Detalhes não são banais em obra que destaca várias formas de manipulação

Escritora Rachel Cusk age como ilusionista para falar de como relatos são parciais

“Esboço” é o primeiro livro de uma trilogia seguida por “Trânsito” e “Kudos”, os dois últimos ainda inéditos no Brasil.

A narradora de “Esboço”, Faye, viaja do Reino Unido para a Grécia para ministrar um breve curso de escrita criativa. O tom do livro é dado pela conversa que Faye mantém com o seu vizinho de poltrona no avião. À medida que ele entrega mais detalhes sobre si, a impressão dela — e do leitor — muda.

O que Faye descreve não é, a bem da verdade, uma conversa. Mais do que falar, ela ouve. “Esboço” é uma sucessão de falsos diálogos em que a narradora, da qual só sabemos que é divorciada e tem filhos, quase não se manifesta.

A escritora Rachel Cusk
A escritora Rachel Cusk - Patrice Normand/Leemage/AFP

“Esboço” questiona o sentido de ver e ouvir, de narrar — selecionar, moldar, apresentar — e interpretar. Igualando os procedimentos de um escritor aos de um ilusionista, o livro destaca a velha ideia de que todos os relatos são incompletos e parciais. O modo como a escritora Rachel Cusk elabora a questão, aliando o artificialismo metaliterário ao realismo mais ingênuo, é que é particular mente engenhoso.

Faye “tinha passado a acreditar cada vez mais nas virtudes da passividade, e em levar uma vida o menos contaminada possível pela vontade”. O desejo de anonimato, de se perder em um lugar ou em alguém, é recorrente até mesmo em outros personagens.

Num livro atravessado pela ideia de subjetividade, conhecemos a da narradora sobretudo de modo indireto.

Afinal, só é possível abrir mão da própria individualidade até certo ponto. As imagens que ela escolhe destacar — que descrevem um ambiente ou uma pessoa — comunicam algo. Embora resista a expressar uma posição ou opinião de forma direta, ainda assim Faye se revela.

O marido de uma aluna de escrita criativa de Faye era “uma pessoa de extremos”, de modo que “sempre foi preguiçoso em relação aos detalhes”.

A passagem aponta para o valor dos detalhes na narrativa de Cusk — que fazem o papel de mediadores entre os vários momentos do livro.

Há um bom exemplo desse procedimento. Em Atenas, Faye sai para um passeio de barco com o homem que conheceu no avião. A cena em que foge dos avanços dele em alto-mar seria só constrangedora, não fosse o fato de que ele — cuja intenção pode ter sido tão só a de consertar algo no barco — segura um canivete. O detalhe muda o sentido.

Num livro que pretende destacar as várias possibilidades de manipulação, o rumo e a profundidade de diálogos corriqueiros é intencionalmente artificial. Quase todas as situações são banais, tanto as que Faye vive quanto as de que fica sabendo. É a maneira de relatar que importa aqui.

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