Pelé lembra o dia em que Andy Warhol prometeu cantar um samba com ele

Retrato do jogador feito pelo artista americano foi arrematado em Nova York por R$ 3,58 milhões

Santos (SP)

Dois dos maiores esportistas do século 20 dividiram uma escalada numérica na casa de leilões Christie’s, em Nova York. Parte da série "Atletas", obra de Andy Warhol do fim da década de 1970, o retrato em serigrafia “Pelé” foi vendido nesta quinta-feira por US$ 855 mil, cerca de R$ 3,58 milhões, superando a estimativa inicial de US$ 600 mil. 

Dentre as obras da série warholiana, o valor só ficou abaixo do retrato do pugilista Muhammad Ali, outro poderoso mito negro, arrematado um dia antes por pouco mais de US$ 10 milhões, cerca de R$ 42 milhões.

Em Santos, no litoral paulista, o tricampeão mundial está sentado no centro de uma sala do Museu Pelé, às vésperas de celebrar os 50 anos de seu milésimo gol, marcado contra o Vasco em 19 de novembro de 1969, no Maracanã. O rosto do craque mantinha a leveza depois de seis horas de beijos e abraços em dezenas de visitantes, na noite da última terça.

Edson Arantes do Nascimento, 79, conta que soube por alto do leilão e aceita relembrar a história do convívio com o gênio da pop art. A experiência como modelo de Warhol não foi iluminada em sua autobiografia.

“Nem eu o conhecia pessoalmente, nem ele me conhecia. Mas Pelé ele disse que já conhecia, por causa do futebol. E ele falou: ‘Te conheço há um monte de tempo. Sou uma pessoa muito mais curiosa do que vocês’. Eu acho que ele queria falar ‘mais inteligente’, mas aí mudou e falou curiosa. E disse: ‘Eu sei tudo. Eu canto samba. Qualquer dia vamos cantar um samba’. Naquela época o Sérgio Mendes estava estourando”, conta Pelé.

Em março de 1977, o colecionador Richard Weisman encomendou a Warhol uma série de retratos de dez esportistas, aberta pelo jóquei Willie Shoemaker. Dono da coleção leiloada na  Christie’s, morto no ano passado, Weisman não se cansava de repetir que Warhol desconhecia a diferença entre uma bola de futebol e outra de golfe.

Até novembro daquele ano, o artista direcionaria sua Polaroid Big Shot para o rosto de esportistas como o astro de futebol americano O.J. Simpson, a tenista Chris Evert e a patinadora Dorothy Hamill. A fotografia era a base de suas pinturas. Em média, produziu 60 retratos de cada atleta, peneiradas até chegar a quatro, sobre as quais trabalhava. Pelé seria congelado com uma bola e um rosto bem menos tenso que o de Ali, num quadro agitado pelas cores verde e azul.

Esse conjunto tinha afinidades com as serigrafias em tela de Marilyn Monroe e Elvis Presley, dos anos 1960. Na década seguinte, os esportistas conquistavam espaço no Olimpo antes exclusivo dos artistas do rock e de Hollywood, uma mudança mitológica captada por Warhol.

Aos 49 anos, passada a febre do popismo, Warhol recebia críticas mais frias enquanto mergulhava fundo numa vida social vertiginosa. Aos 37 anos, Pelé era um atleta de popularidade planetária.

Depois de encerrar a carreira na seleção brasileira e no Santos, o jogador retornou em 1975 aos gramados como uma grife capaz de driblar e golear, assinando um contrato de quase US$ 9 milhões —em valores atualizados, cerca de R$ 40 milhões—, além do direito a 50% dos lucros do Cosmos com a sua imagem. Essa bolada atenuaria seus investimentos equivocados no Brasil.

“Na época do Cosmos aconteceu tanta coisa legal para mim. Sem falar inglês direito, caindo num local que só tinha artista, eu falava: ‘Caramba, o que estou fazendo aqui?’. E para entender? E quando vinha artista e eu não sabia que era artista? Queria me comunicar falando um inglês misturado com espanhol”, diz Pelé, sorrindo.

O ídolo impulsionou o esporte nos Estados Unidos, elevou a média de público do New York Cosmos e acrescentou a expressão "beautiful game", ou jogo bonito, ao impopular "soccer". De Woody Allen a Michael Jackson, de John Lennon a Frank Sinatra, o alto mundo cultural dava vivas ao rei.

Tal pacote de fama e cifrões era tão atraente para Warhol quanto uma lata da sopa Campbell's, uma garrafa de Coca-Cola ou um gigantesco anel nos dedos de Elizabeth Taylor. Aquilo, sim, era futebol-arte. Antes de Pelé, nenhum jogador atingira esse nível de celebridade. No Cosmos, em 111 partidas disputadas entre 1975 e 1977, o craque marcaria 65 dos 1.279 gols de sua carreira.

Na despedida definitiva, rodeado por 75 mil pessoas no estádio dos Giants, ele conquistou de vez a América com um discurso de três palavras: “Love, love, love”. Presente no jogo, Muhammad Ali, com quem costumava se encontrar na cidade, lhe disse chorando: “Agora nós dois somos os maiores de todos”.

À época, o rei do futebol oferecia ainda um naco de realeza publicitária ao mundanismo de Warhol, mais fascinado por grana e genialidade do que por famílias reais europeias naufragadas em finos jantares de Nova York. “Dinheiro é meu humor”, declarou Warhol.

Em Nova York, Pelé exorbitava uma fama alegre e ascendente, boa de ter por perto. Celebridades assim improváveis atraíam o artista. O livro “A Filosofia de Andy Warhol” traz uma tirada plena da paranoia despertada pelo atentado cometido pela feminista Valerie Solanas, mas também reveladora de sua visão crítica do sucesso: “Ser famoso não é assim tão importante. Se eu não fosse famoso, não teria levado três tiros por ser Andy Warhol”.

Os diários ditados todas as manhãs por Warhol a Pat Hackett, sua assistente no lendário estúdio Factory —lançados no Brasil pela L&PM—, guardam fragmentos da amizade. “Ele é adorável, lembrou que me encontrou uma vez no Regine’s [boate de Nova York]. Ele tem uma cara engraçada, mas quando sorri fica lindo”, observou.

Pelé se empolga ao relembrar o primeiro encontro: “Teve um jogo do Cosmos, no fim da tarde de sábado, e aí o pessoal sempre tinha um jantar. Depois do jogo, estava comigo Lucas Mendes, o jornalista, e falaram de um jantarzinho [numa boate]. Mas não achei que ia ter gente famosa junto com jogador de futebol. Aí me apresentaram: ‘Este aqui é o Andy Warhol, seu fã’. Eu não saquei muito aquele negócio e perguntei para o Lucas ou para um jogador: ‘Quem é esse Andy Warhol? Boa gente, mas o que ele faz?’. O cara era conhecido para caramba! Me disseram: ‘Pelé, o cara é mais conhecido aqui nos Estados Unidos do que o presidente Nixon’”.

Sem demora, Warhol e Pelé se reencontraram em 13 de julho de 1977, na sede da Warner Communications, a controladora do Cosmos. A revista Interview, criada pelo artista, fazia um ensaio com a estrela sul-americana. Dias depois, Warhol voltou a entrar em contato com seu escritório no Rockefeller Plaza. “Alguém me disse: ‘Tem que refazer as fotos, naquele dia tinha muito bicão’. Eu falei: ‘Pô, outra vez?'’’. "Tinha um monte de gente atrás e ele não podia dizer que era uma coisa exclusiva dele.”

Na nova sessão com Pelé, o artista revisou a célebre profecia dos 15 minutos de fama para qualquer um, incluída em 1968 no catálogo de uma exposição em Estocolmo. “Você é a única celebridade que, em vez de durar 15 minutos, durará 15 séculos", afagou Warhol, cujo livro “Polaroids”, lançado pela Taschen, incorporou uma dessas fotos. De 1968 a 1987, ano de sua morte, raro foi o dia em que Warhol não produziu fotografias instantâneas de amigos, celebridades e paisagens de Manhattan. Gente como Truman Capote, Jean-Michel Basquiat e Jane Fonda foram alvos de seus flashes.

 

Três meses mais tarde, ele apresentou o retrato num jantar oferecido a Pelé por Ahmet Ertegun, do grupo fundador do Cosmos. “O pai e a mãe de Pelé estavam lá e eles são uma graça, e a mulher dele [Rosemeri] é branca, mas todo mundo é de uma cor diferente na América do Sul —os pais dele também são de cores diferentes”, registrou Warhol, em 27 de setembro. Pelé se diverte ao ouvir o relato. “Essa brincadeira é porque minha mãe era mais clarinha. Dondinho [seu pai] era mais da nossa cor, era mais escuro.”

O ex-ministro do Esporte, que defende a punição de agressores de jogadores negros nos estádios, afirma não ter sofrido racismo nos EUA, país marcado por duros conflitos raciais. “Nem no Cosmos, nem na sociedade. Pessoalmente, graças a Deus, nunca tive nenhum problema.”

Em 6 de janeiro de 1978, na galeria Coe Kerr, Warhol e Pelé assinariam juntos o verso das serigrafias; ali, o artista seria convidado a viajar para o Rio de Janeiro como hóspede do brasileiro. A viagem não aconteceu, mas, assíduos em casas noturnas, eles voltariam a conversar outras vezes no Studio 54 e no Club A. Pelé, sempre abstêmio.

“Fomos ao Laurent onde Dalí tinha nos convidado a jantar, havia umas 40 pessoas lá. Então os garotos quiseram ir à festa da Xenon para Pelé. Nova York está tão cheia de brasileiros que parece que aqui é o Carnaval”, anotou Warhol em março de 1979.

Pelé menciona os amigos Warhol e John Lennon ao se revelar orgulhoso de sua história americana. Na despedida, aperta a mão com o carisma de quem está imerso no próprio mito: “Ao escrever, não esqueça que meu nome é Edson”. A poucos metros, numa mesa, repousava uma coroa real dourada. Tudo tão Warhol.

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