Game brasileiro revisita sertão baiano do século 19 com protagonista mulher

'Árida' foge de mandamento do mercado e deixa de lado cenários genéricos ou do hemisfério norte

Eduardo Moura
São Paulo

Demorou quase um século para que “Os Sertões” ganhasse uma tradução em alemão, em 1994.

Agora, outra história que tem como pano de fundo o sertão nordestino do século 19 tem ganhado a curiosidade dos alemães, embora numa linguagem menos tradicional. É o videogame “Árida”, disponível para PC na plataforma Steam, para Windows —em breve, também poderá ser jogado em Mac ou Linux.
Criado pelo soteropolitano Aoca Game Lab, o jogo tem sido baixado por gente do mundo inteiro. E, depois de o estúdio ter participado do Gamescom, um dos maiores eventos de jogos eletrônicos do mundo, em Colônia, os downloads por usuários alemães dispararam.

Segundo Filipe Pereira, historiador e fundador do Aoca, brasileiros são menos da metade dos jogadores de “Árida”. Até o momento, representam 47%.

Os americanos estão em segundo lugar, sendo cerca de 30%, “talvez pela forte cultura de consumo de jogos”, diz Pereira. Depois, vêm Alemanha, França e Canadá.

O game conta a história de Cícera, jovem que tenta sobreviver no sertão baiano no final do século 19. 
O jogo não tem gráficos de última geração e nem uma jogabilidade nunca antes vista na história deste país.

“Árida” cativa pela simplicidade e por ter uma temática que foge do usual.

“Não precisa de gráficos incríveis nem mecânica excelente para se ter uma ótima experiência. É um bom jogo alternativo”, escreveu um usuário português da plataforma.

“Árida” é a primeira criação comercial da equipe de oito criadores, a maioria baianos, ainda que nenhum vindo do sertão. “A gente foi para a zona rural por um tempo, interagiu com os sertanejos”, conta Pereira. “Também teve uma pesquisa bibliográfica. Lemos bastante sobre Canudos, e não só na área de história, mas também na de literatura e do audiovisual.”

Fã assumido de jogos da Nintendo, Pereira destaca a influência da franquia “Zelda” —é possível ver um quê do protagonista Link nos traços da sertaneja virtual Cícera.

“Árida” chama a atenção porque, diferentemente do que acontece no cinema e na literatura, jogos eletrônicos brasileiros com temática regionalista não são comuns.

Os estúdios mais consolidados, para conseguir ganhar dinheiro, acabam trabalhando com temáticas mais consagradas, segundo Érika Caramello, doutora em educação, arte e história da cultura e pesquisadora do mercado de games.

Isso tem a ver com o fato de que videogames são produtos culturais que já nasceram globais. “A crise também acaba fazendo com que você vá vender lá fora. Além disso, temos aqui uma cultura forte de pirataria”, diz a pesquisadora.

Um exemplo de jogo brasileiro com temática internacional é o ainda inédito “Dolmen”.

O game desenvolvido pelo estúdio Massive Work, do Rio Grande do Norte, é uma ficção científica extraterrestre que tem sido comparada à franquia “Dark Souls”, de Hidetaka Miyazaki, e que tenta reproduzir a estética e a qualidade dos chamados jogos AAA (ou “triple A”) —os blockbusters. 

Entretanto há quem tente uma terceira via, em que a estética AAA é combinada com elementos regionais. 
Ainda em fase de testes, “Araní”, protagonizado por uma guerreira indígena, tem como referência franquias tradicionais e de sucesso como “Devil May Cry” e “God of War”. 

O jogo do estúdio recifense Diorama Digital traz uma narrativa inspirada em culturas de índios da América do Sul. “São várias mitologias da região, um apanhado”, diz Bruno Palermo, que lidera a equipe de design do estúdio.

Nos teasers já divulgados fica claro que o jogo almeja uma jogabilidade típica de um AAA de ação. A ideia, porém,  é que seja todo narrado em tupi, com legendas em português, inglês ou espanhol. A trilha sonora fica por conta da banda brasiliense Arandu Arakuaa, que mistura heavy metal com música indígena e tem letras em tupi antigo, xerente e xavante.

Uma inquietação entre os integrantes da equipe do estúdio de games pernambucano era se isso seria considerado regional demais pelo mercado, conta Palermo. 

“Achava que seria um obstáculo, mas foi uma surpresa”, diz Palermo. Segundo ele, a recepção em testes feitos em festivais tem sido boa. 

Assim como a televisão, a indústria de games está passando por mudanças graças ao streaming. “No novo modelo de consumo, as grandes produtoras passam a olhar para públicos de nicho, em vez de focar somente a massa”, diz Caramello. “É um momento de ouro para a indústria indie propor novas temáticas.”
Porém, não é apenas uma temática surpreendente que define o sucesso do jogo. Caramello dá o exemplo de “Dandara”, game mineiro eleito pela revista Time como um dos melhores de 2018, junto com “Super Mario Party”, “God of War” e “Red Dead Redemption 2”. O game se inspira na companheira de Zumbi dos Palmares.

“A repercussão incrível de ‘Dandara’ não é só pela temática regional. O jogo tem uma jogabilidade muito boa e é muito bem feito.”

Jogos made in Brazil

‘Árida: Backland’s Awakening’
Criado por um historiador, se passa na Bahia do século 19

‘Araní’
Ainda em fase de desenvolvimento, tem como protagonista uma guerreira indígena e trilha sonora em tupi

‘Dolmen’
Ficção científica espacial inspirada em ‘Dark Souls’

‘Black Iris’
Thriller fantasioso com uma protagonista sem memória em busca de respostas  

‘Dandara’
Citado pela revista Time como um dos melhores jogos de 2018, é inspirado em Dandara dos Palmares

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