Descrição de chapéu

Festa em São Paulo inova ao adotar política de redução de danos

Noite de techno que estreia galpão no Brás, Blum monta estrutura para ajudar quem usa drogas e tem 'bad trip'

João Perassolo
São Paulo

Era consenso entre os frequentadores que a locação da festa Blum de sábado (19) estabeleceu um novo patamar no quesito “galpão abandonado para baladas de techno”.

Um lugar gigantesco numa rua sem saída do Brás, com paredes de azulejo branco pichadas, aspecto industrial, teto caindo aos pedaços e cantinhos com vista para os trilhos do metrô. A descrição do galpão poderia servir a qualquer festa eletrônica underground de São Paulo, mas o lugar atingiu a perfeição dessa estética, porque a produção “melhorou” as instalações.

A iluminação na pista principal, por exemplo, era uma extensão das barras de metal retorcidas do teto, como se tais barras brilhassem em cores diferentes de acordo com a batida da música; e havia luzes coloridas em pontos estratégicos, como uma lâmpada roxa ao lado de uma instalação original de canos de metal, o que ressaltava o aspecto de fábrica do lugar —e garantia o selfie perfeito. Foi a primeira festa a rolar no local.

Houve outra surpresa: a produção montou uma ousada estrutura de redução de danos do uso de drogas, com psicólogo, médico —de jaleco branco e estetoscópio, na pista— e uma pessoa que perguntava se você estava bem e se precisava de água. O esquema, localizado fisicamente no andar de baixo mas que também contava com o médico volante, ganhou o nome de T.E.C.O: tenda especializada em cuidar da sua onda.

"Teria um momento para ouvir a palavra da Redução de Danos?", perguntava um cartaz colado ao lado dos banheiros. Outros avisos no local davam dicas de formas menos prejudiciais de se consumir drogas: cocaína não deveria ser cheirada com o uso de notas de dinheiro, pois “estão cheias de bactérias”; álcool era para ser bebido devagar, pois o fígado “também tem direito de aproveitar o rolê”.

Nicolli Penteado, uma das produtoras da festa, contou, em outra ocasião, que é melhor reconhecer que as pessoas usam drogas nas baladas e ajudar quem entra numa "bad trip" do que fingir que isso não existe. Seu discurso progressista, que lembra a forma como certa noite da Holanda lida com narcóticos, começa a ser colocado em prática, para o bem do público.

Diferentemente de outras festas da cena, como a mais séria ODD e a hiper politizada Mamba Negra, a Blum tem um aspecto de diversão leve, como se sair à noite fosse também uma brincadeira. Isto coloca a balada numa posição única em um contexto em que dançar até depois do sol raiar, desde as marchas de Junho de 2013, virou um ato político para muitos jovens paulistanos.

O título dessa edição era “Não era boato era boatchy”, e o humor se estendia também para as instalações: na área de descanso, havia uma piscina de plástico e boias para quem quisesse dar uma relaxada. No som, a leveza estava no lounge comandado por Volatille Ferreira, de músicas mais descontraídas, quase pop, em contraste ao techno pesado da pista principal.

Mas a festa não foge ao figurino da noite sem rótulos, ao permitir a entrada grátis de pessoas trans —prática comum na cena— e ao incluir um sem-número de jovens não-binários entre seus frequentadores. Ali eles podem viver e celebrar a sua sexualidade.

Ao perguntar para um rapaz (sexo biológico) que usava uma bolsa bem feminina e tinha as unhas pintadas por que ele frequentava a Blum, ele disse: “para existir, para me mostrar”.

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