Desavenças e crise paralisam obras em museus assinados por grandes arquitetos

Atrasos causam prejuízo milionário aos cofres de três estados do país

Museus Damati Ilustrada

Cais das Artes, em Vitória, projeto de Paulo Mendes da Rocha + Metro Rodrigo Damati

São Paulo

Os anos de pujança que o país sonhou se desenham nas obras interrompidas de espaços de arte e cultura. Prédios assinados por arquitetos como o Pritzker Paulo Mendes da Rocha e Diller Scofidio + Renfro arruínam-se a custos milionários.

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​O capixaba criou o Cais das Artes, em Vitória, e a Praça dos Museus da USP; os americanos, a nova sede do MIS-RJ

Só esses três conjuntos somam gastos públicos da ordem de R$ 243 milhões, empatados por motivos que vão de construtoras falidas e editais cancelados à crise.

Em Copacabana, envelhece a nova sede do Museu da Imagem e do Som, projeto dos autores da reforma do MoMA escolhido em concurso em 2009.

Detrás dos tapumes, quebra-sóis importados que deveriam emoldurar a paisagem estão expostos à maresia. 

A obra parou em setembro de 2016, em meio a um litígio entre construtora e estado. Deveria ser retomada em breve; agora, já não há data.

Um edital para a conclusão foi aberto em 29 de março; em 3 de abril, o Tribunal de Contas do estado pediu o adiamento da licitação, que deveria fechar nesta terça (30).

O TCE-RJ listou 23 medidas, às quais a Secretaria de Infraestrutura e Obras do estado diz estar se adequando, como envio de documentos e explicações de aspectos do edital, para a licitação ser retomada.

A expectativa agora, diz a Seinfra, é que as obras, custeadas com recursos do Prodetur, programa de desenvolvimento turístico financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, "sejam retomadas ainda este ano".

Segundo a Seinfra, foram gastos até agora R$ 79 milhões; faltariam cerca de 30% da obra —e R$ 43 milhões.

Enquanto isso, o acervo do MIS ocupa duas sedes antigas no centro. A Secretaria da Cultura do estado não respondeu até a conclusão desta edição o que se tem feito pela manutenção desses espaços.

Também em 70% parou a obra do novo prédio do Museu Casa do Pontal, na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio.

O museu, dono da maior coleção de arte popular do país, alaga com a chuva desde 2011, quando se ergueu um megacondomínio olímpico nas imediações da sede original, no Recreio dos Bandeirantes.

Em 2016, a prefeitura cedeu um terreno e recursos. As obras tiveram início em junho daquele ano.
Lucas van de Beuque, diretor-presidente do museu, conta que o projeto feito pelos Arquitetos Associados —escritório mineiro responsável por vários prédios em Inhotim— é "supersimples, para construir de forma rápida, barata".

Os custos foram orçados em R$ 11 milhões; R$ 7,5 milhões viriam da prefeitura, por meio da construtora Calper, que devia aos cofres municipais esse montante; o resto viria do museu. Há 20 meses, a construtora pediu recuperação judicial, e a obra parou. 

A Secretaria Municipal de Infraestrutura e Habitação diz que agendará "o mais breve possível" uma reunião com representantes da RioUrbe, da Secretaria Municipal de Urbanismo e do museu "para avaliar as demandas necessárias e buscar uma solução".

Um financiamento coletivo foi aberto no dia 24 para recuperar o espaço, fechado após as chuvas do início deste mês.

Também não falta muito para o Cais das Artes. À beira do mar de Vitória, o conjunto de teatro e museu projetado por Paulo Mendes da Rocha e escritório Metro segue à deriva.

Iniciada em 2010, a obra viu sua primeira construtora quebrar em 2012 e a segunda entrar numa pendenga com o governo do estado em 2015.

Em 2018, um edital para a conclusão foi anunciado e suspenso. Agora, o governo atual quer convencer a Andrade Valladares a voltar ao trabalho.

Luiz Cesar Maretto Coura, diretor do Iopes (Instituto de Obras Públicas do Espírito Santo), diz que espera, entre maio e junho, ter calculado os custos, incluídos os do abandono, para propor um acordo à construtora.

O projeto já não tem financiamento do BNDES, mas o diretor do Iopes diz que o governo está "em situação de equilíbrio". Mais de R$ 126 milhões foram gastos desde 2010. O edital cancelado previa usar mais cerca de R$ 68 milhões e dois anos e quatro meses.

Coura estima menos tempo. "O museu já está muito adiantado, ele é daquele jeito mesmo, tudo de concreto", diz. O que falta "é piso, pintura, fechamento, ligar o ar". Ao teatro faltam cobertura, acabamento e cenotécnica, lista ele, para quem a obra é de "extrema importância", um Maracanã para os músicos locais.

 
 

A falta de recursos parou, em São Paulo, mais uma obra de Mendes da Rocha, essa com o escritório Piratininga. A Praça dos Museus, no campus da USP, consumiu cerca de R$ 38 milhões até ter a construção interrompida, em 2014, em meio à crise da universidade.

Outra Praça, a das Artes, no centro de São Paulo, ficou sete anos semiencoberta por um tapume que impedia sua ligação ao vale do Anhangabaú. 

Os arquitetos Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci comemoram ao ver se completar a vocação urbana do espaço. Os prédios seguem incompletos. 

Falta, por exemplo, a sala de ensaio de orquestra do complexo, que reúne as casas dos corpos estáveis do Theatro Municipal e as escolas de música e dança da cidade.

A incompletude era o que justificava, para a prefeitura, o tapume. A presença de um coautor do projeto, Marcos Cartum, na gestão municipal —ele é o diretor do Museu da Cidade— colaborou para o entendimento de que era preciso abrir o espaço de vez.

Hugo Possolo, diretor do Theatro Municipal, diz querer criar uma programação artística que ocupe a praça e a torne "local de convívio", como o Lincoln Center, em Nova York, ou o londrino Barbican.

Segundo a Secretaria Municipal de Cultura, a segunda fase estará pronta em dois meses. "Posteriormente", diz, sem pôr data, virá "a terceira e última fase", de acabamentos.

Enquanto isso, músicos ensaiam no restaurante. Ao menos há ali concertos, exposições e aulas; o espaço se usa.

Mas a morosidade atinge também obras que não dependem só do Estado. O concurso para a construção do Museu Judaico na sinagoga Beth-El, na região central de São Paulo, foi vencido pelo escritório Botti Rubin em 2006. Só agora a obra está em acabamento.

Os atrasos começaram com a descoberta de que um terreno anexo não era da sinagoga, que o usava, mas da prefeitura.

Em 2008, o município cedeu ao museu, em troca de visitas gratuitas de escolas públicas, o uso do terreno. Ele hoje abriga a caixa envidraçada que contém o apoio necessário ao uso do ex-edifício religioso, onde se exporá o acervo.

A maior parte do problema é, no entanto, financeira.

Uma das fachadas do prédio, tombado durante as obras, foi restaurada com recursos da Alemanha. Mas, diz a arquiteta Simoni Saidon, o andamento fica condicionado a doações e leis de incentivo.

A primeira fase deve ficar pronta em dois meses. A segunda, referente à expografia, não tem data certa.
 

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior deste texto identificava ilustração da Praça dos Museus como sendo da Praça das Artes. 

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