Descrição de chapéu

Com uma expansão de US$ 450 mi, o MoMA cresceu, será que melhorou?

O museu acrescentou mais 4.366 metros quadrados de área para exposições, uma nova e elegante marquise e um restaurant

Michael Kimmelman
Nova York | The New York Times

 Em 1939, o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA, na sigla em inglês), inaugurou sua primeira sede especialmente construída, na Rua 53 Oeste em Manhattan, um palazzo em estilo internacional, retangular e revestido de vidro Thermolux e painéis de mármore branco.

Elegante e surpreendentemente acolhedor, o edifício, projetado por Philip Goodwin e Edward Durell Stone, substituiu as quatro "brownstones" [uma forma clássica de casa de Nova York] que abrigavam o museu. O bairro na época era ocupado principalmente por construções baixas e residenciais, repleto de casas de pedra calcária e em estilo Beaux Arts. O edifício projetado por Goodwin e Stone pousou na rua 53 do pré-guerra como um óvni, desfraldando a bandeira do modernismo.

Desde então, o museu disparou em termos de tamanho. Isso nunca foi uma tarefa fácil, no meio de um quarteirão movimentado em Midtown. A história do MoMA, se deixarmos a arte de lado, é uma daquelas clássicas e impiedosas fábulas do mercado imobiliário nova-iorquino. O museu devorou imóveis ao seu redor, conspirou com incorporadores, construiu arranha-céus, demoliu edifícios que estavam no caminho, construiu substitutos e, em alguns casos, demoliu esses substitutos. Nas décadas de 1950 e 1960, a expansão ficou a cargo de Philip Johnson. Na década de 1980, foi a vez de Cesar Pelli. Em 2004, a missão passou para Yoshio Taniguchi.

Ao longo do caminho, o MoMA fez muito para transformar a rua 53 naquilo que ela é hoje, um cânion de aço e vidro que lembra um pouco a sede de um fundo de hedge comandado por Darth Vader.

Apenas 15 anos depois de sua última expansão, o MoMA agora concluiu sua mais recente metamorfose. É um projeto elegante, cirúrgico, amplo e um tantinho desprovido de alma.

Os arquitetos desta vez são o escritório Diller Scofidio + Renfro (DS+R), em colaboração com o gigante internacional Gensler. O DS+R projetou entre outras coisas a reforma do Lincoln Center e ajudou a conceber o parque High Line e o Shed at Hudson Yards.

Tornou-se um clichê, e um pouquinho uma crise, o fato de que museus de arte, e algumas galerias comerciais, agora acreditem que a escolha é crescer ou desistir, na disputa por nossas atenções divididas.

O MoMA investiu US$ 450 milhões em sua mais recente atualização, e aumentou seu espaço para exposições em 4.366 metros quadrados. O objetivo é expor porção maior de sua imensa coleção mas também aliviar o congestionamento ao dispersar os visitantes por uma área mais ampla. O número de visitantes, que era de cerca de um milhão de pessoas ao ano na década de 1970, ultrapassou os dois milhões depois da expansão pilotada por Taniguchi, e atingiu os três milhões em 2010, se mantendo nesse patamar desde então. A expansão de Taniguchi desperdiçou muito espaço aproveitável, ao criar um átrio dúbio no segundo piso, canalizando os visitantes por passagens suspensas estreitas e escadas rolantes que lotavam como a linha 6 do metrô de Nova York na hora do rush.

Expansões tendem a atrair mais público. Os especialistas em transportes definem o fenômeno como "demanda induzida": quanto mais faixas de rodagem você adicionar a uma via que costuma se congestionar, mais carros chegarão para ocupá-la, inevitavelmente.

Agora o MoMA se expandiu para o oeste, e sua nova versão será inaugurada em 21 de outubro. Pudemos vislumbrar a estética do projeto quando os arquitetos apresentaram sua reforma do interior projetado por Goodwin e Stone, dois aos atrás, reaproveitando galerias internas para exposições temporárias, reconstruindo elegantemente a escadaria em estilo Bauhaus original, com degraus que pareciam flutuar em finíssimas camadas de aço, e criando um "lounge" que aproveita o saguão diante do jardim, mobiliado com sofás Charlotte Perriand e revestido de mármores Grand Antique. Os detalhes eram bonitos, e o projeto muito mais ousado do que a palheta de Taniguchi, se bem que não muito mais caloroso.

As novas galerias do MoMA seguem um pouco esses temas. Avançam rumo a oeste por quase meio quarteirão, ocupando o antigo espaço do American Folk Museum, e chegam à base do 53W53, um novo edifício projetado por Jean Nouvel. As áreas de exposição são o que se poderia esperar: grandes caixas brancas, espaçosas e flexíveis, fluindo por dentro e por fora das galerias de Taniguchi. A expansão na verdade distende como massinha de modelar o circuito existente das salas nas quais o MoMA exibe sua coleção permanente, espalhadas por três pisos.

O edifício de Nouvel, com sua geometria facetada, perfil aguçado e vigas cruciformes, foi construído em um terreno que o museu vendeu anos atrás para a incorporadora de imóveis Hines, em troca de espaço no térreo da nova construção. Para o MoMA, o acesso sem obstrução ao 53W53 sempre dependeu de demolir o Folk Art Museum, uma edificação problemática mas inspirada, projetada por Tod Williams e Billie Tsien com uma fachada revestida de bronze, e a última peça arquitetônica original restante na rua 53. A demolição do edifício enraiveceu, com razão, muitos dos defensores da arquitetura contemporânea.
A maneira pela qual você julgará a nova expansão do MoMA pode depender de sua adesão ou não ao argumento do museu quanto ao seu "destino manifesto".

Os arquitetos substituíram o American Folk Museum por um arranjo de espaços de exposição e performance conectado secionalmente, e se abrindo para a rua 53. Os espaços incluem um estúdio de som e galerias no piso térreo que abrigarão exposições temporárias de acesso gratuito, também visíveis para quem contemplá-las do lado de fora, como as vitrines de uma loja.

Tive minhas dúvidas sobre essas galerias quando elas foram anunciadas inicialmente. Pareciam uma desculpa vaga para escavar uma passagem até o edifício de Nouvel. Mas provaram ser uma das melhores partes da expansão, possibilitando programação nova no museu e oferecendo uma abertura para a cidade, de uma maneira que seus demais espaços não podem oferecer.

Na reforma que Taniguchi comandou em 2004, os visitantes entravam por um saguão com jeito de túnel que se estendia entre as ruas 53 e 54. Deixavam seus casacos lá e caminhavam rumo a leste para um vestíbulo alto diante do jardim de esculturas. A sequência de compressão e liberação era uma ideia interessante, e explorava a posição central do jardim do museu. Mas o túnel era tão convidativo quando a sala de espera de um aeroporto.

Na nova configuração, uma marquise afiada como uma faca se projeta sobre a calçada da rua 53 a fim de sinalizar mais claramente a presença do museu. Um ponto de referência visual inserido sutilmente pouco acima do nível das janelas do primeiro pavimento tenta unificar as fachadas episódicas do museu. Do lado de dentro, os arquitetos elevaram o teto do saguão de Taniguchi no lado sul, transferindo a loja de presentes para o porão a fim de permitir visão desobstruída das novas galerias da Ala Oeste, e abrindo janelas para espaços de exposição no segundo pavimento.

A sensação pode ser a de estar entrando em uma loja da Apple. As linhas são puras, e a engenharia é refinada. Em uma longa parede branca estão pintadas as palavras "Hello. Again", o que faz recordar um slogan da Apple. Das bilheterias, placas informam o que está em exibição no edifício de Taniguchi, a leste, e também nas galerias a oeste, onde uma escadaria e uma fileira de elevadores aguardam.

A escada é revestida com chapas de madeira perfurada, afixadas a uma placa fina de aço conectada ao teto, a coisa toda suspensa como um móbile. No piso superior, há um restaurante Danny Meyer com um terraço, peças de arte, um teto de feltro preto e mais mármore Grand Antique. Isso substitui o café mal concebido que ficava na entrada do quinto andar para as galerias, no edifício de Taniguchi, onde o cheiro de camarão e sopa de aspargo se misturava aos Seurats e Cézannes.

Grande importância vem sendo conferida ao fato de que o novo e ampliado circuito de galerias para abrigar o acervo permanente, com seus múltiplos pontos de entrada, se enquadra à missão atualizada do MoMA. Os dias em que o museu contava uma história unificada sobre a arte moderna como uma sucessão de "ismos", expressos de forma linear, ficaram no passado. Era decerto uma história sedutora, como um conto de Borges. Mas não existe mais uma história unificada e de vetor único sobre o modernismo. Há muitas histórias diversas, que os visitantes agora podem descobrir da forma que preferirem.

É claro que já ouvimos tudo isso antes. "Já não podemos dizer que a falta de espaço, equipamento ou tecnologia nos prejudica", disse um dos curadores chefes do museu ao The New York Times quando o MoMA foi expandido na década de 1980. "Temos espaço suficiente para exposições, armazenagem e estudo, de modo que nosso principal problema agora é amor, talento, energia e paixão".

Na verdade, o problema então era que a expansão projetada por Pelli transformou o MoMA em um edifício com cara de shopping center suburbano. Não resolveu os problemas de espaço, modernismo ou amor. E a expansão que a substituiu tampouco funcionou.

Suspeito que as legiões de visitantes do MoMA ainda devam formar filas para ver "A Noite Estrelada". Vão querer saber onde o museu começa. Sociólogos e executivos da Trader Joe's dirão que os consumidores na verdade não gostam de ter escolhas demais. O novo layout vai requerer muitos painéis de informação, pessoal posicionado na salas para orientar os visitantes, apps e mapas. Veremos se os visitantes vão considerar tudo isso como confuso ou libertador.

O que os arquitetos fizeram é refinado e tático. Marginaliza o jardim, o que é uma pena; O jardim sempre foi o coração do MoMA, historicamente. Talvez essa seja uma razão, apesar de toda inteligência, talento e vontade de fazer com que o lugar pareça mais amistoso, para que a expansão não me pareça ter resolvido o problema do ambiente do MoMA.

Eu costumava fazer um exercício mental, ao acompanhar a evolução do MoMA em duas de suas expansões anteriores: e se, em lugar de optar por Midtown, o museu tivesse escolhido Brooklyn, Queens ou o West Side, como o museu Whitney? Nova York tem mais de um centro, hoje. O MoMA poderia ter renascido. Poderia ter alterado o clima cultural da cidade.

Os dirigentes do museu me disseram que calculam que a nova expansão elevará o número de visitantes para cerca de 3,5 milhões por ano. Sem dúvida, o museu voltará a ser repaginado no futuro. Richard Oldenburg, diretor do MoMA durante a reconstrução comandada por Pelli, descreveu o museu como "um lugar onde um visitante pode ver todo o desenvolvimento do movimento modernista, e sentir que captou toda essa história, nem que remotamente, em uma única visita".

O museu atual já não é assim, como admitiu seu atual diretor, Glenn Lowry, recentemente. "Sempre teremos uma obra em progresso", ele disse.

Isso é justo, imagino. Uma obra em progresso como a arquitetura do MoMA e como o modernismo em si.
 

Tradução de Paulo Migliacci

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