Anos de aflição: como a década redefiniu a noção de história da arte

Redes sociais como o Instagram contribuíram para encurtar as distâncias entre centro e periferia nas artes plásticas

São Paulo

Nas artes plásticas, a verdadeira revolução desde 2010 aconteceu não em telas brancas esticadas sobre chassis, mas nas superfícies cintilantes dos smartphones.

De um lado, o Instagram —que completa dez anos em outubro próximo— estabeleceu uma nova forma de consumir e de se relacionar com as obras de arte. De outro, a autorrepresentação possibilitada pelas redes sociais jogou luz sobre debates de raça, gênero, sexualidade.

Das páginas do Facebook, Twitter, Tumblr e outras plataformas, as discussões migraram para os museus, que se viram obrigados a redefinir seu entendimento sobre arte moderna e contemporânea, abrindo espaço para nomes até então excluídos do cânone —negros, mulheres, latinos, asiáticos, índios, LGBTs.

A coroação dessa tendência aconteceu este ano, no MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York. A instituição realizou uma reforma de US$ 400 milhões (cerca de R$ 1,5 bilhão à época) para exibir mais obras de minorias em sua mostra permanente. Agora, eles podem ser encontrados dividindo a parede com pinturas como "A Noite Estrelada", de Van Gogh, ou "Número Um", de Jackson Pollock.

Veja as principais mudanças nas artes plásticas desde 2010.

Corpos dissidentes
Grupos sociais historicamente silenciados, como negros, mulheres e LGBTs, tomaram museus não por só meio do discurso, mas da fisicalidade, seja em pinturas figurativas ou em performances

História(s) da arte
Museus se renderam aos questionamentos sobre a predominância de artistas brancos europeus em suas coleções e passaram a repensar a própria história da arte

Arte ou artesanato?
Uma das consequências dessa revisão histórica foi a valorização de técnicas consideradas menores, como a cerâmica e a produção têxtil. Antes ditas artesanato, elas ganharam status de arte. Além disso, visualidades que remetem ao hoje muito criticado rótulo de "arte naïf" despontaram na produção contemporânea nacional e internacional.

Repatriação de obras
Outro efeito dessa mesma tendência foi uma série de pedidos de repatriação de obras de arte por países colonizados, que alegam ter tido parte de suas histórias nacionais pilhadas pelos europeus séculos atrás

Do centro para as margens
De olho nos mercados emergentes, a feira Art Basel viajou para Hong Kong, e o Louvre e o Guggenheim criaram filiais no Oriente Médio (a última, por enquanto, ainda no papel)

Cubos brancos
Quem mais ganhou força com a expansão global do mercado de arte talvez não tenham sido os artistas, mas as galerias que os representam —que hoje recebem mostras e têm times de curadores dignos de museus

Filantropia tóxica
A presença de empresários ligados a negócios controversos nas diretorias de alguns dos principais museus do planeta esteve na mira de uma série de boicotes e manifestações de artistas

Instagramável
O Instagram teve grande impacto nas artes visuais, com mostras repletas de visitantes sedentos por cenários extravagantes para selfies, popularizando artistas conhecidos pelas instalações imersivas, como a japonesa obcecada por bolinhas Yayoi Kusama ou o dinamarquês Olafur Eliasson, cujos trabalhos imitam fenômenos naturais. A rede social ainda influiu no mercado e virou playground para artistas, curadores e galeristas que souberam moldar suas personas virtuais.

Street art
Famoso pelos grafites ácidos, o britânico Banksy protagonizou alguns dos experimentos mais intrigantes dos últimos anos. Além dele, outros expoentes da arte urbana também saíram das ruas e foram para as galerias, como o americano KAWS e o japonês Yoshimoto Nara. No Brasil, Osgemeos e Kobra se tornaram queridos do público

Muito ‘Black Mirror’
Apesar de pouco discutidas, as realidades virtual e aumentada vêm entrando nos museus, primeiro num projeto do Google que permite visitar esses espaços pela internet, e mais recentemente dentro das próprias exposições

 
 
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