MoMA reabre com cara de loja após reforma que custou R$ 1,8 bilhão

Museu de Nova York vai dar mais espaço a mulheres e a artistas vindos de regiões como América do Sul, África e Ásia

Rafael Balago
Nova York

Uma ampla vitrine de vidro na rua 53 traz do outro lado uma loja no subsolo. Estantes de livros cobrem as paredes, perto de mesas onde produtos coloridos se espalham. Mais ao fundo, a frase “Hello. Again.” (Olá.De novo), impressa em letras gigantes em um mural branco, dá as boas-vindas aos visitantes. Ela é uma instalação do artista Haim Steinbach.

Poderia ser só uma loja, mas é parte da nova fachada do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York,  que reabriu nesta segunda-feira (21), depois de quatro meses fechado para ampliação.

A reforma deixou o hall de entrada mais arejado. O subsolo aberto dá uma sensação de amplitude. Será possível visitar as galerias no térreo, assim como o jardim, de forma gratuita. O ingresso padrão custa US$ 25 (R$ 102).

Apesar da intenção de se aproximar mais da rua, o MoMA não tem problemas de público —recebe em torno de 3 milhões de visitantes por ano, que buscam ver parte de um dos mais importantes acervos de arte moderna do mundo.

A reforma ampliou a área expositiva e trouxe uma nova ala. Ao todo, foram criados cerca de 4.300 m² extras, que permitirão mostrar cerca de 2.400 obras a cada ano. Antes, a capacidade era de 1.500. A instituição guarda outros cerca de 200 mil trabalhos.

Embora a ordem cronológica tenha sido parcialmente descartada, as galerias são dispostas de modo a formar uma linha do tempo, e trazem trabalhos feitos do século 19 até a atualidade. As referências aos nomes dos movimentos, os “ismos”, foram suprimidas, para não complicar a percepção dos visitantes.

A separação entre pinturas, esculturas, fotografias, arquitetura, filmes e outras formas de arte foi abolida, e agora trabalhos em diferentes suportes são expostos lado a lado, de acordo com recortes feitos pelos curadores, baseados em temas como uma ideia, um lugar ou um momento da história.

Em um exemplo dessa mistura, “Noite Estrelada”, de Van Gogh, foi disposta ao lado de “Natureza-morta com Maçãs”, de Cézanne, e de um jogo de pequenas peças de cerâmica produzidas pelo americano George Ohr. Elas estão na sala nomeada “Inovadores do Século 19”.

Em outra galeria, “As Senhoritas de Avignon”, feita por Picasso em 1907, está perto de “American People Series #20: Die”, obra de 1967 da americana Faith Ringgold, que faz referência, com pistolas e marcas de sangue, à luta pelos direitos civis nos Estados Unidos nos anos 1960.

As novidades incluem a abertura de um estúdio para a realização de performances e apresentações artísticas e de um laboratório criativo, no qual os frequentadores poderão conversar com os artistas e participar de aulas e atividades.

A ampliação custou US$ 450 milhões (R$ 1,8 bilhão) e foi assinada pelo escritório Diller Scofidio + Renfro, o mesmo que atuou na reforma do High Line e na construção do The Shed, centro cultural aberto neste ano, ambos em Nova York, e da nova sede do Museu da Imagem e do Som no Rio de Janeiro, com entrega anunciada para o fim de 2020.

Nesta nova fase, o MoMA também se propõe a aumentar sua diversidade e ter mais obras de artistas mulheres e trabalhos vindos de outras regiões do mundo, como América do Sul, África e Ásia.

As exposições abertas na volta do museu refletem essa busca. Uma delas, “Sur Moderno - Journeys of Abstractions” (Sul Moderno - Jornadas de Abstrações), apresenta o acervo doado pela venezuelana Patricia Cisneros, com trabalhos dos artistas brasileiros Lygia Clark  e Hélio Oiticica, do venezuelano Jesús Rafael Soto e do uruguaio Rhod Rothfuss, entre outros.

Duas das novas mostras resgatam trabalhos de negros americanos. Uma delas é sobre Betye Saar, autora da obra autobiográfica “Black Girls Window” (1969), que combina pintura e colagem e aborda sua origem africana. Outra traz o trabalho de Pope.L, artista conhecido por suas performances de protesto em locais públicos, nas quais rasteja vestido com terno e gravata, fantasia de super-homem ou outros trajes simbólicos. 

Haverá também maior rotação entre as obras expostas. O plano é que 30% delas sejam trocadas a cada seis meses. No entanto, os trabalhos principais, como as senhoritas de Picasso, seguirão sempre nas paredes.

O diretor atual do MoMA, Glenn Lowry, explica que as mudanças visam recuperar os planos de Alfred Barr, 
primeiro chefe do local. 

“Ele entendia que o museu devia ser uma obra em curso, mudando e evoluindo à medida que a arte moderna e contemporânea muda e evolui. Barr o imaginou como um laboratório, para o qual o público fosse convidado a participar do experimento de olhar e pensar sobre arte moderna.”

A primeira sede do museu foi aberta em 1929, em uma mansão. Ao todo, foram oito grandes reformas, a última delas realizada em 2004. O museu ocupa hoje quase todo um quarteirão entre a Quinta e a Sexta avenidas. O MoMA também se estende para o outro lado da rua 53 —há ali uma loja que vende souvenires. Um moletom com a frase “Hello. Again.” está em destaque na vitrine.

O repórter viajou a convite do Google

Erramos: o texto foi alterado

O nome correto do quadro de Paul Cézanne exposto no MoMA é "Natureza-morta com Maçãs". O texto foi corrigido.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.