Descrição de chapéu Artes Cênicas

Japonês dirige peça de Beckett sobre paralisia de mundo estéril

Cria de um dos maiores encenadores contemporâneos, Yoshi Oida compara a trama de 'Fim de Partida' ao ciclo da vida

São Paulo

Discípulo do britânico Peter Brook, um dos maiores diretores teatrais vivos, o japonês Yoshi Oida, de 86 anos, não pensou duas vezes antes de aceitar o convite do ator Matteo Bonfitto para dirigir “Fim de Partida”, em cartaz no Sesc Ipiranga.

O ator e diretor japonês Yoshi Oida no cenário de 'A Canção da Terra', no palco do Sesc Pinheiros
O ator e diretor japonês Yoshi Oida no cenário de 'A Canção da Terra', no palco do Sesc Pinheiros - Lenise Pinheiro - 12.dez.2017/Folhapress

“Sempre fico feliz de apresentar alguma coisa para o público brasileiro”, diz Oida, por telefone, de Tóquio, onde atua em uma versão de “Édipo Rei” no mês que vem. Radicado em Paris, o japonês frequenta o Brasil desde 1999. Há dois anos, montou em São Paulo uma versão operística de uma sinfonia do austríaco Gustav Mahler, “A Canção da Terra”.

Desta vez, no entanto, Oida não conseguiu vir ao país. Foi Bonfitto, assim, que bateu à porta do mestre na capital francesa, acompanhado de sua trupe. Sob a supervisão de Oida e sob as câmeras de uma equipe de filmagem que realiza um documentário sobre o japonês, ensaiaram seis dias por semana, seis horas por dia, entre os meses de março e abril.

A escolha do título partiu de Oida. Bonfitto, que assina a direção do espetáculo ao lado do mestre, desejava sobretudo montar uma peça de Samuel Beckett, dramaturgo irlandês ganhador do Nobel de Literatura cuja morte completa três décadas neste ano.

A trama acompanha quatro personagens isolados em um abrigo à beira-mar, Hamm, Clov, Nagg e Nell.

Todos estão condenados, de uma forma ou de outra, à inércia. Hamm —interpretado por Bonfitto— é cego e tetraplégico, completamente dependente do serviçal Clov, criado pela família desde a infância.

Clov tem uma doença que o impede de se sentar, e passa cada minuto em cena indo da cozinha para a sala, da sala para a cozinha, ao bel-prazer dos caprichos de Hamm.

Já o pai e a mãe de Hamm, Nagg e Nell, tiveram as pernas amputadas por causa de um acidente. Vivem cada um em uma lata de lixo, elemento que dá uma pista do estilo ao mesmo tempo cômico e desalentador de Beckett, considerado um dos representantes do teatro do absurdo ao lado de nomes como o romeno Eugène Ionesco e o francês Jean Genet.

O mundo que os personagens veem pelas duas janelas —uma voltada para o oceano, outra para a terra— também é desértico, estéril.

Quando Hamm pergunta como estão as coisas lá fora, Clov mal precisa da luneta para constatar que as ondas não quebram, as gaivotas se foram, e até o sol ficou no meio do caminho entre o dia e a noite. “Zero, zero e zero”, responde o empregado.

Pior, não conseguem sair do estado de dormência. Seja porque não têm coragem ou meios para cometer suicídio, caso de Hamm, ou porque têm medo do vazio que se estende do lado de fora, impasse de Clov, os personagens andam e falam em círculos, a todo tempo retomando discussões interrompidas e dilemas insolúveis.

Oida revela que, além de sua obra favorita de Beckett, “Fim de Partida” também é aquela que desperta os seus temores mais primários.

“Estou velho, no fim da minha vida”, diz. “Todo dia, vem uma nova manhã, e o que era o fim se torna um recomeço. Nossas vidas continuam se repetindo o tempo todo, e Beckett descreve isso de uma maneira muito clara, muito delicada, além de trazer à tona a solidão.”

Apesar de escrita há mais de 60 anos, Bonfitto afirma que, com a iminência de um desastre ambiental prenunciado pelos incêndios na Amazônia, o contexto apocalíptico da peça fica ainda mais próximo, indissociável de uma degeneração das relações humanas.

Seria esta uma lição de Beckett para as plateias contemporâneas, então? “Acho que ele não queria nos ensinar a viver nesse mundo, mas mostrar a realidade através de uma peça”, reflete Oida. “Fechamos e abrimos nossos olhos e ela continua ali.”

Teatro

Fim de Partida

Drama
até R$30

O clássico de Samuel Beckett ganha nova montagem pelas mãos de Yoshi Oida, ator e diretor japonês radicado em Paris, que integrou o grupo de Peter Brook. A peça revela a micropolítica interna presente nas relações de uma família e faz uma sátira sobre a fanfarronice do poder.

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