Descrição de chapéu Queda do Muro, 30

Mostra explora renascimento da vida noturna na Berlim Oriental pós-muro

Nos anos 1990, edifícios então abandonados se tornaram cenários para festas que deram origem a famosas boates

Dereck Marouço Júlia Frate Bolliger
Berlim

A cidade de Berlim celebra neste sábado (9) 30 anos da queda do muro que um dia a cindiu. O episódio marca também o começo da atual cena noturna berlinense. 

Durante os anos 1990, edifícios da antiga Berlim oriental, então abandonados, se tornaram cenários para festas que deram origem às famosas casas noturnas da cidade.

Parte dessa história é recontada na exposição “No Photos on the Dance Floor”, que reúne obras de 23 artistas, entre vídeos, fotos e instalações. 

Na entrada da mostra, o vídeo “Stempelwald A”, de Erez Israeli, expõe o início quase ritualístico de uma noite na Berghain, a boate que mais atrai locais e turistas  —o carimbo no braço, após a longa espera na fila, seguido pela concessão da entrada dada por um bouncer, ou segurança, autoridade máxima no lugar.

O artista colecionou os carimbos e os tatuou. Recentemente o carimbo, que permitia que os ravers saíssem e entrassem na casa noturna quantas vezes quisessem num mesmo fim de semana, foi substituído por pulseiras de tecido.

A Berghain é famosa por deixar muitos de fora, mesmo após horas de espera —a fila pode terminar a mais de cem metros da porta do edifício, originalmente uma usina elétrica dos anos 1950. 

Clubbers, com os mais diversos cortes e cores de cabelo e roupas extravagantes, geralmente de cor preta, chegam a ficar em silêncio, sem nem olharem as notificações do celular com medo de ter a entrada negada pelo bouncer. Ninguém sabe em que se baseia o crivo da seleção.

Inibição e julgamento devem ficar do lado de fora —não há espelhos ali. Na pista de dança, os estilos, gêneros e culturas se misturam compondo um público diverso. Sexo acontece —às vezes na própria pista e ininterruptamente no dark room. 

Do sábado às 23h59 ao meio-dia da segunda-feira seguinte, o cenário continua o mesmo. Alguns personagens ficam ali dançando na pista por mais de 36 horas seguidas.

Outra boate tradicional da cena berlinense é retratada no vídeo de Romuald Karmakar,  também na exposição. Nele, a fundadora do KitKat Club o define como um experimento sociopolítico. Inaugurada em 1994 pelo diretor de filmes pornô Simon Thaur e por sua parceira, Kirsten Krüger, a casa se propõe a ser um espaço seguro para nudez e sexo. 

Na chapelaria, alguns deixam suas roupas e seguem nus enquanto outros trocam os casacos de inverno por peças de lingerie ou artigos de couro. Fica clara a razão pela qual as casas noturnas em Berlim não permitem fotos.

A mostra apresenta também fotografias de Martin Eberle, que retratam fachadas de casas noturnas, algumas já inexistentes —Berlim tem sofrido com a gentrificação. Habitantes da cidade, no entanto, tem lutado contra o avanço do mercado que ameaça o slogan “pobre, mas sexy” da capital alemã. “No Photos on the Dance Floor” traz a ideia de que a vida noturna berlinense, caso não seja protegida, será perdido em meio à especulação imobiliária.

A mostra traz ainda uma instalação de Wolfgang Tillmans sobre a experiência da música eletrônica. As fotografias sem moldura coladas com fita adesiva nas paredes mostram luzes intensas e coloridas e ambientes monocromáticos em cenas fotografadas entre 1991 e 2018. 

Uma das menores fotos chama a atenção ao retratar o Siegessäule, o Obelisco da Vitória, onde aconteceu a primeira Love Parade, em 1989, surgida como manifesto político de uma Alemanha unificada que pedia paz, alegria e panquecas —boa alimentação a todos. Ao som do techno, a primeira edição contou com apenas 150 pessoas; dez anos depois o mesmo evento teve 1,5 milhões de visitantes. Na foto, o obelisco e seu anjo, um mar de pessoas e fumaça.

“No Photos on the Dance Floor” deixa claro que, para Berlim, a cena noturna é parte crucial do grito de liberdade de uma cidade que tem um passado marcado por autoritarismo, guerras e opressão. 

Trinta anos depois, a capital alemã ainda precisa de espaços que protejam a cultura noturna livre que nasceu com a queda do muro. Como indica o título da série de Tillmans, “We Haven’t Stopped dancing Yet” —nós ainda não paramos de dançar.

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