Curador da Tate Modern defende museus como espaços cívicos

Diante de protestos contra patrocinadores, americano Michael Wellen diz que instituições encontrarão outros modelos

homem de cabelos brancos posa diante de papel de parede de florzinhas
O americano Michael Wellen, curador de arte latino-americana do museu londrino Tate Modern - Tate Modern/Divulgação
São Paulo

Em muitos sentidos, a Tate Modern —braço de arte moderna e contemporânea da centenária Tate, no Reino Unido—, serviu de farol para a verdadeira revolução pela qual os museus passaram nos últimos anos.

A instituição, que ocupa uma usina abandonada às margens do rio Tâmisa, foi uma das primeiras a borrar as fronteiras entre os cânones ocidentais e a produção do resto do mundo em favor de uma história da arte mais abrangente. Leia-se: menos branca, menos europeia, menos masculina.

Também foi uma das primeiras a pôr em prática essa noção quando, ao inaugurar um novo prédio, há quatro anos, decidiu que iria preencher três quartos de suas paredes com obras recém-adquiridas, a maioria delas de artistas da América Latina, África e Ásia.

A estratégia foi copiada pelos museus de arte moderna de São Francisco e, no ano passado, de Nova York, cuja sede foi reaberta no ano passado depois de uma reforma bilionária.

Curador de arte internacional da Tate Modern, o americano Michael Wellen diz que tantas mudanças só puderam acontecer graças à pouca idade do museu. O caçula da Tate nasceu há exatos 20 anos, completados em maio.

“Ele tinha que ser feito diferente. Precisava criar outros jeitos de trabalhar a história, de compartilhar com o público”, afirma.

Wellen esteve em São Paulo na primeira semana de fevereiro. A viagem, que ainda incluiu alguns dias no Rio de Janeiro, foi realizada a convite do Inclusartiz, instituto que promove intercâmbios entre a arte brasileira e o cenário internacional fundado pela argentina Frances Reynolds.

O maior foco do curador não estava relacionado à arte brasileira, no entanto. Sua prioridade era ver as obras de Gego, austríaca radicada na Venezuela, no Masp. Ele remonta a mostra na Tate Modern ainda neste ano.

Ainda assim, ele diz ter aproveitado para trocar figurinhas com curadores locais. Além do time do Masp, Wellen cita encontros com integrantes das equipes da Bienal de São Paulo, da Videobrasil e do MAC-Niterói, entre outros.

Também conheceu de perto trabalhos de artistas que, conta, acompanha de longe desde os tempos de estudante. São nomes como Rosana Paulino, Sonia Gomes, além de Tunga, cujo instituto ele planejava visitar ao chegar ao Rio. E reencontrou artistas mais jovens, como Renata Lucas e Cinthia Marcelle.

Wellen situa a explosão da arte latino-americana nos Estados Unidos no início dos anos 2000, época em que se especializou na área por meio de um mestrado e, depois, doutorado na Universidade de Austin, no Texas.

Foi o mesmo período em que a coleção da Tate Modern começou a tomar forma, com aquisições, entre outros, de obras de diversos artistas  brasileiros —Wellen afirma que, por causa da proximidade de suas vanguardas com a Europa, o Brasil foi uma das portas de entrada da instituição para a América Latina.

Hoje, a coleção do museu abriga obras de mais de 50 artistas brasileiros, compondo um panorama que atravessa décadas da arte nacional. São nomes que vão de Hélio Oiticica e Lygia Clark, passam por Adriana Varejão e Ernesto Neto e chegam à geração atual, de André Komatsu, Jonathas de Andrade, Paulo Nazareth.

Questionado sobre como vê a arte produzida aqui, Wellen responde que odiaria generalizar uma cena artística complexa. Mas diz encontrar no país muitos paralelos com a produção internacional como um todo, em busca de uma arte capaz de lidar com questões sociais e repensar a concepção de cultura.

Ele ainda diz ter sentido uma atmosfera de tensão quando o tema de suas conversas com artistas e curadores se voltou para a liberdade de expressão. Mas, continuou, galeristas e colecionadores pareciam esperançosos em relação ao futuro imediato do país.

Quando o futuro em questão é o dos museus, Wellen também é otimista. A reportagem o questiona acerca da sobrevivência financeira dessas instituições num momento de sucessivas denúncias de filantropia tóxica, isto é, de uso de dinheiro de empresas envolvidas em negócios moralmente duvidosos para financiar exposições.

Um dia depois da entrevista, por exemplo, Londres testemunhou seu maior protesto relacionado à causa, quando centenas de manifestantes levaram um cavalo de Troia ao British Museum para protestar contra o patrocínio da petrolífera BP a uma mostra.

“Tenho esperança de que criaremos outros modelos”, diz. “Vivemos em uma era de rupturas, e isso significa que há alternativas ainda desconhecidas sobre o que os museus podem se tornar.”

Além disso, continua, não há apenas só molde a ser seguido. “Em última instância, acredito na importância da arte. Mas como o público se conecta com as obras pode ocorrer de muitas maneiras.”

Os museus do futuro deveriam ser, então, mais democráticos? “Democráticos, não, mas espaços cívicos. Especialização é a chave aqui. Meus colegas se esforçam muito para se relacionarem com os artistas e construir algo. Mas acho que há maneiras de sermos mais convidativos, abertos”, diz Wellen.

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