Jean-Luc Godard recria estúdio dentro da Fundação Prada, em Milão

Cineasta transferiu definitivamente seu local de trabalho, que pode ser observado por quem visita o centro cultural

Milão

Foi com incredulidade que a equipe da Fundação Prada recebeu a ideia do cineasta Jean-Luc Godard para o seu centro cultural em Milão. Não só um dos maiores cineastas em atividade (e um dos mais reclusos) aceitava fazer um projeto ali, como também sugeria um formato impensado —transferir definitivamente seu estúdio de trabalho de sua casa, na Suíça, para lá.

Desde dezembro, no primeiro andar de uma ala antes inacessível ao público, é possível ver computadores, gravadores e reprodutores com os quais o franco-suíço realizou seus filmes a partir de 2010, além de móveis, livros, quadros, roupas e outras miudezas.

Tudo teria sido posicionado como estava em Rolle, onde Godard vive com a mulher, a cineasta Anne-Marie Miéville. O próprio diretor participou da arrumação de três dias.

“Do ponto de vista expositivo, é comum ver a reconstrução do estúdio de um artista que normalmente não está mais vivo. Neste caso, não. É a transposição de uma coisa original, que não é uma obra de arte.

Godard é inovador no cinema e, com essa proposta, conseguiu também ser inovador nas artes visuais”, conta Chiara Costa, responsável pela programação da fundação.

O projeto começou há cerca de três anos, quando Miuccia Prada, estilista e dona da marca, foi atrás de um encontro com o cineasta e ouviu dele essa ideia de colaboração.

“Existia um grande interesse da nossa parte, mas não tínhamos dado nenhuma indicação do que fazer. Pensávamos que ele iria nos propor fazer um filme, talvez projetá-lo aqui, coproduzi-lo. Muito inesperadamente ele nos fez essa proposta”, diz Costa.

Na época, o diretor estava prestes a terminar “Imagem e Palavra”, de 2018. O longa foi editado e finalizado naquele ambiente. Exibido em Cannes, rendeu a Godard uma Palma de Ouro especial. O troféu faz parte da decoração, além do Leão de Ouro recebido em Veneza em 1983, por “Carmen de Godard”.

A sala de 60 metros quadrados pode ser acessada por só dez pessoas ao mesmo tempo, durante 30 minutos. Uma corda impede a circulação pelo ambiente, e os visitantes podem se sentar em um banco ou duas cadeiras para assistir a nove curtas de Godard. Sempre às 17h, o próprio “Imagem e Palavra” é exibido.

Desde quando foi inaugurada, no começo de dezembro, a instalação recebeu cerca de 4.000 visitantes.

“Existe uma maré de amantes de Godard, está sempre cheio. Entre os fanáticos, cada um tem uma referência, e a sala tem muitos indícios”, afirma Costa.

Mesmo quem o conhece superficialmente se detém bisbilhotando os livros, as peças penduradas no mancebo, autorreferências, homenagens. Ou constatando o ar arqueológico do século 20 que impera no espaço, com aparelhos de visual obsoleto, cabos e extensões e um cheiro indefinido de casa –não galeria ou museu.

Fora o som dos filmes, o silêncio é total, e os visitantes se esforçam para parecer comedidos, evitando olhar o celular. Fotos, então, só se forem feitas discretamente.

Embora o cinema esteja no centro da linha curatorial da Fundação Prada desde quando foi criada, nos anos 1990, a instalação permanente de Godard contrasta com outros projetos na atual sede milanesa, inaugurada em 2015. Com 19 mil metros quadrados, inclui espaços grandiosos para mostras de todos os tipos, cinema, restaurante e café.

Godard escolheu uma sala distante das outras e da agitação, o que reforça o caráter doméstico de seu projeto. Todo o conteúdo da sala foi doado à fundação, que afirma não ter pagado cachê ao diretor.

“É um gesto genial. Normalmente essas coisas acontecem post-mortem. Mas se, em vez disso, ele participa, é como se fizesse um gesto de afronta à morte, dizendo ‘decido eu’”, afirma Costa.

Erramos: o texto foi alterado

A Fundação Prada não é voltada exclusivamente à moda e não é a sede da grife. O texto foi corrigido. 

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