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Artes Cênicas

Peça vetada pela Funarte faz da dificuldade uma bandeira

'Res Publica 2023' usa força expressiva para criar mosaico fragmentado do caos

Paulo Bio Toledo

Res Publica 2023

  • Quando Qui. a sáb., às 21h; dom., às 20h. Até 10/11
  • Onde CCSP, r. Vergueiro, 1.000, Liberdade
  • Preço R$ 40
  • Classificação 16 anos

O espetáculo “Res Publica 2023”, escrito e dirigido por Biagio Pecorelli, busca criar estéticas estratégicas para elaborar e enfrentar o tempo caótico que vivemos hoje.

Para isso inventa uma distopia sobre um futuro cheio de semelhanças com o presente. O Brasil da peça vive um novo milagre econômico que deu carta branca para o fortalecimento de milícias paramilitares conservadoras e foi isolando e esmagando qualquer posição crítica. É uma imagem da barbárie com semelhanças com a vida cotidiana atual.

Tudo acontece em um apartamento habitado por jovens acuados. Eles vivem numa comunidade enquanto juntam objetos e entulhos para construírem uma espécie de barricada, essa forma de resistência, enfrentamento e proteção.

Assim como a construção inusitada, erguida pelo acúmulo de materiais diversos, a estética do espetáculo também é um tipo de empilhamento de caminhos artísticos.

O diálogo entre personagens confinados convive com manifestos performáticos, narrativas e números musicais. O tempo futuro da situação ficcional se mistura ao tempo presente do espetáculo.

O elenco interpreta constantemente voltado para frente, se dirige ao público e estabelece uma cena na fronteira entre a representação e a performance —até os refletores do teatro são desligados e usados nesta barricada alegórica.

Mas este acúmulo também resulta num texto prolixo, uma colagem de narrativas, diálogos, citações e depoimentos sem estrutura forte que os entrelace. Assim como a encenação, que apresenta uma mistura de referências estéticas diversas sem conseguir estabelecer uma unidade expressiva. 

O desejo parece ser o de criar um mosaico fragmentado do caos, mas resulta num amontoado de caminhos que formam uma massa amorfa de difícil decifração.

Há, contudo, momentos de força expressiva. Em especial no desempenho de Bruno Caetano. Com modulações impactantes de voz, faz de seu corpo a morada do caos que o espetáculo evoca, sem abrir mão da atenção ao jogo da cena e à desconfiança irônica a com a situação representada. Ele cria um personagem vibrante e, ao mesmo tempo, um ser patético, digno de pena.

Mas não é o que acontece no conjunto do espetáculo. Ao longo da peça, nunca sabemos bem onde acaba a sátira e começam os manifestos; quando estão ironizando e quando estão defendendo o que dizem.

São fronteiras difusas que revelam a dificuldade em olhar nos olhos da história e elaborar uma posição crítica. Apesar disso, “Res Publica 2023” faz dessa dificuldade uma bandeira. A trincheira doméstica construída na peça é a imagem satírica de uma posição política insustentável, mas também uma ingênua homenagem ao caos como resposta ao caos.

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