Descrição de chapéu Cinema

Mostra destaca a base do cinema da palavra feito por Eduardo Coutinho

Ocupação expõe roteiros e anotações do documentarista, diretor de 'Cabra Marcado para Morrer' e 'Jogo de Cena'

Inácio Araujo
São Paulo

“O som mais bonito que existe é o da voz humana”, diz a frase estampada com destaque na “Ocupação Eduardo Coutinho”, no Itaú Cultural. Uma frase que de certa forma resume magnificamente a obra desse que foi o maior e mais original documentarista brasileiro da era moderna do cinema nacional.

A “Ocupação” põe quem passar por lá diante da evolução do pensamento de Coutinho, esse especialista na escuta e na transformação desta em filmes. Ali será possível encontrar documentos desde a sua juventude até os últimos momentos de vida, em 2014, quando morre aos 80 anos.

“Eu não achava que fosse possível encontrar uma documentação tão ampla”, explica Carlos Alberto Mattos, curador da mostra. “Coutinho costumava recortar as páginas que mais lhe interessavam em um livro e descartar o restante.”

No entanto, lá estão roteiros, escritos, anotações e mesmo uma tarefa escolar. O mais fascinante, porém, talvez seja seguir o itinerário de sua obra.

Itinerário por vezes incomum, como sua passagem de cinéfilo a estudante de cinema em Paris, que começa por um programa de perguntas e respostas da TV Record, “O Dobro ou Nada”, onde, respondendo sobre Charlie Chaplin, conseguiu ganhar o dinheiro necessário a uma viagem à Europa. 

No livro “Sete Faces de Eduardo Coutinho”, indispensável complemento à exposição, de autoria de Mattos, ele comenta que tinha uma “capacidade de decorar” prodigiosa. Logo em seguida conseguiu uma bolsa para estudar em Paris.

São desse momento seus primeiros filmes, como “Maison du Brésil”, residência estudantil desenhada por Le Corbusier e Lúcio Costa, onde morava (o filme foi montado, mas não sonorizado) e “Le Téléphone”, ambos na “Ocupação”.

Estão também registrados os trabalhos ficcionais (hoje tidos como secundários), as hesitações, a importante passagem pelo Globo Repórter (na época o programa era feito em película), até a consagração, com “Cabra Marcado para Morrer”. Este documentário de 1984 estabelecia as bases de um cinema fundado sobre a palavra, mas também sobre a memória, já que retomava um filme sobre as Ligas Camponesas que teve de abandonar com o golpe de 1964.

“Cabra Marcado” marcou o reencontro de Coutinho com a família do líder camponês do interior do Nordeste, mas também com as cenas reencontradas do filme original: uma história desenrola a outra e chega a um resultado inesperado e original, ao qual não faltam nem mesmo as negociações em torno do pagamento à família. 

O modo de ser de seu cinema estava pronto. Coutinho o consolidou ao longo de mais de duas décadas até desembocar no soberbo “Jogo de Cena” (2007), em que a ficção e o documentário se entrelaçam.

É difícil dizer que houve um ponto alto em sua obra. O certo, no entanto, é que com “Jogo de Cena” Coutinho parece ter chegado a um ponto em que seu método se esgotava. Daí “Moscou” (2009) e “Um Dia na Vida” (2010) buscarem soluções diferentes (filmagens dos ensaios de um grupo teatral ou registro de um dia na TV).

O primeiro foi recebido friamente. O segundo não pôde ser exibido comercialmente por razões de direitos. Coutinho voltou ao antigo sistema até seu trabalho final, “Últimas Conversas”, que João Moreira Salles finalizou em 2015: final digno para um cinema que articulou real, encenação e fabulação como poucos.

Ocupação Eduardo Coutinho

  • Quando De ter. a sex., das 9h às 20h; sáb. e dom., das 11h às 20h. Até 24/11
  • Onde Itaú Cultural, av. Paulista, 149
  • Preço Grátis

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