Descrição de chapéu
Cinema Oscar 2020

Espectador pode entrar em estado de choque ao ver documentário 'The Cave'

O diretor sírio Feras Fayyad capta no filme o cotidiano de um hospital num baluarte rebelde próximo a Damasco

The Cave

  • Quando Estreia na Nat Geo nesta segunda (3), às 21h
  • Direção Feras Fayyad

Quem ficou impressionado com os malabarismos técnicos de “1917” e se sentiu imerso num pesadelo bélico pode entrar em estado de choque ao mergulhar no registro da guerra ao vivo em “The Cave”.

O diretor sírio Feras Fayyad capta no filme o cotidiano de um hospital num baluarte rebelde próximo à capital, Damasco. No início de 2018, a população local sofreu ataques com armas químicas lançadas pelas Forças Armadas do ditador Bashar al-Assad.

O título alude à caverna subterrânea onde funciona improvisadamente um hospital na cidade sitiada. A estrutura em forma de bunker permite aos médicos atenderem, em condições mínimas de segurança, os feridos dos bombardeios.

A escolha de Amani Ballour como protagonista é decisiva para o documentário não perder intensidade e não tornar amorfa a sucessão de episódios trágicos.

Vemos a pediatra responsável pela direção do hospital se expondo no que restou das ruas, obrigada a agir com sangue frio durante as urgências ou a enfrentar o preconceito.

As cenas que evidenciam a capacidade de resistência de Amani são intercaladas com momentos que revelam sua fragilidade, quando recebe vídeos do pai ou reage à morte de crianças. A alternância de emoções distintas impede confundir o trabalho da médica com o de heroína. Muitas vezes, ao contrário, ela é apenas uma sobrevivente.

Esta escolha favorece o impacto de “The Cave”, pois o filme enquadra, sobretudo, a luta pela sobrevivência, o papel dos vivos em um contexto onde tudo está fadado à destruição.

Por isso é decisiva a visibilidade que Fayyad dá às crianças. “O que pensam pais que decidem ter filhos num mundo como este?”, questiona a médica.

Enquanto os adultos encontram acolhimento nem que seja no medo, as imagens focalizam o olhar atônito das crianças e seus corpos menos resistentes a estilhaços de bombas e ao sufocamento provocado por armas químicas.

Nestes duríssimos momentos, “The Cave” lança um desafio. Se o épico combate de um soldado numa guerra de um século atrás nos comove, como reagiremos às matanças contemporâneas que não foram neutralizadas pela distância da ficção?

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.