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Cinema

Espécie de Romeu e Julieta lésbico queniano tem fórmula batida

'Rakiti' foi proibido de passar nos cinemas do Quênia por retratar romance de mulheres

Cássio Starling Carlos

Rafiki

  • Quando Estreia nesta quinta (8)
  • Elenco Samantha Mugatsia, Sheila Munyiva, Neville Misati
  • Produção Quênia, África do Sul e outros. 2018.
  • Direção Wanuri Kahiu

Como não ter simpatias pelo drama de duas garotas que se amam e, por isso, se tornam vítimas do preconceito? O longa da diretora queniana Wanuri Kahiu usa uma fórmula tão antiga quanto o mundo para narrar uma história de amor louco e maldito.

Sinal de que os tempos mudam, alguns tabus perdem validade, mas a intolerância persiste ou até conquista mais adeptos.

Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva) ocupam os mesmos lugares de Romeu e Julieta na tragédia romântica de Shakespeare. Filhas de oponentes na política, as garotas se envolvem em um relacionamento que encontrará na sociedade, até mais do que nas famílias, o seu maior impedimento.

As caricaturas da fofoqueira da rua, do discurso religioso contra a homossexualidade e do machinho homofóbico são facilidades que o filme adota em busca de eco social.

“Rafiki” não é, contudo, só mais um filme-mensagem. Kahiu não poupa o molde repressivo dos países africanos, onde a maioria das mulheres ainda não usufrui as conquistas do feminismo e onde violências físicas e simbólicas são costumes.

Se denunciar é urgente, não é daí que o filme extrai sua força. Esta vem da energia e do movimento, da estética afro e pop que a diretora adota para reafirmar numa forma contagiante que o direito de amar é universal.

Kena se move de skate. Ziki dança na rua e caminha balançando seus dreads multicoloridos. A descoberta que uma faz da outra passa por signos físicos e de estilo.

Kena joga futebol com os meninos. Ziki admira o respeito que a menina tem frente ao grupo de homens e, estimulada pela imagem, entra na partida. Ziki convence a namorada a usar vestido. Kena diz que tem alergia, mas aceita.

Assim como o pop é mistura, é dissolver hierarquias, é abertura à experimentação, o desejo das meninas em “Rafiki” é fluidez, é descoberta, é liberação.

Por meio desses sinais, a diretora expande nossa percepção para além das categorias prontas do cinema étnico ou do filme LGBT. E entrega um filme que acredita na moral da história, mas que não esquece que o cinema é também prazer dos sentidos.

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