Memes saem da internet, vão para museus e ganham status de obras de arte

Artistas e críticos aderem ao estilo como nova arena de debate e produção

Clara Balbi
São Paulo

De uma pintura do século 19 em que Jesus Cristo revira os olhos enquanto ergue as mão aos céus à malsucedida restauração de um afresco religioso na Espanha por uma velhinha, o encontro entre arte e internet tem sido frutífero —vide sites como Classical Art Memes e Ugly Renaissance Babies, que reúnem dezenas de memes relacionados ao tema.

Recentemente, o mundo da arte contemporânea também virou assunto de memes. Em perfis do Instagram como @jerrysaltz —famoso crítico de arte americano—, @the_worst_of_art_fair, @jerrygogosian e @pobra_ok, no entanto, não são as obras de arte, mas o própria cena artística que é satirizada.

O movimento também acontece na direção oposta, com memes invadindo galerias, centros culturais e museus.

Em maio, o Museu da República, no Rio de Janeiro, apresenta uma exposição do Museu de Memes, projeto da Universidade Federal Fluminense dedicado ao assunto. Já a mostra coletiva “À Nordeste”, que acontece no Sesc 24 de Maio a partir de 15 de maio, tem entre seus integrantes o coletivo Saquinho de Lixo, responsável pela conta homônima no Instagram.

Formado por nove pessoas de diversas regiões do país, o grupo reproduz na exposição uma tela de celular de mais de dois metros de altura. Chamada de “Memelito”, ela exibe uma compilação de imagens publicadas na conta do coletivo nos últimos meses, além de colagens, experimentos e outros.

“Os memes são um vasto campo de reflexão do momento histórico em que vivemos. Sua presença no museu como registro é um passo para que possam ser estudados”, afirma o coletivo, por email.

O carioca Alvaro Seixas, 36, encontrou na linguagem dos memes uma forma de reinventar a própria obra. A princípio conhecido por pinturas abstratas, conceituais, ele tem ganhado notoriedade dentro e fora das redes com uma produção ácida e caricatural.

“Tinha abandonado os cartuns depois da faculdade porque achava que, para ser levado a sério, tinha que produzir uma pintura geométrica, herdeira de Lygia Clark e Hélio Oiticica”, afirma Seixas, que também é professor na Escola de Belas Artes da Universidade Federal Rio de Janeiro.

“Foi quando percebi que essa decisão tinha sido muito motivada por uma pressão externa, vinda de curadores e do meio acadêmico, que comecei a postar os desenhos.”

Apropriando-se de personagens do universo pop, como Mickey e Gasparzinho, além de obras conhecidas da história da arte, seus trabalhos sujos, cheios de rasuras, são frequentemente escatológicos, e não raro ofensivos —apesar de Seixas jamais citar nomes.

Entre seus alvos mais frequentes estão as cifras milionárias do mercado de arte (“amei essa pintura porque é tão cara”, lê-se em um desenho) e a influência crescente dos curadores sobre a produção contemporânea (“esse texto não vai servir à sua porcaria de proposta curatorial”, diz outro).

“Acho que existe uma dificuldade muito grande de se posicionar criticamente no meio das artes plásticas brasileiro”, afirma Seixas. “As pessoas têm tanto medo de gerar constrangimento que tudo parece release de exposição. Mas é importante haver constrangimento na arte.”

Apesar de não fugir de polêmicas, ele ressalta que, sem o formato do meme, não teria coragem de enunciar suas indignações de maneira tão afiada. “Quando uso um personagem como o Mickey em uma pintura, amenizo a crítica. Além de ser uma maneira de exorcizar o horror com o humor”, diz o artista, que nas obras assume o alter ego de White Artist (artista branco).

A criação de uma persona, assim como a aposta em uma estética precária, o uso de legendas em inglês e a recusa em se levar a sério são fatores comuns a outros artistas que utilizam memes como meio de expressão.

É o caso de Aleta Valente, 33, que começou a carreira artística com o perfil no Instagram Ex-Miss Febem. Sem domínio técnico sobre outros suportes, ela afirma ter descoberto na câmera do celular uma forma de construir um discurso —e, nas redes sociais, um jeito de arquivar a produção sem precisar comprar um HD externo.

Valente aparecia nas fotografias do perfil posando seminua no topo de uma escada (“Escalada Social”), exibindo com orgulho a mancha de sangue menstrual na calça branca (“Not Pregnant”, ou “Não Estou Grávida”), lambendo os próprio pelos da axila (“Selflove” ou “Amor-próprio”).

“Criei uma personagem que problematizava os estereótipos relacionados à mulher, mas que causavam um certo constrangimento social.” A conta acabou, no entanto, sendo denunciada por conteúdo impróprio e retirada do ar em 2017.

Depois de um hiato das redes sociais, em meados do ano passado Valente reativou o perfil. Em sua segunda encarnação, a Ex-Miss Febem expõe menos o próprio corpo e dobra a aposta na curadoria de memes.

O humor inerente ao meio representa, segundo a artista, uma maneira de se comunicar claramente com as pessoas, em oposição ao que ela caracteriza como uma linguagem truncada de muitos curadores e artistas.

Além disso, o meio não deixa de ser um jeito de desafiar as certezas inabaláveis que perpassam a sociedade hoje, diz a artista. “As pessoas não se dão o direito de errar, pensar diferente, fazer fora do penico. E esse é meu esporte: mijo à distância.”

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