Termo 'paraíba' usado por Bolsonaro reflete preconceito ao Nordeste, e cabe punição

Fluxo de migrantes nordestinos para o Sudeste no século 20 está na origem da expressão

Guilherme Magalhães Flávia Faria
São Paulo

Ao se referir a nordestinos como “paraíbas”, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) adotou uma postura preconceituosa e passível de punição pela lei, segundo linguistas e advogados ouvidos pela Folha.

A origem do termo está intrinsecamente relacionada à intensificação dos fluxos migratórios de nordestinos para o Sudeste a partir dos anos 1960, especialmente de baianos a São Paulo e paraibanos ao Rio de Janeiro.

“Criou-se essa designação genérica de ‘baiano’ em São Paulo e ‘paraíba’ no Rio por conta da tensão”, afirma Dante Lucchesi, professor de letras na UFF (Universidade Federal Fluminense) e referência na área de sociolinguística.

“Era uma população mais pobre, marginalizada na periferia dessas cidades, já que os nordestinos que migravam eram retirantes, pessoas de baixa escolaridade e se ocupavam com trabalhos menos qualificados.”

O presidente Jair Bolsonaro discursa em evento usando chapéu de vaqueiro, em Vitória da Conquista, na Bahia
O presidente Jair Bolsonaro, usando um chapéu de vaqueiro, discursa durante inauguração do aeroporto de Vitória da Conquista, na Bahia - Divulgação/Presidência da República

Na última sexta-feira (19), em uma conversa com o ministro Onyx Lorenzoni (RS) captada por um microfone aberto antes de um café da manhã com jornalistas, Bolsonaro usou o termo para se referir a governadores do Nordeste. 

“Daqueles governadores de paraíba, o pior é o do Maranhão [Flávio Dino, do PC do B]. Tem que ter nada com esse cara”, disse.

No dia seguinte, o presidente negou que tenha usado a expressão de forma pejorativa e afirmou que se referia aos governadores do Maranhão e da Paraíba (João Azevedo, do PSB). Nesta terça (23), em Vitória da Conquista (BA), disse que "somos todos paraíbas, somos todos baianos"

Segundo Lucchesi, “o termo ‘paraíba’ é carregado de preconceito no Rio de Janeiro”, onde Bolsonaro, que é paulista, se radicou. “Nesse caso, é claramente um termo pejorativo que reflete uma postura preconceituosa, lamentavelmente por parte do presidente, que devia representar todos os brasileiros.”

O influxo crescente de migrantes nordestinos na segunda metade do século 20, quando operou-se um maciço êxodo rural e a população brasileira passou a ser majoritariamente urbana, gerou a tensão de que fala Lucchesi. “A tensão gera preconceito, e ele se traduz na terminologia.”

De acordo com dados do IBGE, em 2015 havia mais de 2 milhões de baianos morando no estado de São Paulo (5% da população) e 330 mil paraibanos no do Rio de Janeiro (2% da população).

“Baiano” e “paraíba” passaram, então, a ter denotação —num nível mais objetivo— de nordestino em geral e uma conotação —analisando-se o contexto— negativa, de pessoa ignorante, desqualificada, afirma o especialista. “Já tive notícia até do termo ‘baianada’ em São Paulo, como alguma irregularidade, uma atitude condenável”, diz.

"O uso pejorativo está claramente vinculado à migração dos nordestinos para o Sudeste", afirma o linguista Carlos Alberto Faraco, professor de letras da UFPR (Universidade Federal do Paraná). "Eram pobres e ficou aquela pecha de recusa a esse tipo de migrante."

De acordo com especialistas ouvidos pela reportagem, o uso palavra “paraíba” pode configurar crime, caso ocorra em um contexto que busque ofender. 

Thiago Amparo, professor da Escola de Direito da FGV-SP e colunista da Folha, afirma que é preciso avaliar a situação em que o termo foi usado e o intuito com que foi empregado.  

“Você tem olhar o fato e as circunstâncias do caso concreto para verificar se a pessoa efetivamente imprimiu aquela fala com o intuito de exprimir aquele preconceito ou ofender a honra da pessoa. Numa situação concreta, você olha todo o contexto, o vídeo que a pessoa falou, quem é o interlocutor, analisa os elementos da situação”, diz.

É o que também diz João Daniel Rassi, sócio do escritório SiqueiraCastro e especialista em direito penal. “Pode parecer que a pessoa mostrou um fato, mas no contexto da frase seja ofensivo. É um crime que depende de interpretação”, pontua.

Pela lei brasileira, situações de preconceito podem ser enquadradas como injúria, quando a ofensa é feita a uma determinada pessoa. O crime, previsto no Código Penal, tem pena maior quando a ofensa faz referência à “raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência”.

A punição prevista é de multa e até três anos de reclusão.

Outra possibilidade é quando o ato se encaixa na lei 7.716, que dispõe sobre os crimes de discriminação. Ela também é conhecida como Lei do Racismo. 

Essa legislação pune situações em que uma pessoa é impedida de realizar alguma atividade, frequentar um estabelecimento ou exercer um cargo por preconceito. 

O artigo 20, contudo, amplia a abrangência da lei. Esse dispositivo pune, com multa e até três anos de reclusão, quem “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Se o crime for cometido por qualquer meio de comunicação ou publicação, o que inclui redes sociais, o tempo de reclusão pode chegar a cinco anos. 

“É um artigo genérico que normalmente você enquadra condutas que são não só contra uma pessoa específica como contra uma coletividade. Quando a pessoa pratica, induz ou incita uma discriminação ou preconceito com base na questão nordestina contra um grupo, há casos que estaria praticando o crime do artigo 20, que é mais geral”, diz Amparo, da FGV.

Rassi e Amparo afirmam que, embora a lei fale em “procedência nacional”, já há o entendimento no meio jurídico de que ela pode ser aplicada também em casos de preconceito regional, como discriminação a nordestinos. 

Os dois também concordam que o fato de a ofensa ser proferida em uma conversa privada, como ocorreu no caso de Bolsonaro, não impossibilita a punição. 

"Algo importante de ressaltar que ele [Bolsonaro] não teve intenção de divulgar aquela fala. Mas isso não tira o caráter ilícito da fala se for provado que a intenção dele era ofender um grupo", disse Amparo.

O que diz a lei

Injúria racial
Segundo o artigo 140 do Código Penal, é crime “injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro” (pena de multa e detenção de um a seis meses). Quando a ofensa faz referências à raça, cor, etnia, religião, origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência, a pena é aumentada: o tempo máximo de reclusão passa para três anos.

Lei 7.716/89
Prevê punição para “crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. A maioria das situações descritas na lei envolve o ato de impedir alguém de frequentar um estabelecimento ou negar emprego por preconceito. As punições variam conforme o ato praticado, mas vão de um a cinco anos de reclusão. 

O artigo 20, contudo, traz uma definição mais abrangente, e considera crime “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. A punição prevista é de um a três anos de reclusão, mais multa. 

Segundo advogados, esse artigo pode abranger postagens em redes sociais que incitem discriminação a todo um grupo. Seria o caso de conteúdos que digam que “nordestinos têm que morrer”, por exemplo. Nessas situações, a pena aumenta e pode chegar a cinco anos de reclusão.

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