Descrição de chapéu
Moda

Glorinha Paranaguá foi pioneira ao vincular ideal de brasilidade à moda

Designer carioca morreu nesta terça-feira (20)

Pedro Diniz
São Paulo

O esforço de valorizar as raízes culturais brasileiras chegou tarde à moda, mais especificamente nos anos 1990. Porque até os 1970, estar na moda por aqui se resumia a copiar as regras de estilo vendidas por Paris, Londres, Nova York e Milão. Algumas pessoas foram decisivas para imbuir na alta sociedade um sentido de beleza vinculado à brasilidade, e uma delas foi Glorinha Paranaguá, morta nesta terça-feira (20), no Rio de Janeiro, ao 89 anos.

Espécie de ícone da zona sul carioca e tachada por muitos anos de “embaixatriz da moda”, ela foi pioneira ao usar pedaços de bambu envernizados na produção de bolsas. A carteira de bambu, seu primeiro desenho original, até hoje é sinônimo de elegância atemporal.

A ideia aparentemente simples foi pouco a pouco, e muito porque o mercado internacional recebeu com tapete vermelho a ideia, absorvida pela cliente de luxo brasileira, que passou a ver como joia o que antes considerava de baixa qualidade. É a velha máxima “santo de casa não faz milagre”.

Paranaguá, a bem da verdade, tinha a seu favor o trânsito nas rodas da elite. O puxadinho que armou no fundo de sua casa em Ipanema virou um reduto de medalhões da Guanabara, amigos dela e de seu marido, o diplomata Paulo Henrique Paranaguá.

Encontros com realezas, presidentes e personalidades da cultura, do escritor Truman Capote à ex-primeira-dama argentina Eva Perón, ocorridos na época em que acompanhou o marido pelo mundo, deram verniz internacional às peças que decidiu lançar na volta ao Brasil. Isso diferenciava seu trabalho, aos olhos da sociedade e da moda, daquele feito pelo artesão do interior do país.

A história da designer coincide com a de outros membros do jet-set que ganharam a ribalta. Talvez não tivesse sido tão fácil para Zuzu Angel (1921-1976) convencer a elite em plena ditadura militar que a imagem de Lampião e Maria Bonita poderia ser “fashion” se a referência do sobrenome norte-americano não existisse.

Da mesma forma, não teria sido simples o caminho das pedras coloridas do país até colarem em pulsos e pescoços abastados se a arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992) não tivesse, ainda nos 1940, feito uma propaganda massiva das joias no circuito “high” paulistano, que achava “low” águas marinhas, ametistas e topázios.

Foi preciso outro olhar estrangeiro, o do alemão Hans Stern (1922-2007), para elas ganharem de vez status de joias quando, em 1945, ele abriu aqui a joalheria H.Stern.

O estilista Ronaldo Fraga costuma dizer que o Brasil padece de um problema crônico de ver como coisa de pobre tudo que é feito por pobres. Faz sentido. Rendas, trançados de palha, costuras e bordados, medidos a peso de ouro em desfiles recentes como os das francesas Chanel e Loewe, ainda são vistos com reticência pelo brasileiro.

Glorinha Paranaguá e raros colegas de seu segmento são pioneiros mais por abrir os olhos do mundo ao produto brasileiro do que necessariamente pela criação da manufatura —porque parte dela foi gestada por tribos indígenas e outra trazida por escravos africanos.

A designer de bolsas Serpui Marie, por exemplo, leva desde os anos 1980 às vitrines francesas e americanas as técnicas e os materiais usados em cestaria. Uma das bolsas e acessórios de sua grife Serpui podem facilmente chegar a custar R$ 1.000.

“Reivindicamos a ideia de que o trabalho artesanal não é artesanato de pracinha, que mulheres elegantes podem enxergar a brasilidade e se apropriar dela”, diz Marie. “Glorinha foi, sem dúvida, uma dessas mulheres.”

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