Essas referências são mais nítidas nas duas primeiras partes do livro, “A Terra” e “O Homem”.

Mas a obra se opõe ao seu tempo, principalmente em “A Luta”, a terceira e última parte de “Os Sertões”. 

“É contra porque Euclides vai denunciar a República. Antes de ir a Canudos, ele trabalhava com o contraste entre a barbárie, representada pelos sertanejos, e a civilização, que eram os republicanos, os habitantes da capital. No final do livro, ao falar da chacina, ele já não sabe mais quem é a civilização e quem é a barbárie.”

Ainda segundo a antropóloga, se os determinismos racial e geográfico não são mais considerados teorias científicas, como naquela época, eles acabaram sendo incorporados ao senso comum. 

“Não foram poucas as vezes que li e ouvi dizerem que as pessoas do Nordeste são mais lentas porque o calor é um obstáculo. E há ainda o nosso atual revisionismo histórico, que tenta discutir coisas que não são discutíveis, como o fato de que o Brasil foi o país que mais recebeu escravos africanos”, afirma Schwarcz.

Como se vê, o determinismo não morreu. Também nisso a obra de Euclides da Cunha se mantém atual. 


QUEM FEZ A CABEÇA DO ESCRITOR

Hippolyte Adolphe Taine (1828-1893)
Para o historiador positivista francês, o homem só pode ser compreendido à luz de três fatores: a raça, o meio e o momento histórico

Ernst Haeckel (1834-1919)
Biólogo alemão, acreditava que a vida daria sucessão a formas cada vez mais ‘evoluídas’. Defendia a ideia de superioridade intelectual dos europeus

Cesare Lombroso (1835-1909)
Psiquiatra e cirurgião italiano. Buscava demonstrar que algumas alterações estruturais do cérebro produzem comportamento violento

Ludwig Gumplowicz (1838-1909)
Advogado e professor polonês de origem judia, acreditava em um Estado baseado na luta de raças e na supremacia de uma classe dominante

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