Descrição de chapéu
Cinema

'Papicha' é filme duro, por vezes indigesto, mas que precisa ser visto

Em meio à guerra civil na Argélia dos anos 1990, jovens se recusam a deixar de se divertir

Sérgio Alpendre

Papicha

  • Quando 17/10, às 21h45 (Petra Belas Artes - Sala 1 Villa Lobos); 19/10, às 19h20 (Espaço Itáu de Cinema - Frei Caneca 3); 22/10, às 17h30 (Espaço Itáu de Cinema - Frei Caneca 2); 26/10, às 14h (Espaço Itáu de Cinema - Augusta Sala 1); 28/10 às 19h45 (Cinesala)
  • Onde 43ª Mostra Internacional de Cinema de SP
  • Classificação 16 anos
  • Elenco Lyna Khoudri, Shirine Boutella, Amira Hilda Douaouda
  • Produção França, Argélia, Bélgica, Catar, 2019
  • Direção Mounia Meddour

Em alguns países, o homem usa a religião para oprimir e até eliminar tudo que pode fugir ao seu controle: jogos, vícios, música, filmes, prazeres mundanos em geral e, principalmente, a mulher.

É basicamente da ausência de liberdade e da violência em um estado controlado pelo uso da religião conforme é entendida e imposta pelos homens que trata "Papicha", este belo filme de estreia de Mounia Meddour, atração deste primeiro dia da 43ª Mostra Internacional de São Paulo.

Estamos na Argélia dos anos 1990, momento em que a sociedade argelina sofria com a Guerra Civil (1991-2002), com ataques de grupos terroristas e a imposição de costumes muito arcaicos, que cerceiam a liberdade das mulheres.

"Irmã, sua imagem é valiosa para nós, cuide dela ou nós cuidaremos", diz o cartaz que homens de mente estreita colam em diversas paredes.

Nesse contexto, Nedjma (Lyna Khoudri), estudante e estilista amadora apelidada de Papicha, prefere se divertir em baladas com sua amiga Wassila (Shirine Boutella), criar e vender seus vestidos e desafiar qualquer espécie de autoridade nefasta que encontra pela frente.

As amigas estão na casa dos 18 anos, mas têm consciência de que se não lutarem de algum modo, terão suas liberdades cada vez mais suprimidas. Um verdadeiro pesadelo que passa para a história tornando-se fadado à repetição.

Elas não querem sair do país, como a maior parte dos jovens que encontram. Amam a Argélia e proclamam esse amor com alegria. Elas se recusam a evitar os momentos de prazer e diversão.

"Papicha" é menos desleixado do que a maior parte dos filmes que nos deixam revoltados com a estupidez humana. Esses filmes costumam apostar somente no tema, esquecendo-se que em cinema deve haver uma forma adequada para os sentimentos ou os pensamentos que se quer suscitar.

E apesar de não ser exatamente um primor formal, cenas poderosas surgem com frequência, como a que mostra Nedjma manipulando uma massa para fritar um bolinho, ou a felicidade das amigas no começo, ou a brincadeira de futebol na chuva.

Há também os momentos cada vez mais pesados, que dão conta da crescente atmosfera de terror que se instaura no país.

Nedjma, nesse sentido, encarna muito bem um papel que ela assume como uma missão: a liderança de uma resistência possível, na certeza de que tempos melhores virão.

Filme duro, por vezes indigesto, mas que precisa ser visto.

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