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Série 'Drácula', na Netflix, começa bem, mas naufraga ao fim

Ator e boas ideias marcam produção, que parte de episódio impecável para um epílogo constrangedor

Drácula

  • Onde Disponível na Netflix
  • Elenco Claes Bang, Dolly Wells, Morfydd Clark
  • Criação Mark Gatiss, Steven Moffat

Em 1965, ao topar voltar à fria pele do conde Drácula sete anos após o sucesso de sua estreia no papel, Christopher Lee ficou incrédulo ao ler suas falas em “Drácula, o Príncipe das Trevas”.

O ator britânico fez o filme, mas se negou a abrir a boca senão para mostrar os caninos.

De alguma forma deu certo, e a produção lançada em 1966 foi um sucesso de público.

A indignação de Lee com o diálogo pedestre se imprimiu na sua relação com o vampiro criado em 1897 por Bram Stoker, que encarnou por sete vezes na produtora britânica Hammer Films —ao fim de sua profícua vida de 93 anos, em 2015, ele se recusava até a autografar capas pretas.

Claes Bang não teve tal prerrogativa ao envergar o surrado manto do nobre transilvano.

Por contas imprecisas, Drácula foi levado às telas mais de 200 vezes desde que um obscuro filme húngaro o fez em 1921, um ano antes do clássico “Nosferatu”, a primeira adaptação do texto de Stoker.

Se isso foi bom ou ruim para a carreira do ator dinamarquês de 52 anos, conhecido por seu papel como o curador de museu em “The Square”, é uma incógnita. Para quem o avalia nos três capítulos do “Drácula” revivido pela BBC e pela Netflix, nem tanto.

Bang é um achado como o vampiro. Pertence à linhagem de Lee, com quem guarda semelhança de presença física impressionante (tem 1,94 m, só dois centímetros a menos que o britânico), e imprime uma tensão sexual predatória a cada olhar.

Suas falas, ao contrário do que aconteceu com o antecessor, não são tanto o problema, em especial no quase perfeito primeiro episódio.

Trazem um conde ainda envelhecido curtindo sua condição e isolamento: “As pessoas daqui não têm sabor”.

Quando é chamado de monstro pelo inglês que o visita para fechar negócios imobiliários em Londres, única parte do roteiro próxima do texto clássico de Stoker, responde: “E você é um advogado. Ninguém é perfeito”.

A série evita a armadilha de agradar fãs puristas. Para tanto, a primeira versão para TV da BBC, de 1977, basta. Já a de Francis Ford Coppola, de 1992, é uma obra brilhante por diversos motivos, incluindo o conde de Gary Oldman, mas o prólogo que dá a ele uma motivação amorosa subverte um texto de resto fiel ao original.

Criada pelos autores de “Doctor Who” e “Sherlock”, da mesma BBC, “Drácula” também pula as associações com a figura histórica de quem Stoker roubou o nome e a fama de cruel ao compor o vampiro, o príncipe Vlad 3º Drácula, da Valáquia, que viveu no século 15.

O arco narrativo ganha dramaticidade e surge a hoje obrigatória antagonista feminina poderosa —a irmã Agatha, personagem pontual no livro que aqui vira uma freira “hardcore”, se há algo assim.
E ela tem o sobrenome Van Helsing, personificando o papel reservado nas telas a sábios anciãos, embora mais como uma novata em aprendizado acerca do adversário.

Mais interessante ainda, Bang é um Drácula incerto de seus limites. Como o original não trazia a visão do vampiro, salvo por falas indiretas, essa é uma liberdade fundamental para a perenidade do personagem. Cada adaptação do conde traz um tanto de seu tempo para a trama, e incerteza é uma face do século 21.

Outros personagens não têm tal sorte, em especial as mulheres. O caso mais grave é o de Lucy Westenra, punida no século 19 como sonhadora ingênua no livro e aqui, como uma baladeira entediada em plena Londres de 2020.

Pois é, isso é um spoiler. Após a ótima estreia, na qual até o castelo em que “Nosferatu” foi filmado na Eslováquia é locação e os tais valores de produção abundam, a coisa degringola no segundo capítulo, que traz outro trecho lateral do cânone —a viagem de Drácula para a Inglaterra.

Remetendo a “Sherlock”, os autores fazem um pastiche de Agatha Christie, no qual o culpado é conhecido. Serve para apreciar Bang, mas só —e o final, no qual seu caixão repousa no fundo do mar por 123 anos, é desastroso.

Já o terceiro episódio é uma sucessão de soluções arbitrárias e a ironia fina do conde se transmuta em piadinhas tolas sobre geladeiras e o Tinder.

Lee viveu essa atualização em duas bombas da Hammer dos anos 1970 e, com razão, pendurou a capa. Cinema também é escapismo —os melhores Dráculas mantiveram o elemento gótico, um lugar de deslocamento para a audiência.

O que mata a série é o constrangedor epílogo, em que os produtores correm para negar o caráter bissexual da predação deste conde, surge uma explicação psicanalítica de boteco para questões fulcrais do vampirismo e ocorre a bizarra reviravolta final.

Drácula já pode retornar à tumba. Se há algo certo, afinal, é que ele voltará um dia.

GALERIA DE DRÁCULAS

Max Schreck
Em “Nosferatu” (F.W. Murnau, 1922), o alemão criou o mais aterrador Drácula, com nome alterado por questões de direitos autorais

Bela Lugosi
Em “Drácula” (Tod Browning, 1931), o húngaro criou a figura mais popular do conde e estabeleceu o “padrão vampiro”

Christopher Lee
A partir do “Drácula” de 1958 (Terence Fisher), o britânico injetou sexualidade e agressividade na persona aristocrática de Lugosi

Frank Langella
No “Drácula” de 1979 (John Badham), o conde vira abertamente um imigrante sedutor e subversivo, baseado em uma peça

Klaus Kinski
A releitura de “Nosferatu” (Werner Herzog, 1979) tem o obsessivo ator alemão em uma performance angustiante e melancólica

Gary Oldman
Em “Drácula de Bram Stoker” (Francis Ford Coppola, 1992), o britânico transita de idoso a dândi, passando por monstro, motivado pelo amor

Luke Evans
Em “Drácula, a História Não Contada” (Gary Shore, 2014), o britânico é soterrado pelo ritmo de videogame imposto à trama

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