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Obra de Vonnegut é mais paródia do que romance, para o bem ou para o mal

'Café da Manhã dos Campeões', de 1973, padece de certo excesso de autoestima por parte do escritor americano

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Vivien Lando

Café da Manhã dos Campeões

  • Preço R$ 59,90 (400 págs.)
  • Autor Kurt Vonnegut
  • Editora Ed. Intrínseca
  • Tradução André Czarnobai

Excesso de autoestima pode ser algo danoso para o artista. Perde o senso de medida, ultrapassa os limites necessários no autoencantamento —e a obra desaba no excesso.

O escritor americano Kurt Vonnegut publicou “Café da Manhã dos Campeões” em 1973. Ele tinha 50 anos, portanto não poderia se justificar com aquele arroubo de primeiro romance, no qual despejamos tudo o que imaginamos a vida toda. “Player Piano” havia sido escrito 20 anos antes e foi uma estreia de alto nível.

Feitas as restrições, o livro merece uma atenção maior aos detalhes, já que o todo consiste em sobrecarregar o leitor com dezenas de personagens criados especificamente para seus devidos fins, de modo que cada um diga sua fala na deixa e depois saia de cena.

Homem de cabelos e bigode branco sentado com as mãos cruzadas sob o queixo
O escritor americano Kurt Vonnegut em setembro de 1997 - Fred R. Conrad/The New York Times

A anunciada amizade entre um escritor tardiamente descoberto e um empresário dono de uma rede de concessionárias de carros não ocorre jamais. A cidade de Midland, situada no mesmo estado de Indiana em que o autor nasceu, faz o papel de confins do mundo, onde é criado o festival de artes para o qual Kilsgore Trout é convidado a palestrar. Dwayne Hoover, além das lojas de carros, é proprietário do no Holyday Inn onde serão hospedados os artistas. 

Enquanto o primeiro empreende uma viagem econômica, de carona, para chegar, o segundo vai pisando pé ante pé no lodo da loucura até se afogar nela completamente. É quando espanca a amante, arranca com os dentes um dedo do escritor e, é claro, desmonta toda a manifestação artística programada. Acabam todos numa ambulância gigante.

Há ainda o verdadeiro escritor, que de repente sai da coxia e entra no palco da confusão criada por ele mesmo. Nada a ver com o distanciamento proposto por Bertolt Brecht, mas sim um tom de deboche, escárnio e humor sombrio que permeia as 400 páginas.

Nelas, os desenhos didáticos e irônicos servem para explicar a um suposto visitante de outro planeta, assunto que aparece em diversos de seus livros —ou ao próprio ser humano do futuro—, como foi nossa vida na Terra. Sob o domínio total dos carros e do dinheiro. Bem atual mesmo. Nisso, Vonnegut mostra um talento enorme para prever que tudo o que estava sendo há meio século continuaria igual. Sobretudo em seu país, que ele alfineta como se já estivesse na era Trump.

É claro que sem essa onda entediante do politicamente correto. Os anos 1970, por sua característica libertária, permitiam e estimulavam o sarcasmo de um escritor que classifica personagens masculinas pelo comprimento e diâmetro do pênis. E assim por diante —frase esta que conclui quase todas as descrições dos fatos. Um pouco como se não tivesse paciência para continuar o assunto e nos concedesse a oportunidade de chegarmos às próprias conclusões.

No meio de tudo, Vonnegut põe elementos de sua aldeia interior, como o suicídio da mãe, que enfrentou em 1944, mesmo ano em que foi capturado pelos alemães enquanto lutava no exército americano. No período, dormia num matadouro de precárias condições, de onde emergiu “Matadouro Cinco”, considerado o seu melhor escrito.

“Café da Manhã dos Campeões”, título alusivo ao dry martíni, assim como o subtítulo, “Adeus Segunda-feira Triste”, se refere a uma campanha publicitária de uma máquina de lavar roupas e o alívio das donas de casa. Estamos diante de algo que não é bem um romance. Parece mais uma paródia disso. Para o bem e para o mal. E assim por diante.

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