Descrição de chapéu Artes Cênicas

Prefeitura de SP promete festival com peças censuradas pelo governo Bolsonaro

Alê Youssef, secretário de Cultura da cidade, é o elo de Bruno Covas com a esquerda

O secretário municipal de Cultura, Alê Youssef, com o Theatro Municipal de São Paulo ao fundo
O secretário municipal de Cultura, Alê Youssef, com o Theatro Municipal de São Paulo ao fundo - Zanone Fraissat/Folhapress
Artur Rodrigues Guilherme Seto
São Paulo

O prefeito Bruno Covas, do PSDB, se define como um radical de centro.

O responsável por trazer o pêndulo para a esquerda quando o tucano inclina para a direita é o secretário de Cultura, Alê Youssef, que ocupa o cargo desde janeiro deste ano.

Sob a batuta do tucano, a prefeitura tem marcado em algumas frentes posições contrárias ao governo federal, comandado por Jair Bolsonaro (PSL). O prefeito disse à Folha em abril, por exemplo, que não aceitaria que livros didáticos retirassem a classificação de “golpe” para a ascensão dos militares ao poder em 1964.

Na arena cultural, a divergência tem sido franca, com Youssef na linha de frente. No começo de 2020, ganhará corpo a medida mais radical nesse front.

 

O festival Verão Sem Censura em São Paulo acolherá, segundo o secretário, todas as peças de teatro que foram e venham a ser censuradas no país. Ele diz que será uma resistência pró-ativa aos ataques que a classe artística tem recebido do governo federal e de instituições a ele vinculadas, como a Funarte e a Caixa Cultural.

“Uma resistência que absorve o valor, que luta pelo valor mais importante da cultura, que é a liberdade de expressão”, diz o secretário à Folha. “Nós vamos fazer isso não como uma medida de antagonismo ao governo federal, mas de valorização da nossa cultura.”

Na sexta-feira (11), foi feito um primeiro teste para esse festival anticensura. Vetada pela diretoria da Funarte, a peça “Res Publica 2023”, do coletivo A Motosserra Perfumada, abriu temporada no Centro Cultural São Paulo, o CCSP, a convite da prefeitura.

 

Conhecido por sua trajetória como produtor cultural, Youssef critica o que vê como atitudes de “criminalização do artista” por parte de Bolsonaro. Para ele, São Paulo está se consolidando como um “oásis cultural”, exercendo sua vocação antiobscurantista.

“Há uma incompreensão sobre a identidade do Brasil. Se você por exemplo critica o Carnaval, está criticando um símbolo de identidade nacional, que é parte da cultura. Se você não homenageia 
o João Gilberto quando ele morre, da maneira que era merecido, está afrontando um ícone de identidade nacional.”

Projetando as eleições de 2020, Covas acredita ter em Youssef um trunfo para atrair eleitores de esquerda. O secretário desconversa ao falar de corrida eleitoral, diz que seu partido é o da cultura e até critica o que o PT se tornou. 

 

No entanto, sua trajetória política mais próxima da centro-esquerda é suficiente para que antagonistas o considerem quase um bolchevique —Youssef foi coordenador da Juventude na administração municipal da petista Marta Suplicy (2001-2004) e ex-chefe de gabinete de Soninha (então no PT, hoje no Cidadania) na Câmara dos Vereadores, entre 2005 e 2006.

“Teve mudança enorme em relação à gestão João Doria. A nomeação do Youssef representou uma guinada da gestão para a esquerda. Com isso, Bruno Covas se tornou um estelionatário eleitoral”, diz o vereador Fernando Holiday (DEM), membro do MBL, que chama Youssef de “radical do PSOL”.

No início de sua gestão como prefeito, em 2017, Doria pregou uma Virada Cultural em locais fechados e comprou briga com grafiteiros, passando tinta cinza por cima de suas obras. Hoje, Youssef tem atuação que exalta eventos ao ar livre e a arte de rua.

Outro ponto que serve de trampolim para ataques à sua gestão são problemas no Theatro Municipal. O espaço administrado pelo instituto Odeon teve as contas rejeitadas e servidores responsáveis pela ação foram demitidos. Youssef promete mudar o modelo de administração do espaço, hoje tido por ele como frágil.

 
“A dinâmica da secretaria tem sido retomada e tem sido positiva a gestão. O que caracteriza a secretaria de Cultura há várias gestões é a continuidade das iniciativas e de programas. Acho que o período do André Sturm [secretário de Cultura de Doria] foi de interrupção, e a gestão do Alê retomou boas medidas”, diz Nabil Bonduki, colunista da Folha que foi secretário da pasta entre 2015 e 2016 durante a gestão de Fernando Haddad (PT).

Como pontos positivos, Bonduki destaca a promoção da Virada Cultural, do Carnaval de rua e da Jornada do Patrimônio. Sobre críticas, diz que a pasta deveria ouvir as queixas de grupos da periferia de que a programação cultural tem ficado presa ao centro.

O principal projeto de Youssef, o São Paulo Capital da Cultura, busca estimular a ocupação de equipamentos públicos. Ele enumera índices de aumento de frequência, como de 110% em centros culturais, 93% em teatros, 48% em casas de cultura e 22% no sistema municipal de bibliotecas. 

Ainda que tenha saudades dos tempos de rei da noite paulistana à frente da casa de shows Studio SP, ele diz não se enfadar com a rotina de funcionário público. Como os processos estão informatizados hoje em dia, diz ele, discotecar e assinar um despacho passaram a ser atividades parecidas.

A secretaria fica num prédio histórico na rua Líbero Badaró. No gabinete, ele pendurou quadros com poemas visuais de Décio Pignatari e obras de León Ferrari que estavam encostadas em uma sala do CCSP.

É nessa atmosfera que ele projeta sonhos para o Carnaval paulistano. Suas falas dizendo que a festa na cidade tende a ser a maior do país em 2020 viralizaram na internet entre moradores da Bahia e de Pernambuco, onde os blocos de rua têm mais tradição.

O secretário encara com bom humor. “É até maravilhoso que a cidade que já foi chamada de túmulo do samba incomode por falar que vai ser o maior Carnaval do Brasil.”

Ex-diretor do Acadêmicos do Baixo Augusta, ele rebate críticas de que poderia haver conflito de interesses em organizar a festa da qual participa o bloco que ajudou a fundar. “É natural que uma pessoa que tenha participado do Carnaval e agora ocupa um cargo de secretário de Cultura possa ajudar a qualificar o Carnaval.”

PEÇAS QUE FORAM CENSURADAS

‘Abrazo’
O espetáculo da companhia Clowns de Shakespeare foi cancelado após estrear na Caixa Cultural do Recife, em setembro 

‘Gritos’ 
O espetáculo, que tem uma travesti entre seus personagens, seria apresentado na Caixa Cultural de Brasília, mas foi suspenso

‘Caranguejo Overdrive’
O espetáculo havia sido programado pelo Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de Janeiro. Produtores dizem que não houve justificativa para o cancelamento

‘Res Publica 2023’ 
A peça foi vetada pelo próprio diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte, Roberto Alvim, e acabou estreando no ​CCSP

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