Mulheres negras são raivosas e isso é bom, diz Angela Davis em São Paulo

A ativista que fez parte dos Panteras Negras atacou Bolsonaro, citou Marielle e celebrou Preta Ferreira

Úrsula Passos
São Paulo

Sob aplausos esfuziantes, a filósofa e ativista negra feminista Angela Davis fez conferência sobre democracia neste sábado na qual mencionou por diversas vezes Marielle Franco, celebrou a liberdade de Preta Ferreira e atacou o presidente Jair Bolsonaro.

Embora já tenha vindo ao Brasil algumas vezes, esta foi a primeira vez que a mais importante das ativistas negras americanas, que fez parte dos Panteras Negras, falou em São Paulo.

Em cerca de uma hora —e mais uma respondendo a perguntas— Davis falou, sob o título "A Liberdade é uma Luta Constante", sobre a relação entre democracia e encarceramento, feminismo, anticapitalismo e veganismo para um auditório de mil lugares lotado.

Ela chegou a debater com o vereador Eduardo Suplicy (PT) e com o embaixador de Cuba, que estavam na plateia e colocaram suas questões, sobre renda básica e embargos.

Davis encerrou a série de conferências "Democracia em Colapso?", organizada pela editora Boitempo e pelo Sesc, que promoveu ainda falas de Silvia Federici e Patricia Hill Collins. Ela ainda faz conferência na área externa do Auditório do Ibirapuera, na segunda (21), às 19h.

Ela deu início a sua fala dizendo que a discussão sobre a democracia estar sob ataque não acontece apenas no Brasil, mas também é pauta do momento nos Estados Unidos, Reino Unido e Filipinas.

"O Brasil nos dava esperança", disse. Pensava-se que o Brasil mostraria o caminho da justa economia e da democracia racial, o que, segundo Davis, foi interrompido pelo "golpe contra Dilma".

Ela elencou, então, marcas da interrupção desse processo em direção à igualdade: o assassinato de Marielle Franco, o golpe contra Dilma, as eleições de 2018, e a prisão de Lula. Neste momento, aplaudida, Angela Davis ergueu o braço direito, no gesto Pantera Negra, e disse "Lula Livre".

"Marielle acreditava que o racismo poderia ser abolido, que não estávamos destinados a viver com ele", disse Davis sobre a vereadora morta no ano passado, mencionada por diversas vezes na tarde deste sábado (19). "A liberdade é uma luta constante, e Marielle sabia disso."

A ativista por moradia Preta Ferreira também foi mencionada por Davis. "Soube que ela saiu da cadeia, e isso é uma vitória a ser celebrada", disse. Uma das coordenadoras do MSTC (Movimento Sem Teto do Centro), Janice Ferreira Silva, a Preta, ficou 108 dias presa e foi libertada no último dia 10.

"Não há democracia sem a participação de mulheres negras, porque elas não representam apenas a si mesmas, elas representam suas comunidades", disse a filósofa de 75 anos. "Quando as mulheres negras se rebelam, o mundo se rebela conosco."

Quando respondia as perguntas do público, mais tarde, uma das questões tratava da postura do negro da sociedade, de quem "se espera que seja manso". O espectador perguntava como não ser um negro raivoso, ao que Davis respondeu: "O que há de errado com a raiva?".

"Tenho problemas com a raiva quando é mal direcionada, mas a raiva, quando é bem direcionada, nos ajuda a progredir. Mulheres negras têm a reputação de serem raivosas e isso é bom."

Democracia era o tema de sua conferência. E por diversos momentos, Davis buscou dar um significado a ela. "Democracia que exclui negros não é democracia", disse. "Como uma democracia exclui justamente quem ela deveria proteger? Existe supremacia branca democrática?"

Para a ativista, os Estados Unidos e a França, estandartes democráticos, não são de grande ajuda nessa busca. Esta, por ter "uma noção discriminatória de secularidade", e aqueles por ter fundado a democracia para uma minoria, "democracia branca que excluía até alguns brancos, que não incluía nem as mulheres nem os brancos pobres".

Mas, lembra, "esse não é o mundo que sempre existiu. E, como mostrou Marx, se não existiu no passado, não é eterno, pode deixar de existir no futuro".

" Eu nunca vou dizer sim ao capitalismo, nunca", disse ela quando respondia, mais tarde, as perguntas enviadas ao palco pela plateia. 

O presidente americano —que ela nunca nomeia porque, segundo ela, "em algumas culturas acredita-se que nomear traz energias"— quer voltar a um passado em que indígenas, negros e mulheres não tinham direitos, a "um momento antes de nossas conquistas sociais". No Brasil, segue ela fazendo menção a Bolsonaro, mas sem tampouco nomeá-lo, "querem voltar a um Estado policial, a uma ditadura militar".

A ideia central da conferência de Davis era mostrar como a noção de liberdade na democracia forjada pelo capitalismo está ligada ao encarceramento. Ela fez críticas às prisões, citou casos de tortura e massacre de presos, e mencionou o caso de detentos no Ceará obrigados a cantar o hino nacional nus.

"O maior presente da democracia dos Estados Unidos para o mundo é o encarceramento como modo de punição." Para ela, as prisões, como negação da liberdade, se estabelecem como a exceção que comprova a regra, como uma evidência da democracia.

" Os sujeitos da democracia capitalista sabem que são livres porque não estão presos. Como as pessoas sabiam que eram livres na época da escravidão? Eu sei que sou livre porque não sou escravo."

O encarceramento, segundo ela, está filosoficamente ancorado nas concepções liberais de democracia e "infectado com a exclusão racial". Ela diz que não podemos pensar as prisões sem redefinir o que seja democracia.

Ao final de sua fala, Davis não deixou de puxar a orelha dos presentes. "Eu sinto que preciso representar para vocês o feminismo negro. Por que vocês têm que olhar para os Estados Unidos? Eu aprendi mais com Lélia Gonzalez [antropóloga e ativista negra brasileira morta em 1994] do que vocês aprenderão comigo."​

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