Descrição de chapéu

Filme de amor lésbico francês só se salva do fracasso no final

'Retrato de uma Jovem em Chamas', premiado em Cannes, tem roteiro parcialmente comovente

Retrato de uma Jovem em Chamas

  • Quando Estreia nesta quinta (9)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Noémie Merlant, Adèle Haenel, Luàna Bajrami
  • Produção França, 2019
  • Direção Céline Sciamma

Retrato de uma Jovem em Chamas” pode ser dividido em duas partes. A primeira nos remete em linha reta ao velho cinema da “qualidade francesa”, aquele que opõe o refinamento europeu à cultura limitada disso que nos acostumamos a chamar de novo mundo (e cinema americano). É algo que parece seduzir os próprios americanos, a julgar pelas indicações a prêmios como Oscar ou Globo de Ouro.

Tudo evoca o bom-tom na história narrada pela pintora Marianne, chamada para fazer o retrato de uma jovem numa solitária ilha da Bretanha. Isso começa já quando a tela que levava no barco cai na água e ela, arrojadamente, se atira no mar para recuperá-la. 

Estamos no século 18 e ali ela virá a conhecer as características do caso. Trata-se de uma jovem por nome Heloïse, que vive com a mãe, e a ideia essencial é que o retrato seja belo o bastante para seduzir um pretendente. Não seria tarefa tão difícil, em princípio.

O problema é que Heloïse, embora bela, é um tanto rebelde. Tanto que já despachou um artista que nem sequer chegou a pintá-la. E o pretendente nem era tão ruim assim —para começar, era um milanês, o que deixaria Heloïse sempre muito próxima da música que tanto ama (sem falar na riqueza do pretendente, que parece interessar mais à mãe de Heloïse, interpretada por Valeria Golino).

Cena do filme "Retrato de uma Jovem em Chamas, de Céline Sciamma
Cena do filme "Retrato de uma Jovem em Chamas, de Céline Sciamma - Divulgação

Marianne e Heloïse se dão bem logo de cara, o que é bom, porque facilita o trabalho, e ruim, porque então entramos no ramo das necessidades artísticas. Em outras palavras, Marianne precisa saber como representar a jovem de modo a apreender não só sua bela figura como seu espírito? 

Marianne fracassa, ela própria reconhece. Acho que qualquer espectador concordará, no mais, que seu primeiro esforço é um fracasso completo. Em dado momento, irritada com seu próprio trabalho, ela borra todas as tintas (o resultado é bem interessante, mas estava fora de qualquer padrão estético do século 18). 

Marianne, porém, não entrega os pontos e continua a conhecer sempre melhor sua retratada, a romper resistências, a trabalhar no sentido de captar melhor a personagem que tem à sua frente (para um quadro acadêmico, cinema idem).

A partir de então entramos na segunda parte. Céline Sciamma, a diretora do filme, parece abdicar das convenções (do cinema, do século 18, da pintura) e seu filme ganha alguma alma, à medida que as relações entre as duas moças se aprofundam e a diretora parece ter encontrado algo a mostrar que a interessa efetivamente. Com isso, o filme desemboca em um final sincero e comovente.

Temos muitas vezes o hábito injusto de crucificar filmes ótimos por um final menos feliz (em particular os hollyowoodianos, submetidos a pressões de várias ordens). Infelizmente, um final bem-sucedido não resolve os problemas que “Retrato” acumulou ao longo de sua duração, em especial da sua primeira metade. 

O êxito final surpreende bem menos que o fato de ter ganho em Cannes o prêmio de melhor roteiro (europeus também gostam da “qualidade francesa”).

Mas é justo dizer que essa segunda parte, mais o final, faz com que “Retrato” se salve do fracasso. Pelo que prometia no início, já é alguma coisa.

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