Museus tiveram valorização da arte popular e crise financeira em 2019

Ano foi marcado por mostra de Tarsila do Amaral no Masp e problemas no MAR e em Inhotim

Fila no Masp para exposição de Tarsila do Amaral

Fila no Masp para exposição de Tarsila do Amaral Danilo Verpa/Folhapress

São Paulo

Encerrada em julho, quando bateu o recorde de público do Masp, com mais de 402 mil visitantes, a exposição de Tarsila do Amaral continua a ser procurada. Há uma semana, uma recepcionista contou à reportagem que as ligações sobre o horário de visitação de ‘Tarsila Popular’ não cessaram até hoje. A busca, mesmo que atrasada, ajuda a entender a importância da exposição no calendário cultural paulistano —e, por que não?, do país.

Afinal, antes de se tornar a mostra mais popular do Masp, ela quebrou outro recorde da instituição. Foi a exposição de um artista brasileiro mais visitada de sua história. Após o ano de 2017, em que as artes visuais estiveram na mira dos conservadores, as filas quilométricas que se formaram no vão do museu e as pelejas por uma selfie com o “Abaporu” (1928), não deixam de ser esperança de uma relação menos bélica entre público e obras de arte.

Enquanto Tarsila e tantas outras artistas mulheres que guiaram a programação do museu neste ano faziam a festa na avenida Paulista, nos demais centros culturais da cidade o Nordeste se consagrou como sinônimo de resistência.

Única região do país em que Jair Bolsonaro perdeu nas eleições presidenciais, ela apareceu em “À Nordeste”, no Sesc 24 de Maio, em “Vaivém”, no Centro Cultural Banco do Brasil, na retrospectiva do baiano Marepe, na Estação Pinacoteca, e no Panorama do MAM paulistano, “Sertão”

Tanto nessas exposições quanto no Masp, o uso de técnicas manuais e materiais têxteis, típicas do artesanato popular, ganhou os holofotes, e a revisão de hierarquias convencionais ditou a forma como as obras ocuparam os espaços.

Por aqui, o mais radical desses experimentos foi provavelmente “À Nordeste”, que exibiu trabalhos de Cândido Portinari e Romero Britto em pé de igualdade. Mas a tendência parece ser global, com até o novo MoMA, reaberto após quatro meses de reformas, reorganizando sua coleção de forma mais livre.

Voltando ao Nordeste, ele ainda fez uma participação especial na Bienal de Veneza.

No pavilhão do Brasil da mostra de arte contemporânea, a dupla formada por Bárbara Wagner e Benjamin de Burca exibiu um curta-metragem e uma série fotográfica protagonizada por dançarinos de swingueira, cujas coreografias rebolativas viraram febre na periferia do Recife.

Batizada de “Swinguerra”, a obra mostra dançarinos negros e transexuais jurando lealdade à bandeira.
Então secretário especial de Cultura, Henrique Pires esteve na abertura da mostra, em maio. Na época, em entrevista à Folha, negou que havia qualquer movimento de censura às artes por parte do governo.

Mas em agosto, após deixar o posto, Pires disse ao jornal que o ministro da Cidadania, Osmar Terra, não visitou o espaço porque “Swinguerra” é protagonizada por uma dançarina transexual. O Ministério da Cidadania não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem na ocasião.

Ao mesmo tempo, 2019 foi um ano em que os museus puderam respirar aliviados.

Temerosos em relação às mudanças na Rouanet anunciadas por Bolsonaro —a lei, que rege os incentivos fiscais para a cultura, foi uma das mais atacadas na campanha presidencial—, os planos anuais das instituições ficaram de fora do teto de R$ 1 milhão por proponente estabelecido pelo novo governo. E mesmo as exposições de arte foram consideradas exceções, podendo inscrever projetos de até R$ 6 milhões.

São Paulo até ganhou um novo museu. Vinculado ao Museu da Imagem e do Som, o MIS Experience foi inaugurado com uma exposição sobre Leonardo da Vinci que vendeu 14 mil ingressos antes mesmo de abrir.

Fora da capital paulista, no entanto, a crise econômica atingiu diversas instituições.

O MAR, Museu de Arte do Rio, deu aviso prévio a todos os seus funcionários no início do mês passado. A prefeitura não fazia repasses ao Instituto Odeon, organização social que administra o museu, desde setembro, e seu diretor cultural, Evandro Salles, foi demitido e depois fez críticas à gestão de Marcelo Crivella. Além do MAR, o vizinho Museu do Amanhã também passou por dificuldades financeiras.

Há menos de uma semana, a prefeitura enfim repassou os aportes necessários para que o MAR não feche, e informou que está finalizando as discussões sobre o pagamento da parcela restante do aditivo o plano de trabalho para o ano que vem.

Outra instituição que sofreu foi o Inhotim, em Minas Gerais. Em janeiro, o rompimento de uma barragem de dejetos da mineradora Vale inundou de lama a cidade de Brumadinho, onde fica o parque, e causou a morte de 251 pessoas.

Muitos deles eram conhecidos dos funcionários do parque, e o trauma se juntou a uma queda da visitação após a tragédia e à perda de patrocínios. Uma série de inaugurações em novembro passado buscou trazer um sopro de vida ao instituto, que no ano que vem, já com mais empresas no rol de patrocinadores, abre um pavilhão dedicado à artista japonesa obcecada por bolinhas Yayoi Kusama.

Enquanto isso, outros espaços ao ar livre ganham força pelo país. Em Itu (SP), a Fundação Marcos Amaro inaugurou o Fama Campo, que convida artistas a explorarem um grande espaço verde. Já em Água Preta, na zona da mata pernambucana, o parque da usina Santa Terezinha ganhou uma instalação do cubano Carlos Garaicoa.

No mercado de arte, o ano que vem pode ver mais uma fusão promovida pelos sócios da galeria Almeida e Dale, Antonio Almeida e Carlos Dale. Seu espaço, que no início do ano se associou à galeria Leme, criando a Leme/AD, preparava uma junção desta com a galeria Millan.

A mesma galeria foi alvo de um mandado de busca e apreensão da operação Lava Jato em setembro, por possível lavagem de dinheiro no caso que levou à prisão do filho do ex-ministro Edison Lobão.

DESTAQUES DE 2019

Yes, Nós Temos Bananas

Maurizio Cattelan conseguiu US$ 120 mil (R$ 492 mil) por uma simples banana exposta na Art Basel Miami Beach. Um artista foi lá e comeu a fruta.

Banana exposta por Maurizio Cattelan na Art Basel
Banana exposta por Maurizio Cattelan na Art Basel - Cindy Ord/AFP

Da Vinci 

O renascentista foi alvo de uma grande retrospectiva no Louvre graças aos 500 anos de sua morte, mas a tela ‘Salvator Mundi’, vendida pelo recorde de US$ 450 milhões (R$ 1,5 bilhão à época), segue desaparecida; a última desconfiança é de que esteja num iate da coroa saudita.

jesus segurando um globo e com a outra mão estendida à frente do corpo
O "Salvator Mundi" conhecido como a versão "de Ganay", pois pertencia à coleção do marquês de Ganay, na França. Hoje exposta no Louvre - Divulgação
jesus segurando um globo e com a outra mão estendida à frente do corpo
A versão de "Salvator Mundi" vendida em leilão em 2017, em Nova York - Courtesy Christie's New York/Reuters

Filantropia tóxica

Artistas retiraram obras da Bienal do Whitney, em NY, e a fotógrafa Nan Goldin foi presa num protesto. 

APOSTAS PARA 2020

Onipresente

A Bienal de São Paulo, que começa já em março, ocupará 20 espaços pela cidade.


Artistas indígenas

Protagonizam uma coletiva da Pinacoteca; Masp contratou primeira curadora indígena.


Flávio de Carvalho

Artista deve conquistar fama lá fora ao ser homenageado na Bienal de Berlim.

Erramos: o texto foi alterado

Há duas versões de "Salvator Mundi" atribuídas a Leonardo da Vinci. Uma, conhecida como "de Ganay", está em exposição no Louvre. A outra, vendida em leilão, tem paradeiro desconhecido. As duas estão reproduzidas com suas devidas legendas no texto corrigido.

Evandro Salles foi demitido em reestruturação no quadro de funcionários do MAR, e não pediu demissão. O texto foi corrigido. 

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