Em Pipa, Fest Bossa e Jazz agradou mesmo com chuva e interrupção da polícia

Festival completou dez anos de existência com apresentação de Cacá Magalhães e Barbatuques

Nem a chuva, nem a polícia, que deram suas “canjas” na noite do último sábado (17) e na madrugada de domingo durante a 19ª edição do Fest Bossa e Jazz, atrapalharam o evento que completou dez anos de existência.

O festival teve início na quinta-feira (15) e terminou no domingo (18). Na programação, vários shows, além de oficinas, masterclasses, bate-papos e workshops gratuitos agradaram artistas, turistas e comerciantes locais. 

Segundo Juçara Figueiredo, produtora e idealizadora do Fest Bossa e Jazz, houve uma melhora na realização do evento deste ano com relação ao equipamento de som e luz utilizados, mas ainda há algumas coisas a serem corrigidas.

“De forma geral o evento agradou em cheio. Tivemos o problema da chuva, mas já estamos pensando, para a próxima edição, em como trabalhar mesmo que chova durante a programação, instalando toldos e lonas transparentes em alguns pontos de apresentações”.

Com pegada de festival de rua, o Fest Bossa e Jazz levou a festa ao povo, em vez do povo à festa, com muita diversidade e música. As ruas, pousadas e estabelecimentos comercias da região litorânea, distante cerca de 80 quilômetros de Natal, ficaram lotados durante toda a festa.

“Nem quando choveu foi ruim. Meu restaurante lotou na hora da chuva, e meu movimento dobrou todos os dias e noites do festival”, disse Luciana de Galvão Macedo Reimão, 37, nativa de Tibau do Sul, proprietária e chef da Kausai Chevicheria, especializada em culinária peruana. 

Atendendo um público formado metade por estrangeiros e metade por brasileiros vindos de vários estados do país, a chef é filha de NenZé, o José Carlos, que completou 64 anos no dia da entrevista.

“Meu pai é pescador e dono de uma peixaria há mais de 40 anos. Quando eu era criança ele pegou um mero [peixe] de 160 quilos, que está nas fotos das paredes da peixaria, cuja pesca hoje é proibida. No tempo dele, não tinha um evento bom para a população de Pipa curtir, trabalhar e ganhar dinheiro. Era só a pesca. Esse festival melhorou muito as condições de quem mora em Pipa”, disse Luciana Reimão que há dois anos tem o restaurante.

Além da chuva, outro inconveniente para o festival ocorreu na madrugada de domingo, quando a polícia atendeu a denúncias e teve de interromper o show por conta do horário e do alto volume do som.

“Há uma lei de silêncio, feita pela prefeitura e pelos vereadores de Pipa, que permite que o som aconteça até as 3h. Porém o Ministério Público, através de denúncias, reduziu o horário para as 2h da manhã. As pessoas precisam entender o que elas querem. Afinal, as pousadas querem ou não o evento? Elas não entenderam que tivemos problemas com a chuva, que ocasionou atrasos, e por essa razão avançamos um pouco no horário. Ao invés de terminarmos às 2h terminaríamos às 2h40 e isso não mataria ninguém. Faltou bom senso”, disse a produtora sobre a ação da polícia que provocou, além de um leve descontentamento no público e em artistas, um coro de xingamentos contra o presidente Jair Bolsonaro por parte de alguns.

Para a argentina nascida em Buenos Aires, Beth Bauchwitz, turismóloga e secretária de turismo de Tibau do Sul, que está no Brasil há mais de 20 anos e mora entre Pipa e Natal há nove, a chuva não chegou a atrapalhar a festa. Quanto à ação da polícia local de “parar o som”, a secretária considerou necessária.

“É lei e a lei tem de ser cumprida. Houve denúncia e a polícia fez a parte dela, mas com muita passividade. É claro que o pessoal vaiou, isso foi sinal de que estavam gostando do evento, mas lei é lei e tudo ocorreu sem briga ou qualquer problema.”

Ana Maria da Costa, secretária de Turismo do Rio Grande do Norte esteve presente todos os dias e noites no evento e o avaliou como um sucesso e “sem nenhuma ocorrência ou violência”. 

“Nossa prioridade é o turista. O evento foi muito bom, com índice de violência zero. Houve uma chuvinha, mas não tirou o brilho da festa. Acontece que recebemos várias ligações de pessoas que estavam em pousadas reclamando do som alto pedindo para que a polícia interviesse nessa questão, mas tudo foi resolvido sem nenhum problema e a lei foi cumprida”, disse.

O estudante Uirapuru Mariano Gonçalves, 12, nasceu em Ourinhos, interior de São Paulo, mas mora há sete em Pipa, com a mãe que trabalha com artesanato. O garoto esteve presente em outras edições do Fest Bossa e Jazz, mas esta foi especial, pois uma das atrações o agradou muito. Qual? “A cantora baiana Cacá Magalhães, que tem 13 anos e canta muito bem”, falou o garoto sobre a talentosa garota que tem como ídolos, entre outros, Amy Winehouse, Aretha Franklin, Nina Simone, Novos Baianos e Daniela Mercury e causou nos dois shows que apresentou sendo acompanhada pela banda Terráquea. Ágata Vida, 13, também estudante, apoiou a fala do garoto, mas acrescentou: “Acho que o festival deveria ser mais organizado, porque tem muita muvuca e eu não gosto de muvuca”.

Contudo, o show que se destacou no Fest Bossa e Jazz 2019 foi o da percussionista baiana Lan Lanh. Batuques com atabaques, pandeiros e cajóns —instrumento do qual Lan Lanh é uma das precursoras no Brasil— embalaram “Brejeiro”, de Ernesto Nazareth; “Pitada de Tabaco”, de Riachão; o frevo “Taiane”, de Osmar Macedo; o afro samba “Canto de Xangô” de Vinicius de Moraes e Baden Powel; além das autorais “Sereiar”, um samba de roda, os afoxés “Zum Zum Preguiça” e “Bananeira Song”.

Acompanhando a talentosa artista, que começou seus 30 anos de carreira no grupo Rabo de Saia, antes de atuar com Cássia Eller, Nando Reis, Cindy Lauper, Ron Wood, entre outros, estavam dois craques da serra carioca de Petrópolis: o cavaquinista João Felippe Brasil e o violonista (canhoto) Guto Menezes. Os dois músicos arrasaram tocando violão, cavaquinho e viola caipira para Lan Lanh deitar e rolar contando sua história e cantando suas músicas.

"Adoramos ter tocado para esse público, nesse lugar. Eram músicas não muito conhecidas, mas acho que gostaram", disse Lan Lanh. 

O duo italiano de blues The Cinelli Brothers, além do Duetto Cabroso e da cantora Clara Menezes —atrações do Rio Grande do Norte— também não deixaram por menos e conquistaram o público com seus shows. A banda de rua Bossa e Jazz Street Band foi mais uma vez a queridinha de todos, esbanjando humor, música e simpatia, contaminando as pessoas pelos caminhos da alegre festa.

Em outubro, o festival acontece em São Miguel do Gostoso (RN) e certamente levará para o paradisíaco lugar a magia da música de qualidade que uniu gente, tocou e nutriu almas mesmo embaixo d’água e com "canja" da polícia.

O repórter viajou a convite do projeto Investe Turismo Rota Natal e Litoral

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