Entenda por que Jackson do Pandeiro é o Rei do Ritmo

Músico que completaria cem anos neste sábado popularizou a divisão rítmica vertiginosa e letras de métricas afiadas

Alvaro Costa e Silva
Rio de Janeiro

“Chiclete com Banana”, a música mais conhecida do repertório de Jackson do Pandeiro, não fez “aquele” sucesso à época do lançamento, em 1959.

O estilo de Jackson, que nasceu há cem anos na Paraíba profunda, ganhou corpo em Campina Grande e saiu de Pernambuco para conquistar o mundo, já estava na boca do povo. Seu disco de estreia, um 78 rotações lançado quatro anos antes trazendo o coco “Sebastiana” e o rojão “Forró em Limoeiro”, tivera incríveis 50 mil compradores, então uma façanha até para os cartazes da Rádio Nacional.

“O boogie-woogie de pandeiro e violão” bateu no ouvido dos fãs como mais uma tirada humorística do cantor. Aos poucos, caiu no esquecimento. Até 1972, quando ressurgiu com status de canção tropicalista avant-garde na voz de Gilberto Gil. Hoje é clássico absoluto.

Jackson do Pandeiro é um dos maiores amores que eu tenho. Que tive, tenho e terei sempre”, afirma Gil. “Um artista com a verve nordestina típica da cultura que nasceu do entrelaçamento entre a vida rural e algumas cidades de porte médio, como Campina Grande, que começaram a se desenvolver a partir das décadas de 1930 e 1940.”

Jackson do Pandeiro em janeiro de 1981 no Rio de Janeiro - Lewy Moraes/Folhapress

Alagoa Grande, onde nasceu José Gomes Filho (que, antes de se tornar Jackson do Pandeiro, foi Zé Jack e Jack, por influência do ator de bangue-bangue Jack Perrin), deixou na memória dele “uma fome que dá dor de cabeça”. E também as pescarias de rio e as rodas de coco, nas quais sua mãe, Flora Mourão, era a mais respeitada cantora.

Foi a partir do coco —gênero cuja “uniformidade está na ausência de uniformidade”, na definição de Mário de Andrade, ou seja, espera-se uma coisa do canto e vem outra— que ele influenciou grande parte da música popular brasileira na segunda metade do século 20, com ecos e pandeiradas até hoje.

“Enquanto Luiz Gonzaga popularizou o baião, o xote e o xaxado, Jackson do Pandeiro projetou o coco, o samba nordestino, com divisão rítmica vertiginosa e letras de métricas afiadas”, diz o crítico musical Tárik de Souza.

“Com a parceira Almira Castilho, injetou humor e malícia no legado cultural riquíssimo de sua região. Ele se espraiou pelo tropicalismo, influenciou a geração posterior, de Alceu Valença, Elba e Zé Ramalho, o manguebeat, da Nação Zumbi e Mundo Livre S.A., o baque solto de Lenine e Lula Queiroga e ainda o coco retrofitado do Cascabulho e Silvério Pessoa”, aponta Souza.

Epítetos geralmente não erram —Jackson era o Rei do Ritmo. Também o Homem Orquestra. Tocou de tudo —ganzá, reco-reco, zabumba, tamborim, gaita, sanfona, piano. Se fosse para puxar um jazz ou um blues na bateria, não tinha problema. Mas é no pandeiro que ele excedeu. Pudera: seu virtuosismo no domínio do instrumento de eleição se tornou lendário.

“Jackson do Pandeiro está para a música brasileira como Mané Garrincha para o futebol. Pintava o sete igual como o camisa sete do Botafogo. Cantava e tocava pandeiro, indo e voltando da linha de fundo, até bater em gol ou mandar a redonda no fuzuê da pequena área musical”, compara o historiador Luiz Antonio Simas.

Na excelente biografia “Jackson do Pandeiro: O Rei do Ritmo”, de Fernando Moura e Antônio Vicente, o maestro Moacir Santos —que foi saxofonista da jazz band da Rádio Tabajara, em Campina Grande, apresentando-se ao lado de nosso pandeirista— diz que “Jackson era muito mais que um ritmista".

"Ele tinha uma capacidade expansiva, transformando o pensamento musical dele em ritmo. Alguns choros que eu fazia nessa época ele decorava e me passava todos os detalhes, cantando. Depois saía ensinando a melodia aos acordeonistas”, acrescenta Santos. 

Como cantor, nos primeiros anos de carreira, Jackson se espelhou em Manezinho Araújo, autor de “Como Tem Zé na Paraíba”, de quem herdou o chapéu de abas curtas, usado de lado. Mas sua definitiva influência castigava no sotaque carioca, na métrica espichada e nos breques: Jorge Veiga, o Caricaturista do Samba.

Em 1954 mais um bolachão de Jackson —com as gravações de “1 a 1” e “A Mulher do Aníbal"— estourou no Sul Maravilha, popularizando de vez sua voz metalizada. E não houve jeito: ele tinha de finalmente viajar para o Rio de Janeiro. Com medo de avião, veio de navio. Sua primeira impressão ao avistar a cidade: “Homi, parece um tabuleiro de cuscuz!”.

Contratados pela Rádio Nacional, Jackson e Almira viraram a Dupla do Barulho. Melhor ainda se deram, esteticamente, na televisão, sabendo aproveitar suas possibilidades gestuais. Logo pulariam para o cinema. E tome sucesso: “Forró de Caruaru”, “O Canto da Ema”, “Xote de Copacabana”, “Cabo Tenório”, “17 na Corrente”, “Cantiga do Sapo”.

Autor da homenagem “Bate um Balaio ou Rockson do Pandeiro”, João Bosco destaca o fascínio que o artista exerce nas camadas populares. “De férias, peguei a família e fomos para uma praia deserta no Espírito Santo. Estávamos ouvindo Jackson do Pandeiro quando apareceu um sujeito vendendo cerveja e churrasquinho feito na hora. Ele parou tudo, não trabalhou mais e ficou a noite inteira ouvindo a fita cassete, que ia ao final e voltava ao princípio, num moto-contínuo que só a música do Jackson é capaz.”

Baixinho, magro, tez de cafuzo, bigodinho ralo, Jackson tinha horror a cabeludo. Sobretudo a partir do surgimento dos cantores da Jovem Guarda na década de 1960, quando o iê-iê-iê começou a jogar para escanteio o gemido da ema.

Alceu Valença e Geraldo Azevedo, dois pernambucanos cabeludos, conheceram bem essa bronca. Ao convidarem o paraibano para cantar “Papagaio do Futuro”, no Festival Internacional da Canção de 1972, quase bateram com a cara na porta. Mas Jackson, ao ouvir a embolada, aprovou a audácia da mocidade.
“Em 1979 eu estava em Paris com saudades do Brasil, e ouvia Jackson direto. Inspirado naquelas audições, fiz ‘Coração Bobo’”, lembra Alceu.

“Ao voltar, convidei ele para cantar a música comigo no Festival da Tupi. Originalmente os versos diziam: ‘O coração dos aflitos/ Explode dentro do peito’. Jackson propôs a modificação: ‘O coração dos aflitos/ Pipoca dentro do peito’. Muito melhor.”

O coração de Jackson do Pandeiro, que era diabético, deixou de bater em 1982. Mas, como garante o crítico Tárik de Souza, “nos cem anos do patriarca, esse coqueiro ainda dá coco”.


Lançamentos no centenário
O pesquisador Rodrigo Fauor prepara a reedição de discos gravados na Columbia e CBS. Em 2016, Faour organizou a caixa "O Rei do Ritmo", que reuniu 235 faixas do cantor

O documentário sem data de estreia "Jackson: Batida do Pandeiro", de Marcus Vilar e Cacá Teixeira, traz entrevistas inéditas com Almira Castilho, mulher do cantor, e com Geraldo Correa, amigo de infância do pandeirista

Ouça Jackson
Pedro Miranda, João Cavalcanti, Alfredo Del-Penho e Moyseis Marques fazem um tributo ao artista, com participação de João Bosco 
Circo Voador - r. dos Arcos, s/nº, Rio de Janeiro. Sáb. (31), às 22h. Ingr.: a partir de R$ 40

Arraiá do Geraldo Azevedo - Especial do Pandeiro 
Natura Musical - r. Artur de Azevedo, 2.134, São Paulo. Sex. (30), às 22h. Ingr.: a partir de R$ 50

Jackson é 100
Carlos Malta, Genival Lacerda, Almério, Toninho Ferragutti e Silvério Pessoa se debruçam sobre o repertório do artista
Sesc Pompeia - r. Clélia, 93, São Paulo. Sáb. (3), às 21h. Dom. (4), às 18h. 12 anos. Ingr.: R$ 9 a R$ 30.

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