Exposição destaca trabalho coletivo do Grupo de Bagé

Mostra com 180 obras de Glauco Rodrigues, Glênio Bianchetti, Danúbio Gonçalves e Carlos Scliar abre na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre

Detalhe de obra do Grupo de Bagé que integra exposição na Fundação Iberê Camargo Danúbio Gonçalves/Divulgação

Porto Alegre

A efervescência cultural na fronteiriça Bagé parecia improvável na década de 1940 —a 380 km de Porto 
Alegre, o lugar está mais próximo de Montevidéu e de Buenos Aires do que de São Paulo e do Rio de Janeiro.

“Bagé é uma cidade que vive exclusivamente da pecuária. A verdade é que a vida entregue às lides do campo não predispõe muito ao desenvolvimento de sensibilidades, nem apuro de dotes intelectuais”, escreveu Pedro Wayne em reportagem publicada em 1946, na revista O Globo, editada na capital gaúcha.  

Mas, em uma casa típica das estâncias da região da campanha funcionava um ateliê, com “quadros terminados”, “estudos de tipos e naturezas mortas”, “caixas com pincéis e tubos de tintas”, descreve Wayne.

“Toda essa desordenada simplicidade, todo esse inesperado não é mais do que o Montparnasse de Bagé. Sim, senhores: o Montparnasse de Bagé”, acrescentou o autor do romance “Xarqueada”, de 1937, em referência ao bairro parisiense conhecido por abrigar artistas e intelectuais.

Wayne registrava o surgimento do Grupo de Bagé, que iniciou com Glauco Rodrigues (1929-2004) e Glênio Bianchetti (1928-2014). Aos dois se somaram Danúbio Gonçalves (1925-2019) e Carlos Scliar (1920-2001), de Santa Maria —os dois últimos tinham estudado na Europa.

Agora, os quatro de Bagé, como também eram chamados, ganham sua maior exposição conjunta, com 180 obras, na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre. A mostra, “Os Quatro - Grupo de Bagé”, foi inaugurada no último sábado (30) e pode ser visitada até 1º de março.

Dois andares do prédio são ocupados pelas obras, divididas em duas fases: a inicial, a partir da década de 1940, e a dos anos 1970, depois de uma nova reunião do grupo, quando passaram cerca de um mês produzindo juntos. Entre as técnicas das obras, há xilogravura, litografia, óleo e acrílico sobre tela e até serigrafia.

“Glauco pintava assobiando, cantarolando. Ele era o oposto do Bianchetti, que lutava contra a tela como numa batalha. O Danúbio era muito técnico, procurava novos materiais e maneiras de pintar. Scliar era muito agregador, tinha uma base mais social, o mais ativista”, relembra o amigo Deny Bonorino, que aos 13 anos começou a frequentar o ateliê. Seu autorretrato, de 1943, integra a mostra.

“Era uma atmosfera de muito trabalho, com dedicação diária, como um sacerdócio. Tinham um espírito renascentista de dominar diferentes técnicas”, diz Bonorino.

Naquele período, o abstrato predominava nas artes visuais brasileiras. O grupo optou conscientemente por um caminho contrário. Eles entendiam que o realismo colaborava para que arte fosse compreendida por mais gente.

Influenciados pelo Taller de Gráfica Popular, fundado por Leopoldo Mendez, no México, buscavam retratar trabalhadores das charqueadas, minas de carvão e o gaúcho simples, sem idealização mítica de sua figura.

Scliar era filiado ao Partido Comunista e integrou a Força Expedicionária Brasileira, a FEB, como militar no combate aos nazistas, na Segunda Guerra Mundial.

“Eles foram influenciados pelo realismo socialista, mas subverteram esse estilo. Diferentemente do ‘super-homem soviético’, eles mostravam a dor do povo, a tragédia dos trabalhadores. Não pintavam o ‘centauro do pampa’, mas o homem comum. Era uma defesa do ser humano”, afirma o ator Sapiran Brito, de Bagé, que conviveu com o quarteto.

“A exposição recupera a memória de um dos movimentos artísticos mais importantes do Brasil. Não são apenas gaúchos, mas brasileiros. Eles foram fundamentais para a popularização dos clubes de gravura no Brasil. Tinham um compromisso social para que a arte fosse acessível e não ficasse restrita à elite”, diz Emilio Kalil, superintendente da Fundação Iberê.

Para Kalil, a frase de Scliar que encerra a mostra resume o sentido do conjunto exposto: “O que fazemos cada um nada tem a ver com o passado, mas depende intrinsecamente dele”. ​

Os Quatro - Grupo de Bagé

  • Quando Qua. a dom., das 14h às 19h. Até 1º de março de 2020
  • Onde Fundação Iberê Camargo, av. Padre Cacique, 2.000, Cristal, Porto Alegre
  • Preço Grátis

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