David Carson, que marcou design dos anos 90, diz que designers estão preguiçosos

O americano dá palestra, lança um livro de colagens e faz uma intervenção no centro de São Paulo

Marcelo Pliger
São Paulo

David Carson foi o designer mais influente da década de 1990. Capturou o zeitgeist do período distribuindo letras e imagens de modo caótico e experimental em revistas e marcas. Sua influência ecoou o ápice de quase seis séculos de linguagem impressa e anteviu o potencial de uma mídia visual mais dinâmica enquanto a internet ainda engatinhava.

De um lado, é criticado por ignorar regras clássicas de organização e legibilidade. De outro, é venerado por interpretar visualmente as culturas do surf, do skate e do rock grunge.

Trabalhou com David Byrne, William Burroughs, Leonard Cohen e marcas como Bose, Nike e Armani. O designer retorna ao Brasil 23 anos depois de sua primeira visita, agora como palestrante do Pixel Show, conferência sobre criatividade que acontece em São Paulo neste fim de semana. Ele também lança um livro de colagens manuais e faz uma intervenção em uma empena cega no centro da capital paulista. 

Por email, disse à Folha que crescer entre as culturas do surf e do skate no sul da Califórnia lhe deu uma mentalidade experimental. Segundo ele, a experiência de vida é a influência mais importante em um projeto. “Mesmo comprando o mesmo software, consultando os mesmos sites, ninguém pode reproduzir a singularidade de cada vida. É daí que surge o trabalho verdadeiramente único e superior”, disse. 

Carson diz que os designers ficaram preguiçosos e deixaram o software tomar decisões por eles criando trabalhos seguros e iguais: “Existem vantagens na tecnologia, principalmente velocidade, mas se você não tem olhar criativo, os computadores não dão ele a você”.

Carson ouve música para criar e diz levar em consideração todas as informações que recebe. Conta que se sente confortável em mostrar 25 a 30 soluções a um cliente. 

Ele divide os designers em dois grupos: os que fazem projetos semelhantes aos que já existem e os que se sentem atraídos pelo lado intuitivo e emocional do design. O primeiro grupo pode aprender seu ofício em cursos, mas no segundo grupo é necessário uma intuição que, segundo ele, não pode ser ensinada.

Carson era professor de sociologia no ensino médio quando ouviu falar pela primeira vez em design gráfico. Tinha 26 anos. Fez uma oficina de duas semanas, estágios gratuitos e começou na revista de skate Transworld. "Assunto e público encaixaram no meu modo abstrato de produzir”, diz.

Carson é mais lembrado quando é radical em priorizar a emoção comunicada pelo trabalho gráfico em detrimento da legibilidade do texto. Em um de seus projetos mais polêmicos substituiu as letras de uma entrevista com Brian Ferry por símbolos geométricos, porque considerava o texto chato. Transformou a entrevista em um hieróglifo incompreensível e a página em um ícone da história do design.

Em entrevista dada pouco antes de morrer, o rigoroso designer modernista Massimo Vignelli chamou Carson de “artista fantástico, emocionante, talentoso” e acrescentou que ele usa letras como em uma pintura, não como tipografia.

Vignelli opõe o trabalho de Carson ao de designers focados em tornar funcionais informações como listas de preços e mapas de trens. Carson ressalta que Vignelli foi um dos melhores a produzir esse tipo de trabalho estruturado e formal, mas admite que não tem interesse nesse tipo de projeto: “Softwares e computadores podem fazê-lo”.

 

​Carson também mostrará aqui trabalhos que realizou para campanhas como MeToo, Anti-Gun League e a eleição de Barack Obama. A 15ª edição do Pixel Show terá um número maior de palestras sobre ativismo. Serão abordados o empreendedorismo negro, o feminismo na publicidade, a criatividade em trabalhos de acessibilidade, a ação política de designers em redes sociais e o posicionamento político e social de empresas, entre outros.

Neste ano, o evento passou a fazer parte do calendário oficial da cidade de São Paulo, como a Virada Cultural e a Comic Con (CCXP). Terá 200 horas de programação sobre design, ilustração, games, arquitetura, tecnologia e marketing com palestrantes de Brasil, Portugal, Holanda, Japão, Espanha, México e EUA.

Palestra de Abertura com David Carson

  • Quando Nesta sex. (29), às 19h
  • Onde Espaço Pro Magno, av. Professoa Ida Kolb, 513, São Paulo (tel. 3926-0174)
  • Preço R$ 180 a R$ 480
  • Classificação Livre

Conversa com David Carson

  • Quando Sáb (30), às 13h
  • Onde Espaço Pro Magno, av. Professoa Ida Kolb, 513, São Paulo (tel. 3926-0174)
  • Preço R$ 180 a R$ 480
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