Descrição de chapéu Cinema

Oscar seria tapa na cara de um governo que não acredita em cultura, diz produtor

Theatro Municipal se levantou para cantar parabéns para Fernanda Montenegro, que está no elenco de 'A Vida Invisível'

Clara Balbi
São Paulo

A plateia de cerca de 1.100 pessoas que lotou o Theatro Municipal nesta sexta (18), na estreia de “A Vida Invisível”, se levantou para cantar parabéns para Fernanda Montenegro, que completou 90 anos na última quarta (16).

O filme, que faz parte da Mostra de Cinema de São Paulo, é o candidato brasileiro ao Oscar de melhor filme internacional.

Fernanda subiu ao palco do Municipal a convite do diretor Karim Aïnouz, e junto ao elenco e à equipe do filme. O produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, puxou o parabéns, pouco depois de declarar que, se o Oscar viesse, seria “um tapa na cara de um governo que não acredita em cultura”.

 

Emocionada, Fernanda agradeceu ao público. “Sem arte, um país não tem caráter”, disse.

“Parece que a arte é uma coisa abstrata, que não passa pelo pão nosso de cada dia, o que não é verdade. A arte emprega gente.”

Ela finalizou o discurso fazendo uma referência aos episódios recentes de censura no país.

“Os filmes e peças estão acontecendo contra tudo e contra todos. Estamos vivos, absolutamente vivos.”

Antes dela, o palco havia sido ocupado pelo prefeito, Bruno Covas, o Secretário Municipal de Cultura, Alê Yousseff, a presidente da Spcine, Laís Bodanzky, e a organizadora da Mostra de São Paulo, Renata Almeida.

Covas adentrou o palco sob vaias. Recebeu aplausos, no entanto, ao comentar o festival Verão sem Censura, projeto da prefeitura que pretende acolher todas as peças censuradas por órgãos ligados ao governo federal. “Falei para o Alê [Yousseff] que São Paulo não quer só o verão, mas todas as estações sem censura”, disse. “A cidade reafirma o compromisso com a cultura que põe o dedo na ferida.”

Covas ainda anunciou que pretende dobrar o orçamento para cultura da cidade no ano que vem para R$ 30 milhões e que organiza com Yousseff e Bodanzky uma política de atração de filmagens nacionais e internacionais para a capital paulista.

Na plateia, estavam personalidades como o senador José Serra (PSDB), o escritor Marcelo Rubens Paiva e a atriz Mariana Ximenes.

É a segunda vez que Fernanda Montenegro sobe ao palco do Theatro Municipal para defender a liberdade de expressão em menos de duas semanas. 

No início do mês, em evento do Festival Mário Andrade, a atriz, de mãos dadas com o diretor do Teatro Oficina Zé Celso, afirmou que “ninguém ou sistema nenhum vai nos calar”.

Em “A Vida Invisível”, a atriz divide o papel da protagonista com Eurídice com Carol Duarte. A trama conta a história de duas irmãs oprimidas pelo machismo no Rio de Janeiro dos anos 1950 e condenadas a destinos separados por uma mentira.

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