Descrição de chapéu
Cinema

Filme 'De Quem é o Sutiã?' nos conquista em seus primeiros minutos

No último terço, o longa ameaça perder o interesse, e mesmo a presença no elenco de Paz Vega não ajuda a evitar essa impressão

De Quem é o Sutiã?

  • Quando Estreia nesta quinta (20)
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Predrag "Miki" Manojlovic, Denis Lavant, Paz Vega
  • Produção Alemanha/Azerbaijão, 2018
  • Direção Veit Helmer

Realizado por um alemão, ambientado no Azerbaijão, com atores principais vindos da França, da Espanha, da Sérvia e da Rússia, "De Quem é o Sutiã?" é uma autêntica produção europeia (ou da Eurásia).

Começamos por estranhar esse título escolhido pela distribuidora brasileira. No original, não é muito melhor: "The Bra" (ou seja, "O Sutiã"). O que nos espera? Uma comédia popular em que o vulgar predomina?

Com as primeiras imagens, porém, surge a surpresa. Um trem passa apertado por um bairro pobre de uma região montanhosa. Um menino sopra um apito para que todos os moradores tirem as roupas dos varais colocados sobre os trilhos, e removam também as mesas onde jogam dominó ou algo parecido.

Não são imagens que vemos comumente no cinema, nem mesmo no japonês, que tanto filmou viagens de trem. Sabemos, então, estar diante de um filme invulgar, que já nos conquista em seus primeiros minutos.

Para driblar a dificuldade linguística, o longa não tem diálogos. Ou seja, seu diretor, Veit Helmer, teve de se esforçar para narrar a história somente com imagens, o que pode ser um exercício interessante nestes tempos em que os filmes precisam entregar enredos mastigados para o público.

A trama é pueril. Numa dessas passagens do trem, o maquinista vivido pelo sérvio Miki Manojlovic (de "Underground – Mentiras de Guerra", grande filme de Kusturica) percebe que um sutiã ficou preso na dianteira do veículo, e passa a percorrer as casas para descobrir a dona do acessório, numa releitura um tanto anacrônica da história de Cinderela.

Falando em anacronismo, "De Quem é o Sutiã?" lembra o cinema europeu dos anos 1980, começo dos anos 1990, na linha do poético "O Ilusionista", de Jos Stelling. O lado ruim disso é que por vezes sente-se também um ligeiro parentesco com filmes como "Delicatessen", de Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet. É o risco do referencial.

Com seus 90 minutos de duração, sente-se ainda o peso da repetição no último terço, quando o filme ameaça perder o interesse. A presença no elenco de Paz Vega (atriz que inexplicavelmente não atingiu o patamar de uma Penélope Cruz) e Denis Lavant (ator-fetiche de Leos Carax) não ajuda a evitar essa impressão de queda.

As imagens iniciais, contudo, ficam conosco muito depois da projeção, e de certo modo a opção de ressaltar a força da narrativa puramente visual é simpática e mantém a impressão positiva no balanço final.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.