Descrição de chapéu The New York Times

Serviço religioso inspirado em Beyoncé explora questões de raça e gênero nos EUA

A Missa de Beyoncé não envolve cultuar a artista, mas destaca mulheres negras e é uma cerimônia completa com sermão

The New York Times

Em abril de 2018, 900 pessoas apareceram para um serviço religioso noturno que costuma atrair cerca de 50 fiéis à Grace Cathedral de San Francisco, nos dias de semana. Dias mais tarde, um vídeo da cerimônia foi ao ar no YouTube e se tornou sucesso viral, o que despertou convites para que o evento fosse repetido em diversas cidades, de Los Angeles a Lisboa.

O ímpeto para esse repentino interesse? Um fenômeno conhecido como a Missa de Beyoncé, um culto cristão inspirado pela vida e música de Beyoncé Knowles-Carter.

Criada pela reverenda Yolanda Norton, 37, estudiosa do texto hebraico da Bíblia e detentora da cátedra H. Eugene Farlough de Estudos Religiosos Negros no Seminário Teológico de San Francisco, a Missa de Beyoncé explora de que forma as questões de raça e gênero afetam as vidas, vozes e corpos das mulheres negras americanas.

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Reverenda Yolanda Norton na Missa de Beyoncé - NYT

O evento fez sua estreia em Nova York na quarta (23) na Primeira Igreja Presbiteriana de Brooklyn e na quinta (24) na Igreja Presbiteriana St. James, no Harlem, duas igrejas locais que contam com fortes lideranças negras

"A missa diz às jovens negras que elas são parte do que Deus tinha em mente quando, durante a criação, proclamou que 'e isso é bom'", disse Norton, durante um almoço em Hell's Kitchen no mês passado.

"Ao tornar as histórias e realidades das meninas e jovens mulheres negras componentes centrais dessa arte litúrgica, estamos firmando suas realidades em um mundo que é persistente e determinado em suas tentativas de rejeitá-las."

Pessoas que compareceram à missa dizem que saíram dela com uma grande sensação de bem-estar. "Há anos não estou envolvida com a Igreja, e retornar àquele espaço foi maravilhoso", disse Lydia Middleton, diretora de assuntos de estudantes negros no Claremont Colleges de Los Angeles, que participou de uma missa realizada no sul da Califórnia no dia de Martin Luther King, em 21 de janeiro deste ano.

"Foi um evento caloroso e convidativo, saí me sentindo curada. Pelo final do serviço, havia pessoas chorando, pessoas jubilosas, pessoas se abraçando."

A missa, que destaca cantoras, dançarinas e oficiantes negras, é um serviço religioso completo, com sermão, leitura dos Evangelhos e Ceia do Senhor [um equivalente protestante da comunhão]. Mas não se trata de um culto a Beyoncé.

"Absolutamente não e sou membro de carteirinha da BeyHive", disse Norton, se referindo à vasta base internacional de fãs da cantora.

Em lugar disso, a missa recorre à história e às canções de Beyoncé, de "Formation" a "Flaws and All", para reenquadrar a narrativa e as dificuldades das mulheres negras por meio da lente dos evangelhos cristãos e de sua mensagem de hospitalidade e inclusão radicais.

"Os artistas negros sempre foram centrais para a luta pela liberdade negra, quer estejamos falando de Nina Simone ou Harry Belafonte, ou Bernice Johnson Reagon, do Sweet Honey in the Rock", disse a reverenda Kelly Brown Douglas, doutora em teologia e diretora da Escola Episcopal de Estudos Divinos no Union Theological Seminary, onde Norton no momento é pesquisadora residente.

"Beyoncé é parte desse legado. Há uma correspondência natural entre os tipos de coisas que ela faz em sua música e a igreja negra."

Douglas mencionou a canção "Freedom" como exemplo. "Nela, temos Beyoncé apelando que as pessoas sejam livres, que encontrem sua liberdade, que sejam elas mesmas e é isso que as meninas negras veem fazendo", disse a reverenda, falando sobre a interpretação da canção por Beyoncé em "Homecoming", documentário da Netflix sobre seu show no festival Coachella de 2018.

"No vídeo, Beyoncé inclui não apenas um corpo negro de mulher", prosseguiu Douglas. "Ela mostra corpos de toda espécie. Não busca envergonhar qualquer pessoa pelo corpo que tenha. Não há barreira de cor. Isso é muito inspirador para uma mulher negra jovem."

Tanto Douglas quanto Norton identificam a Missa de Beyoncé como parte de uma tradição de pensamento "womanist" tal como articulado pela escritora Alice Walker em "In Search of Our Mothers Gardens" [em busca dos jardins de nossas mães], coleção de ensaios que ela publicou em 1983.

Distinto do feminismo, que historicamente tomou por centro as experiências de mulheres brancas, "o 'womanism' privilegia o espaço intelectual e íntimo da mulher negra", disse Norton. "Tem a ver com a necessidade das mulheres negras de participar de comunidades maiores que as delas, pelo avanço de toda a humanidade."

Para Norton, que Beyoncé servisse como inspiração para a missa —a cantora ainda não comentou publicamente sobre o evento— foi tanto uma escolha pessoal quanto uma opção acadêmica.

"À medida que a vida dela evolui, minha vida evolui", ela disse. "Quando ouço as músicas de Beyoncé ou as músicas do Destiny's Child, sei em que estágio de minha vida eu estava."

Apesar das mensagens específicas da missa para as mulheres e meninas negras, o evento recebe qualquer pessoa que tenha sofrido exclusão pela igreja.

Andy Deeb, 27, ex-aluno de Norton que se identifica como transgênero e é branco, tocou baixo em todas exceto uma das missas realizadas até agora. "A mensagem que ouço nesse culto é a de que ele abre espaço para todos", disse Deeb. "Como pessoa transgênero, a igreja nunca foi algo seguro ou acolhedor para mim."

Deeb também se matriculou na primeira turma de "Beyoncé e a Bíblia hebraica", o curso lecionado por Norton que deu origem à missa, no qual os alunos receberam a tarefa de "usar a música de Beyoncé para construir uma experiência de culto transformadora".

Beyoncé é um receptáculo ideal, disse Norton, porque suas mensagens de empoderamento estão enraizadas em suas decepções e triunfos pessoais.

"Se você ouve o depoimento de Beyoncé", ela disse, "ela revela a maneira pela qual ouve as críticas das pessoas, como ela se critica, as dificuldades que ela enfrenta. Só porque não teve de batalhar por dinheiro não significa que não tenha tido lutas físicas, emocionais e espirituais como ser humano".

"É poderoso e libertador para aqueles de nós que não são Beyoncé", prosseguiu Norton, "quando nos permitimos sentir o que sentimos, e saber que essa pessoa que parece ter tudo passou por alguns dos mesmos trauma e sofrimentos que muitos de nós".

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