Em tempos de guerra entre direita e esquerda, mostra põe sertão como resistência

36ª edição do Panorama, mais importante do calendário do MAM, abre neste sábado (17)

Obra de Desali da série exibida no 36º Panorama do MAM-SP

Obra de Warley Desali da série Alicerce exibida no 36º Panorama do MAM-SP Divulgação

Clara Balbi
São Paulo

Três moças ao lado de seres folclóricos do Maranhão —bichos parte lobo, homem e tamanduá— encaram os visitantes que adentram o Panorama da Arte Brasileira do Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MAM. 

A exuberância das cores nas telas de Gê Viana dá uma ideia do sertão que inspirou o projeto, muito diferente daquele do atraso, da seca e da fome cravado no imaginário.

Na visão de Júlia Rebouças, à frente desta 36ª edição da mostra, o sertão é “uma epistemologia”, um modo de pensar e de agir que associa coletividade e invenção para fazer frente à precariedade e ao domínio dos centros urbanos. E está descolado do Nordeste.

“É importante olhar para ali porque é um lugar que sempre foi colocado à margem, vinculado à pobreza, à infertilidade. Mas o conceito escapa disso”, explica, acrescentando que, no dicionário, o sertão é definido como local agreste, distante das cidades e das zonas agrícolas.

 

Não é a primeira mostra do ano a propor essa revisão de estereótipos associados à região. “À Nordeste”, no Sesc 24 de Maio, fala dela não como lugar geográfico, mas como ponto de vista alternativo.

Outras exposições, como “Vaivém”, no Centro Cultural Banco do Brasil, e a retrospectiva de Marepe, na Estação Pinacoteca, também seguem pelo caminho. Segundo Durval Muniz de Albuquerque Júnior, autor de “A Invenção do Nordeste e Outras Artes”, isso reflete um momento político em que os estados nordestinos, onde Bolsonaro perdeu a eleição, são vistos como um polo de resistência ao governo.

Questionada se transformar o sertão em símbolo da resistência não é uma espécie de apropriação cultural, uma vez que quase metade dos participantes vêm de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, Rebouças argumenta que, enquanto a apropriação tende a empobrecer os movimentos de que se apossa, a mostra busca expandir o termo sertão.

“Me importa muito mais que a exposição tenha menos brancos do que indígenas e negros, mais mulheres do que homens, além de duas artistas trans e travestis”, rebate.

A resposta resume, em certa medida, esta edição do Panorama, mostra que surgiu há 50 anos para ampliar o acervo do MAM. Fundado por Ciccillo Mattarazzo para exibir sua coleção de arte europeia, o museu foi esvaziado em 1963, quando o mecenas, cansado da burocracia, doou as obras à Universidade de São Paulo.

Realizada em alternância com a Bienal de São Paulo desde 1995, a “bienal do MAM” se tornou o evento mais importante do calendário da instituição. Ficou conhecida por lançar novos artistas no circuito e pela proposta de definir o que é a arte brasileira hoje.

Rebouças, no caso, diz ter fugido dessa missão e não tentou buscar na seleção dos trabalhos um resumo da arte contemporânea do país. 

Mas é possível observar ali alguns elementos em comum.

Um deles é a aproximação com a natureza, em obras como os desenhos de folhagens e bichos de Michel Zózimo e a escultura de cipó de Maxim Malhado, ou as telas de Cristiano Lenhardt, que pinta com as batatas decompostas das esculturas que mostrou na Bienal de São Paulo há três anos.

Outro que salta aos olhos são as muitas referências às técnicas manuais e à arte popular. Bordados e tramas compõem obras de Daniel Albuquerque e Randolpho Lamonier. Lise Lobato expõe uma coleção de 92 facas talhadas à mão.

O mato-grossense Gervane de Paula, artista mais velho da exposição, com 58 anos, talvez seja a síntese dessa tendência. Seus trabalhos mesclam artesania regional e críticas bem-humoradas ao cenário da arte da ponte-aérea Rio-São Paulo.

Dalton Paula, que em “Rota do Ouro” transforma 40 bacias de garimpo num cortejo de fanfarra, afirma que os traços simples de seus desenhos dos instrumentos são uma forma de chamar a atenção para uma história da arte negra, pouco conhecida fora dos terreiros e quilombos. 

A identidade negra também permeia a obra plástica de Antonio Obá. Alvo de perseguição há dois anos por uma performance em que destruía a imagem de uma santa, o artista agora traz uma série de desenhos e uma pintura.

Obá sofreu nas mãos de um tribunal virtual não muito diferente daquele que, no último Panorama, acusou uma performance de Wagner Schwartz de incitar a pedofilia depois da viralização de um vídeo em que uma criança tocava o pé do performer nu. Um pedido de investigação do caso foi arquivado pelo Ministério Público.

“A arte é uma linguagem. Se você tem coisas belas ou não para comunicar, isso não é problema da arte, mas do contexto”, afirma Obá. “Entender que há realidades e percepções diferentes, e que isso não deve ser motivo para intolerância, já seria um grande avanço.”

A instalação que fecha este Panorama tenta dar conta do debate de forma quase pedagógica. Ocupando o antigo espaço da “Aranha” de Louise Bourgeois, Vulcânica Pokaropa exibe vídeos nos quais 12 pessoas trans, travestis e não-binárias de todo o país discutem os preconceitos que sofrem nos espaços institucionais.

36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão

  • Quando Abertura sáb. (17). Até 15/11
  • Onde MAM - av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Parque Ibirapuera

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