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The New York Times Cinema

Filme do casal Obama faz crônica emocional da guerra comercial EUA-China

'Indústria Americana' narra história de companhia chinesa que toma controle de fábrica da GM em Ohio

Manohla Dargis
The New York Times

“A coisa mais importante não é quanto dinheiro ganhamos”, afirma o bilionário chinês Cao Dewang em “Indústria Americana”, pouco antes que o vejamos embarcar em um jatinho executivo. O que importa, ele diz, é a visão dos americanos sobre a China e seu povo.

Em 2016, Cao abriu uma divisão de seu grupo Fuyao, fabricante internacional de vidro para automóveis, em uma fábrica fechada da General Motors perto de Dayton, Ohio.

A GM havia fechado a fábrica —conhecida como General Motors Moraine Assembly Plant— em dezembro de 2008, invocando uma queda na venda de utilitários esportivos, e deixou milhares de trabalhadores desempregados no mesmo mês em que o governo dos Estados Unidos iniciou um pacote multibilionário de resgate à indústria automobilística.

A fábrica de Dayton ficou inativa até que a Fuyao anunciou que tomaria seu controle, investindo milhões de dólares e contratando centenas de trabalhadores locais, números que em breve aumentariam ainda mais.

Os veteranos documentaristas Steven Bognar e Julia Reichert, um casal que vive perto de Dayton, registrou o fechamento da fábrica da GM. Incluíram a imagem da última picape a deixar a linha de montagem em “The Last Truck: Closing of a GM Plant”, documentário de curta-metragem de 2009. Essa imagem cristalizadora também aparece em “Indústria Americana”, que revisita a fábrica seis anos depois.

A história que eles contam em formato longo no filme é complexa, inspiradora, oportuna e narrada de forma muito bela, abarcando continentes em seu panorama sobre o passado, presente e possível futuro dos trabalhadores dos Estados Unidos. (Esse é o primeiro filme que a Higher Ground Productions, a produtora de Barack e Michelle Obama, está lançando pela Netflix.)

“Indústria Americana” começa com recordações breves e tristonhas sobre o fechamento da fábrica, rascunhando o passado e prenunciando tempos difíceis pela frente. A história que o filme narra começa em 2015, em meio ao otimismo e à atividade intensa do recomeço, incluindo uma apresentação entusiástica da Fuyao aos candidatos americanos a emprego. Bognar e Reichert, que filmaram o documentário com ajuda de diversos outros profissionais —a editora é Lindsay Utz— têm olho excelente para rostos, e rapidamente fecham a tomada para mostrar as expressões das pessoas presentes. Alguns dos candidatos ouvem estoicamente; uma mulher, com a mão sobre a boca, se move silenciosamente no assento, tamborilando em ritmo nervoso com os dedos enquanto o representante da Fuyao apresenta sua mensagem.

De maneira detalhada mas abrangente, recorrendo a entrevistas e imagens obtidas no local, os documentaristas rapidamente estabelecem uma linha narrativa clara e forte, enquanto a nova empresa —Fuyao Glass America— sai do chão. O otimismo dos trabalhadores é palpável.

O acesso que os realizadores obtiveram é notável. Bognar e Reichert dedicaram alguns anos a fazer “Indústria Americana”, um comprometimento que fica evidente na narrativa formada por múltiplas camadas, e pela confiança que eles demonstram ter conquistado. Trabalhadores americanos e trabalhadores chineses em visita abrem suas casas e seus corações; um deles, Wong He, um engenheiro de fornalhas envolvente mas discretamente melancólico, fala de modo comovente sobre sua mulher e filhos na China.

A história dele é apenas uma das tramas em uma crônica emocional e politicamente aguçada de capitalismo, propaganda, valores conflitantes e direitos dos trabalhadores. Alguns sofrem lesões, e outros estão em risco. Vidros quebram, e a paciência se desgasta. Os gestores, tanto chineses quanto americanos se queixam sobre a produção e especialmente sobre os trabalhadores americanos, que por sua vez parecem no geral gratos por terem conseguido uma nova oportunidade. Uma operadora de empilhadeira chamada Jill Lamantia está morando no porão da casa da irmã, quando o filme a mostra pela primeira vez. O emprego na Fuyao permite que ela se mude para um apartamento, mas, como todo mundo mais, ela enfrenta dificuldades com as demandas da companhia.

Quando o documentário transfere seu foco à China, para uma visita dos gestores americanos à sede da Fuyao, logo se torna evidente que alguém terá de ceder. A subsidiária americana está perdendo dinheiro e o camarada Cao, como o proprietário da empresa é conhecido, não está feliz. A frustração dele pode parecer engraçada mas, à medida que sua insatisfação cresce, a temperatura esfria e os gestores se tornam mais e mais hostis com relação aos trabalhadores.

Para os espectadores que jamais viram o interior de uma fábrica chinesa, essas cenas —com trabalhadores cantando em uníssono, exercícios de construção da confiança e desfiles extravagantes— podem parecer estranhas, ou simplesmente uma variação das práticas modernas de gestão.

“Indústria Americana” é um filme político sem ser didático ou estridente, e conecta os pontos sociopolíticos com inteligência, às vezes com a ajuda de uma trilha sonora inspiradora de Chad Cannon, que evoca Aaron Copland.

Os realizadores não criam vilões, ainda que alguns dos participantes cheguem perigosamente perto de um comportamento malevolente, como um executivo americano que brinca com um colega chinês dizendo que seria uma boa ideia tampar com esparadrapo as bocas dos trabalhadores americanos falastrões. É um diálogo chocante —só o gestor chinês parece se preocupar por a conversa estar acontecendo diante da câmera, nem que apenas pelo antagonismo aberto para com a força de trabalho da empresa.

São essas pessoas —Timi Jernigan, John Crane, Shawnea Rosser, Robert Allen e tantos outros— que dão ao filme sua linha emocional, por conta de de seu otimismo e de sua decepção. As histórias deles e a história de sucesso de Cao apresentam um enorme contraste.

O patrão recorda que a China de sua juventude era pobre. Agora, de acordo com a revista Forbes, ele é um dos homens mais ricos da China, e seus hobbies incluem golfe e colecionar arte. O fruto de seus esforços é visível em “Indústria Americana”, em cenas que o mostram relaxando e pontificando. E trabalhando também, é claro, sempre trabalhando, o que inclui cenas em um luxuoso escritório onde um par de quadros no estilo do realismo socialista o mostram em recorte diante do céu, como um Mao Tsé-tung adaptado à modernidade —imagem que os cineastas mantêm na tela longamente, permitindo que seu significado desabroche como uma centena de flores.
 

Tradução de Paulo Migliacci

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