Festival do Valongo tem 'sauna lésbica' e ainda menos fotografias

No quarto ano, evento no porto de Santos se afasta de suas origens e aposta em esculturas de nomes pouco conhecidos

Santos (SP)

A crise não poupou o Valongo Festival Internacional da Imagem.

Realizado no histórico Cais do Valongo, em Santos, ele chega à sua quarta edição neste fim de semana com um orçamento de cerca de R$ 350 mil, um terço dos R$ 1,2 milhão do ano passado, segundo a organizadora Thamyres Matarozzi.

Tocando o projeto desde a saída de Iatã Canabrava em 2017, ela afirma que a equipe foi notificada ainda no início do ano sobre a retirada do apoio da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), que bancou metade do evento nas últimas duas edições.

“Sabíamos que colocar o Valongo de pé seria um ato de resistência”, diz Matarozzi, ecoando as dificuldades de outros festivais para acontecerem num ano marcado por cortes de patrocínios.

O maior impacto da redução do orçamento foi no número de artistas, que segundo a organização minguou de 94 no ano passado para 50 nesta edição. Também as residências artísticas, que eram cinco em 2018, foram oferecidas a apenas três artistas agora.

Outra mudança em relação às montagens passadas é a aposta em rostos menos conhecidos do circuito, em curso desde que Diane Lima, uma das principais curadoras negras hoje, assumiu no ano passado.

Enquanto as primeiras versões do festival contaram com nomes em franca ascensão na cena contemporânea brasileira, como Bárbara Wagner, representante no pavilhão nacional desta Bienal de Veneza, desta vez o time tem muitos novatos —apesar de Lima recusar essa classificação.

“A primeira questão que pensaria aqui é: artistas reconhecidos por quem?”, pergunta a pesquisadora. “Dizer que trabalhamos com artistas desconhecidos é uma opinião que só pode ser afirmada pela branquitude.”

Lima também nega que a programação tenha sido orientada por pautas identitárias, a despeito de a maioria das mesas discutirem questões de raça e de gênero. Ela diz que os participantes expressam “coisas importantes para as pessoas não-brancas, que o Brasil, como um país racista, continua insistindo em não ver”.

Muitos dos trabalhos, espalhados por sete construções em frente ao maior porto da América Latina se relacionam à ideia de corpos deslocados, que ocupam espaços estranhos a eles, não diferentemente das plantas que se apossam das paredes dos antigos armazéns.

O fotógrafo Adriano Machado leva uma cortina de plástico estampada com frutas tropicais a paisagens escuras, rochosas.

Malu Avelar, uma das artistas residentes, criou no boteco Buraco’s uma “Sauna Lésbica” em oposição às convencionais saunas gay, onde ela sempre foi proibida de entrar. “É um espaço vazio, para as pessoas criarem”, diz. “O que vai acontecer só Deus sabe.”

A instalação é mais um passo do festival, relacionado à fotografia em sua gênese —Canabrava foi, afinal, organizador do Paraty em Foco—, em direção a outros suportes, em especial a escultura.

A obra de Adriano Machado e duas peças de Ana Clara Tito, por exemplo, foram as únicas fotografias que esta repórter avistou ao visitar a montagem.

“Acho que não estamos nos afastando da visão, mas nos aproximando dos olhos com o corpo todo”, afirma Lima, que escolheu como tema este ano O Melhor da Viagem É a Demora, sobre relações alternativas com o tempo.

Além da exposição e das performances, o festival ainda traz sua tradicional agenda de debates e oficinas ao longo dos próximos três dias.

Um dos destaques é a pesquisadora americana Rasheedah Phillips, do Black Quantum Futurism (futurismo quântico negro). A iniciativa combina princípios da física quântica, futurismo e cultura negra para conceber novos futuros.

A jornalista viajou a convite do Valongo

Valongo Festival Internacional da Imagem

  • Quando Sexta (8), sábado (9) e domingo (10), das 10h às 23h
  • Onde Doca, r. Tuiti, 26, Santos (SP)
  • Preço Grátis
  • Transporte Para informações sobre transporte gratuito de São Paulo a Santos nos dias 9 e 10, escreva para onibus@valongo.com

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