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Cinema

Incrivelmente realista, 'Fourteen' acompanha amizade entre duas jovens

A maneira como aos poucos percebemos que o tempo passou confere grande força inventiva ao filme

Sérgio Alpendre

Fourteen

  • Quando Estreia nesta quinta (1).
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Tallie Medel, Norma Kuhling, Lorelei Romani
  • Produção EUA, 2019
  • Direção Dan Sallitt

Curiosamente, vários filmes que têm sua força nos pequenos detalhes e no olhar delicado para a simplicidade da vida são exibidos quase que simultaneamente nos cinemas paulistanos.

O belo longa argentino "Eu Menina", de Natural Arpajou, passou no recém-terminado Festival Latino. Na semana passada estrearam os franceses "Os Dois Filhos de Joseph", de Felix Moati, e "Meu Bebê", de Lisa Azuelos.

Por fim, nesta semana estreia "Fourteen", quarto longa para cinema dirigido pelo crítico americano Dan Sallitt, sete anos após seu longa anterior, o elogiadíssimo "The Unspeakable Act".

"Fourteen" foi realizado com baixíssimo orçamento, em locações de Nova York, com diálogos naturalistas e um clima que lembra os melhores filmes do "Mumblecore", subgênero do cinema independente americano. Mas seria um equívoco considerá-lo parte desse movimento.

Sallitt é muito mais feliz no uso das características do "Mumblecore" do que os filmes de Noah Baumbach e Alex Ross Perry, além de percorrer caminhos de sensibilidade de modo diferente dos filmes de Andrew Bujalski. Isto para ficarmos nos diretores mais conhecidos do subgênero.

As personagens de "Fourteen" não são desinteressantes, como as de Perry, ou insuportáveis, como os de Baumbach, por exemplo (exceção: "Mistress America"). E os eventos que retrata podem ir facilmente do ordinário ao trágico, alcançando maior amplitude dramática.

Acompanhamos com muito interesse aproximadamente dez anos da longa amizade entre Mara (Tallie Medel, protagonista em "The Unspeakable Act") e Jo (Norma Kuhling).

Mara é independente e decidida, enquanto Jo é instável e aparentemente sofre de depressão profunda. Por vezes, Mara é atingida pela instabilidade de Jo, enquanto esta não consegue deixar de se colocar na posição de garota mimada, embora seu desequilíbrio passe longe dessa condição.

A maneira como aos poucos percebemos que o tempo passou confere grande força inventiva ao filme, e é notável o uso de elipses criativas e por vezes ousadas dentro da narrativa.

Sallitt consegue fazer com que sintamos a progressão da amizade e seus desencontros de maneira incrivelmente realista, como acontece em nossas vidas, quando perdemos o contato com pessoas que desejávamos ter sempre por perto ou quando amizades valiosas se desmancham por palavras não ditas ou pequenos gestos não realizados.

Com isso, "Fourteen" se distancia da média do cinema indepentente americano e permite uma aproximação mais pertinente com o cinema do francês Éric Rohmer (1920-2010). Ou, para ficarmos dentro do cinema contemporâneo: é o primo americano de "Amanda", longa recente do francês Mikhaël Hers.

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