Descrição de chapéu

Lenda do rock, Patti Smith prova que tem energia sem fim

Cantora americana fez dois shows e lançou dois livros, 'O Ano do Macaco' e 'Devoção'

São Paulo

A primeira passagem da cantora americana Patti Smith por São Paulo encantou a todos. Ela viajou para dois shows na cidade e lançamento de dois livros no Brasil, “O Ano do Macaco” e “Devoção”. Experiências inesquecíveis para quem esteve num encontro com leitores no Sesc Pompeia ou nos dois shows do Popload Festival.

Aos 72 anos, ela provou que uma lenda do rock ainda tem uma energia inesgotável. Na sexta (15), diante de 15 mil pessoas, encerrou a noite do festival no Memorial da América Latina, ao ar livre, numa performance consagradora que fez fãs muito jovens cantarem todas as músicas com ela.

No sábado (16), cantou para um público mais maduro no lotado Auditório Simón Bolívar, também no Memorial. Patti se apresentou então para 1.009 convertidos, muitos paulistanos que a acompanham há décadas e sentiam muito que em sua primeira vinda ao Brasil, em 2006, ela tenha feito shows apenas no Rio e em Curitiba.

A simpatia demonstrada no encontro com leitores, na quinta (14), continuou sendo derramada nos outros dias. Notadamente no show no auditório. O ambiente mais íntimo fez a cantora rir muito e contar histórias por trás das canções tocadas, em clima mais leve do que suas intervenções no show da noite anterior.

Nos dois palcos, os intervalos entre as músicas foram recheados com discursos fervorosos contra os governantes que estão permitindo a destruição do planeta. Ela chamou esses líderes de corruptos, gananciosos e, algumas vezes, partiu para xingamentos.

Nessas falas, Patti passava naturalmente de um tom mais agressivo para seu modo “fofo”. Após algumas canções que entusiasmaram a plateia do auditório, disparou: “Há coisas muito sérias para a gente se preocupar, mas também precisamos passar um tempo se divertindo”.

E as plateias se divertiram muito. A maior parte do repertório no Brasil veio de seu primeiro disco, “Horses”, de 1975, e de covers que conquistaram as plateias. De “Horses” foram cantadas “Free Money”, em versão bem pesada, “Redondo Beach”, “Land (Horses/Land of a Thousand Dances)” e “Gloria: In Excelsis Deo”.

Esta última, que encerrou os dois shows em apresentações furiosas e arrebatadoras, é o melhor exemplo de como a cantora não se limita a interpretar com reverência as canções de outros artistas. Cada uma é recriada com particularidades inseridas por Patti. “Gloria”, uma boa música do cantor irlandês Van Morrison, foi transformada numa celebração épica de rock and roll.

Outro caso gritante é “Beds Are Burning”, da banda australiana Midnight Oil. Apresentada nos dois shows com um texto introdutório em que Patti falou sobre as queimadas na Amazônia, a música ganhou ira, ficou mais acelerada e produziu um pandemônio na plateia.

O auditório acabou se mostrando mais acolhedor para as músicas menos furiosas. A interpretação da comovente balada “After the Gold Rush”, de Neil Young, ficou irretocável, assim como três de suas próprias canções, “Pising in a River”, “My Blakean Year” e “Beneath the Southern Cross”, esta com muito peso no final, em belo solo do guitarrista Lenny Kaye, escudeiro da cantora desde 1971.

A principal mudança de um show para o outro foi o encaixe de “People Have the Power”, de 1988, poderoso manifesto de discurso direto, incitando as pessoas à ação política. Rock retumbante, para cantar junto, foi escolha perfeita para abrir o show de sexta, para causar impacto imediato na imensa plateia.

No dia seguinte, o espaço menor do auditório permitiu a abertura com uma música mais tranquila. Se é que esteja valendo chamar de tranquila a hipnótica “Dancing Barefoot”, do disco “Wave” (1979). “People Have the Power” acabou eleita para o bis no segundo show.

Mas, nas duas noites, nada superou a força de “Because the Night”, sua parceria com Bruce Springsteen, de 1978, que é o maior hit da carreira de Patti. Contou emocionada como fez a letra para seu marido, o guitarrista Fred “Sonic” Smith, morto nos anos 1990, e ofereceu ao público um momento único no rock. Quem cantou junto ficou de alma lavada.

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