Descrição de chapéu Televisão

Pornô light renasce nas madrugadas da TV aberta em meio ao reinado do PornHub

Em jogada nostálgica, Band retoma 'Cine Privé' com 'Emmanuelle' e aumenta em 150% sua audiência na estreia

Entrada de um cinema em Paris em março de 1975, com o pôster de 'Emmanuelle', estrelado por Sylvia Kristel; à direita, pôster de 'Último Tango em Paris' Daniel Janin/AFP

Eduardo Moura Lucas Brêda
São Paulo

Uma figura esguia saiu do elevador do hotel Hilton de São Paulo. Ela se dizia feminista e foi uma decepção para o público masculino que a esperava, pelo menos de acordo com relato deste jornal em 18 de outubro de 1977.

“Pálida, nervosa e magra demais”, a atriz holandesa Sylvia Kristel, protagonista da franquia de dramas eróticos “Emmanuelle”, visitava a capital paulista para divulgar seu filme “Porque Agrado os Homens”.

Dois dias depois, em Brasília, Kristel não decepcionou ninguém. A ditadura proibia os filmes em que a atriz tirava a roupa, mas isso não impediu que parlamentares arenistas e emedebistas comentassem 
cenas de “Emmanuelle”. No Congresso Nacional, “todos correram para ver a atriz”. 

Kristel morreu em 2012, aos 60 anos. Na madrugada do último domingo, o mito em torno de seus filmes, ainda vivo em 2019, aumentou em 150% a audiência da Band no horário. “Emmanuelle 2: A Antivirgem”, de 1975, marcou o retorno do “Cine Privé”, faixa clássica de filmes pornôs soft, na madrugada de domingo.

O “Cine Privé” foi ao ar de 1995 a 2010. Depois de uma tentativa frustrada de voltar com a sessão em 2012, agora a Band atinge um pico de 1,4 no Ibope, ganhando até do bispo Edir Macedo na Record. Uma semana antes, no mesmo horário, a Band marcou 0,4 ponto com o “Cinema na Madrugada” —filmes de todos os gêneros.

Mesmo com a boa audiência, parece contraditório que o canal aberto retome o “Cine Privé”. Hoje, em poucos cliques, é possível encontrar conteúdo explícito e de graça na internet.

“O futuro é vídeo por demanda, streaming, aplicativo no celular. Não tem mais isso de filme na TV”, diz Clayton Nunes, CEO da maior produtora de filmes pornográficos no país, a Brasileirinhas. “Isso para a molecada não é nada. É para gente que não tinha a pornografia. Vão passar clássicos que o pessoal quer rever.”

A Brasileirinhas sobrevive só com as 25 mil assinaturas em seu site, que funciona desde 2007 no mesmo esquema da Netflix, em que o consumidor paga e tem acesso aos filmes.

Há seis anos, eles não fazem mais DVDs e também pararam de vender para canais a cabo. De 70% a 75% do público, que gera cerca de 2 milhões de acessos mensais, veem Brasileirinhas no celular.

Há também o reality show Casa das Brasileirinhas, espécie de “Big Brother pornô” que mostra, em tempo real, atrizes gravando cenas de sexo, tomando banho ou malhando.

A intenção do retorno do “Cine Privé”, diz a Band, é apostar na nostalgia, resgatar a faixa erótica que fez sucesso na adolescência de muita gente e atender aos muitos pedidos de telespectadores. No passado, o pornô light da Band chegou a bater a Globo e figurou entre os programas de maior audiência do canal.

Hoje, o público do “Cine Privé” é de homens com idade entre 30 e 50 anos. Os filmes continuam os mesmos de antigamente —entre eles, “Adeus Emmanuelle”, de 1980, e “Sedução à Meia-Noite”, de 1994— e a emissora não pretende renovar o catálogo.

Mas a ideia da Band é aproveitar o apelo da faixa erótica para levar esse público mais velho ao Sex Privê, canal a cabo do Grupo Bandeirantes que vive um reposicionamento no mercado, com conteúdo explícito.

O “Cine Privé” agora tem uma apresentadora que tira dúvidas sobre sexo enviadas ao Instagram do canal.

No primeiro dia, o Sex Privê viu aumentar em milhares os seguidores na rede social.

“Isso é um desespero. Pornografia em canal a cabo acho que acabou. Se o Sex Privê fizer um aplicativo, pode até ser”, opina Nunes, da Brasileirinhas.

Mas o pornô de TV a cabo não está exatamente jogado às traças e já pode ser acessado pela internet. Em meio à crise econômica, ele tem mantido um faturamento estável nos últimos anos —ainda que sem crescimento relevante.

“É uma posição nem um pouco invejável”, diz Mauricio Paletta, diretor da Playboy do Brasil, grupo que é dono da maioria dos canais de sacanagem na televisão fechada.

O único concorrente que Paletta lembra é o Grupo Bandeirantes. A situação pode ser a de um David frente a um Golias, mas o canal da Band agora tem na manga um truque para fisgar assinantes.

Os brasileiros que tiveram “Emmanuelle” como marca da adolescência hoje estão a poucos cliques de uma miríade de pornografia gratuita e explícita. Mas, segundo Paletta, não querem arriscar pegar vírus em seus computadores e morrem de medo de clicar num spam disfarçado.

O Sexy Hot, canal do grupo Playboy, tem 55% de seus espectadores entre 25 e 39 anos.

A indústria do pornô sofre com sites grátis como Pornhub e XVideos, que funcionam como o YouTube. “Tenho funcionários para tirar meus vídeos de lá todos os dias”, diz Nunes, da Brasileirinhas.

Mas, nos últimos meses, alguns produtores vêm conseguindo fazer dinheiro com os sites gratuitos de streaming.

A HardBrazil, pequena produtora responsável por filmes como “Fábio Gump, o Comedor da História” e “As Revelações de Sandy”, começou licenciando conteúdo para a TV, mas desde dezembro monetiza obras no XVideos.

O fundador, Fabio Silva, diz que um filme para um canal fechado costuma sair em torno de R$ 5.000, com cessão de direitos por cinco anos. Uma cena simples, de menos de dez minutos, num site de streaming, pode render R$ 5.000 em um mês, se tiver visualizações.

Silva, de 41 anos, é um apreciador saudoso do “Cine Privé” —um oásis em meio à escassez pornográfica dos anos 1990. “Com 16 ou 17 anos, a gente não tinha nada. Você via uma calcinha pendurada no varal e ficava doido. Hoje, a molecada vê o que quiser”, comenta.

Mesmo que a produção nacional de pornografia seja majoritariamente hétero e voltada ao público masculino —na Brasileirinhas, 75% dos assinantes são homens—, o Brasil é o terceiro país do mundo em proporção de mulheres consumindo vídeos no Pornhub.

“Elas perceberam que as cenas eram feitas pela visão masculina, com a atriz subjugada, atos de violência”, diz a diretora e atriz Mayanna Rodrigues. Diante disso, vêm surgindo um nicho de pornô “mais suave, mas sem deixar de ser explícito, só mais natural”.

Rodrigues faz parte do grupo que se interessa por “tudo o que antecipa o sexo”. A volta do “Cine Privé” é boa notícia para esse público que se importa com a narrativa.

Segundo ela, pessoas de 35 a 40 anos são nostálgicas. “‘Emmanuelle’ tem um contexto que faz o filme parecer mais real do que uma cena do encanador sem camisa chegando para arrumar a pia”, diz Rodrigues. “O que vi de marmanjo feliz com esse retorno, nossa.”

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior da galeria 'Veja imagens do clássico '​​​Emmanuelle'' trazia um erro na legenda da fotografia da atriz Sylvia Kristel durante o Festival Cannes. A imagem é de 1977. A informação já foi corrigida.

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