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Centenário de João Cabral será celebrado com livro de entrevistas e coletâneas

Morto em 1999, autor de 'Morte e Vida Severina' também será lembrado com fotobiografia

Guilherme Henrique
São Paulo

A confissão foi registrada em entrevista à escritora e dramaturga Edla Van Steen. “Tudo o que diz respeito a mim detesto reviver. Eu prefiro não me lembrar de nada do meu passado”, afirmou João Cabral de Melo Neto. 

“Ele detestava rapapés e homenagens. A vida passada dele, ele revivia em sua poesia. Acho que ele ficaria constrangidíssimo com homenagem se fosse vivo”, disse sua filha, a também escritora Inez Cabral.

Afeito ou não a celebrações, é certo que os versos cabralinos serão lembrados de maneira efusiva em 2020, ano que marca o seu centenário. Estão previstos uma fotobiografia, um livro de entrevistas e dois exemplares reunindo a obra completa na poesia e os textos em prosa. Uma coletânea bilíngue de poemas português-espanhol será lançada em novembro, na Feira Internacional do Livro de Quito.

Detentora dos direitos autorais de João Cabral, a Alfaguara ainda finaliza os trâmites para a publicação da obra completa do autor, reunida pela Nova Aguilar em 2003, quatro anos após a morte do escritor, e fora de catálogo. Segundo Marcelo Ferroni, publisher da editora, textos em prosa, incluindo discursos e ensaios, serão reunidos em outro exemplar. Os dois lançamentos devem ocorrer entre julho e agosto do próximo ano.

“Nosso desejo era ter um pedacinho da obra dele, que não está no nosso catálogo”, afirma Maria Amélia Mello, editora da Autêntica, se referindo à propriedade intelectual da Alfaguara. Ela é a responsável por “Recife/Sevilha – Conversas com João Cabral de Melo Neto”, previsto para janeiro.

A saída para driblar impedimentos legais surgiu de uma conversa com o cineasta Bebeto Abrantes, diretor do documentário “Recife/Sevilha – João Cabral de Melo Neto”, de 2003. “Ele me falou que uma parte da entrevista feita com o João não havia sido usada e que o material estava inédito”, diz Mello. Ao longo do filme, depoimentos de amigos, familiares e do próprio autor explicam a relação dele com Sevilha, onde foi diplomata entre 1956 e 1964.

Em um dos trechos inéditos, o escritor é questionado por Abrantes sobre sua relação com o idioma espanhol. “Por que você sempre frisa a concretude da fala espanhola?”, pergunta o cineasta. “A literatura espanhola é a mais concreta que há. Foi o que me seduziu”, responde o autor. 

“Ele sofreu grande influência da Andaluzia, em temas e incorporação de linguagem”, destaca o crítico Antônio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras. “O canto cigano, despojado, quase antimusical, a plasticidade das bailadoras do flamenco, o rigor dos movimentos dos toureiros no desafio à morte —tudo isso são exemplos de linguagens outras que ele buscou incorporar ao poema.”

O diálogo com a cultura espanhola intensificou em João Cabral um processo que começara em “O Engenheiro” (1945), com a necessidade de reafirmar uma nova dimensão do discurso lírico, calcada na objetividade, distante daquilo executado em “Pedra do Sono” (1942), seu primeiro livro.

O estilo coloquial encontra diálogo com a poesia ibérica “a um tempo severa e picaresca”, que acentuou em Cabral “a tendência de apertar em versos breves e numa sintaxe incisiva o horizonte da vivência nordestina”, apontou o crítico Alfredo Bosi, que põe o poema “Morte e Vida Severina” (1955) como resultado disso.

“A escrita de Cabral parte deste princípio: a poesia deveria nascer de um embate com a linguagem, evitando ser uma resposta ao mundo emocional ou psíquico do autor”, diz o poeta e ensaísta Eucanaã Ferraz. “A questão é: qual o acento colocado nesta questão? Cabral foi ao extremo, investiu tudo no abandono da confissão lírica em favor de uma poética concebida como ‘carnadura concreta’.”

Ferraz, aliás, é o responsável pela organização da fotobiografia a sair pela editora Verso. A ideia surgiu ao analisar as fotos compiladas para a obra que uniu as gravuras do pintor espanhol Joan Miró e os escritos inéditos de João Cabral, feita originalmente na década de 1950, em Barcelona, e reeditada no ano passado. “Estamos com mais de 200 fotos e continuamos pesquisando o material”, diz Valéria Lamego, coordenadora editorial da Verso.

Com organização cronológica, o volume traz registros com os poetas Murilo Mendes e Carlos Drummond de Andrade; imagens em família, manuscritos e capas das primeiras edições de seus livros.

Na avaliação de Ferraz, a fotobiografia é uma forma diferente para se entender o autor de “O Rio” e “O Cão Sem Plumas”. “Ele é um poeta que responde diretamente à sua vivência nos espaços. 

Daí, por exemplo, a presença em sua poesia de cidades como Recife, Sevilha, Marselha, Dacar, mesmo Londres.”

Nesse sentido, afirma o organizador da fotobiografia, recuperar a presença física de Cabral nessas cidades não “parece simplesmente uma bisbilhotice biográfica”.

“Significa registrar uma dimensão material da experiência que originou o poema. Mostraremos um João Cabral bastante múltiplo e, a um só tempo, fiel a seus temas, suas paisagens, seus personagens, como os toureiros e as bailadoras de flamenco.”

Em novembro, Quito abre as comemorações em torno da obra cabralina, com a publicação de uma antologia poética bilíngue, durante a Feira Internacional do Livro. A organização é do escritor e diplomata João Almino, com tradução do filósofo Iván Carvajal e ilustrações da artista plástica Araceli Gilbert. 

“Há poemas inspirados na paisagem física e humana do país. Intrigava-me em ‘O Corredor de Vulcões’ a referência à sua janela de Quito, de onde via o ‘cone perfeito e de neve’ do Cotopaxi”, diz o diplomata. 

O funcionário mais antigo da embaixada brasileira no Equador contou a Almino que, logo no primeiro dia de trabalho de João Cabral ali, o poeta pediu que fosse mudada a localização de sua mesa para que ficasse em frente àquela janela.

O escritor ainda será homenageado no Festival Literário de Araxá, em julho, ao lado de Clarice Lispector, que também faria cem anos no ano que vem.

Principais lançamentos

Obra completa
Será reunida pela Alfaguara, que também planeja publicar
discursos e ensaios

‘Vivir en los andes’
Antologia reúne textos do período como embaixador em Quito

‘Recife/sevilha’
Apresenta trechos inéditos de entrevista ao cineasta Bebeto Abrantes

Fotobiografia
Traz mais de 200 fotos com amigos, familiares e lugares por onde passou

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