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Livros

Poema traça a busca infinita, no SUS, de travesti por um novo corpo que nunca terá

Texto faz parte de 'Quadro de Força', um livro que revela maturidade no uso da linguagem poética

Amador Ribeiro Neto

Quadro de Força

  • Preço R$ 38 (112 págs.)
  • Autor Fabio Weintraub
  • Editora Patuá

Faz alguns livros que Fabio Weintraub tem se dedicado à poesia social. É uma escolha perigosa. Se viver é perigoso, fazer poesia social também é. Risco que ele assume na oralidade, sem temer baque algum da palavra. Antes, converte a dicção popular em uma de suas maiores conquistas.

Os poemas de “Quadro de Força” fazem crônica contemporânea brasileira, vão ao cerne da questão para dizer coisas essenciais e enunciá-las de forma única.

Tem pegada para a cena internacional também. O aqui e o ali. Tudo ligado: “arrancada do carro/ espancada com barra de ferro/ pau na xota/ ferro na cachola/ mijo em cima dela/ afundamento de crânio/ [...] ora, direis, ouvir estrelas”.

Social, mas sem levantar a bandeira cega dos marginalizados. Não esquece as intertextualidades lítero-sociais nem se faz de pobre vítima dos dominadores. Resumo da ópera: causa desconforto na galera engajada que busca na literatura compensação para a sua apatia sociopolítica. E que só se delira com os signos em si.

O poeta e editor Fabio Weintraub, em foto de 2010 - Éric Brochu

Estamos diante de um livro que revela maturidade no uso da linguagem poética. As imagens visuais, sonoras e semânticas comentam-se mutuamente. E, por isso mesmo, chispam para além de si. Ou seja, o que o poeta fala é visto, ouvido, pensado, refletido, reverberado pelo leitor. 

Por exemplo, na dimensão da violência transmitida nas poucas palavras, no jogo de sons, na escolha semântica disposta nestes três versos da estrofe final de um dos poemas: “não vieram de Vênus/ esses assassinos/ são mesmo daqui”. Um soco no estômago.

A mesma força bárbara da secura dos tiros que reverberam pelo livro, das mortes estiradas nas ruas, dos terrenos baldios habita corpos expostos aos desejos embrutecidos em: “do pau repleto/ recebo o leite em três jatos:/no peito/ na boca /nos olhos [...]”.

Como Weintraub não faz uso da pontuação em seus poemas, as significações abrem-se em leque. No caso dos dois poemas em prosa do livro, a ambiguidade fica ainda mais explícita. E as fraturas da leitura entregam o livro a novas possibilidades. E contornam as armadilhas tão comuns nas poesias de temática social. 

O poeta sabe que não se faz poesia para o público, mas público para a poesia. Como Maiakóvski, aposta na linguagem poética como arma.

E, com propriedade, na maior parte de “Quadro de Força”, seu projeto alcança bons resultados. Como em “Sete Poemas Trans”, um dos mais felizes do volume, que desde o título explora o simbolismo do número sete e traça a busca infinita, numa fila do SUS, de uma travesti por um novo corpo que nunca terá.

O novo livro de Weintraub traça uma linha clara para a poesia social no país.

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